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O ensino anti-sensorial: os
valores da vivissecção na educação científica
Artigo
publicado no livro "Tecendo subjetividades em educação e meio ambiente". A
paginação está incluída neste texto (para fins de citação) e a referência
está no final do artigo.
PG 49 â
O professor de Fisiologia Humana
entrou na sala de aula e avisou a turma da quarta fase de Ciências
Biológicas da UFSC de que, na semana seguinte, fariam uma prática com um
cão, que seria anestesiado e teria seu tórax aberto para que pudessem
observar o movimento dos pulmões e do coração. Algumas substâncias seriam
aplicadas no animal para observar o comportamento daqueles órgãos e,
finalmente, uma dose maior de uma outra substância causar-lhe-ia uma
parada cardíaca. Tudo apresentado sem muito rodeio e de forma muito
natural. Mas a receptividade da maioria dos estudantes frente a esta
notícia pareceu um tanto surpreendente para o professor. A legitimidade
deste uso foi questionada, e solicitaram-se outras formas alternativas de
adquirir o objetivo almejado com a prática. O desfecho da discussão foi a
decisão, do professor, de tornar a prática optativa. Um ponto final
colocado às pressas, em meio a frases reticentes. Talvez, para o momento,
o problema parecia resolvido. Mas o fato era que, na semana seguinte,
aquele cão seria sacrificado por causa de dois ou três estudantes, que
exigiram seus direitos de aprender – privilégio de quem os pode
verbalizar. Três estudantes, no entanto, procuraram reverter o destino
daquele objeto de estudo. No dia 17 de novembro de 1997, por volta das 10
horas, entraram no laboratório no intuito de uma última palavra com o
professor e com os colegas. No laboratório, encontraram apenas o cão e,
olhando para fora, constataram que não havia ninguém nos corredores...
PG 50
â
Conflitos na Educação
Para Bowers (1993. Pg. 117), “a sala de aula poderia ser melhor entendida
como uma ecologia de padrões culturais”. Mas ele comenta que professores
que tendem a ver o que seus próprios padrões culturais normalmente
permitem, perdem o reconhecimento da heterogeneidade da sala de aula.
"Poucos professores compreendem os
aspectos mais críticos de transmissão cultural na sala de aula,
particularmente como a linguagem codifica processos iniciais de
pensamento, o modo pelo qual a maioria da cultura particular aprendida é
tomada como certa, e como suposições culturais estão por baixo das
estruturas de conhecimento que constituem as áreas de assunto do currículo
(Ibid., pg. 119)"
A questão da dissecação/vivisecção
(1), por exemplo, poderia ser usada como um tema gerador, abrindo espaço
para um ambiente rico, onde reflexões sobre as tradições da sociedade e
seus muitos valores seriam exploradas continuamente. Isso tornaria a
educação capaz de lidar, de forma positiva e criativa, com um mosaico de
convicções e perspectivas encontradas na sociedade e na sala de aula,
"dos que acreditam o uso de
animais é aceitável no ensino de biologia, e solucionam problemas como
doenças e defeitos genéticos em humanos, aos que acreditam que animais
merecem os mesmos padrões que aplicamos às pessoas, não devendo ser
utilizados para qualquer pesquisa que possa melhorar o bem-estar humano (Macer
et al., 1996)."
Porém o fato, como Lock e Millet
(1992, pg. 115) apontam, é que os educadores raramente incitam os
estudantes a discussões do porquê animais são utilizados, dos benefícios
educacionais deste uso e dos assuntos morais envolvidos.
Smith (1992, pg. 31) observa que “estudantes parecem cada vez mais
preocupados com o uso de animais na sala de aula”, e que é mais
PG 51
â
comum encontrar classes inteiras
de estudantes se recusam a participar de experiências com animais. “Alguns
destes estudantes estão recusando este uso baseados em convicções morais”
(Kinzie, 1993. Pg. 989). A fisióloga e professora F.B. Orlans (1988, pg.
10) chama atenção aos aspectos culturais, éticos, religiosos e sociais que
influenciam os estudantes a se manifestarem contra o “manuseio de material
morto e o tirar a vida” de um animal.
Reconhecendo este mosaico, começamos a ter uma idéia da dinâmica das
situações conflitivas na educação. O conflito pode surgir no encontro
destes valores transmitidos ativa ou passivamente por algumas práticas
educacionais, com o corpo individual de valores, constituído aqui por
referências morais diferentes daquelas apregoadas pela prática em si. A
palavra “encontro” é enfatizada porque sugere um processo ativo - que o
indivíduo, de algum modo, percebe os valores expressos pela prática
educacional. E é a percepção destes valores, às vezes muito sutil, que
potencializa a abertura de um espaço conflitivo. O conceito de currículo
oculto torna-se crucial neste ponto. Nas palavras de Michael Apple,
currículo oculto é “o ensino tácito para estudantes de normas, valores e
disposições que simplesmente se transmitem no convívio deles com as
expectativas institucionais e rotinas de escolas durante vários anos” (Apple,
1979. Pg. 14).
Colin Marsh (1992, pg. 20) explica o conceito de Seddon sobre currículo
oculto:
"O currículo oculto envolve
freqüentemente a aprendizagem de atitudes, normas, convicções, valores e
suposições expressas como regras, rituais e regulamentos. Eles raramente
são questionados e são tomados como certos. O juízo sobre se um currículo
oculto é positivo ou negativo depende da posição de valores da pessoa
envolvida."
O currículo oculto tem potencial
para desencadear conflitos no ambiente educacional, mas a existência de
conflitos na educação não precisa necessariamente ser levada em todo como
um aspecto negativo. Uma vez identificado, e se administrado de uma forma
apropriada, pode ser responsável para o aperfeiçoamento de habilidades de
raciocínio ético, tanto do estudante como do professor. Deste modo, os
elementos ocultos no currículo podem ser evidenciados de uma forma
positiva, deixando para trás sua condição implícita. Layton (1986, pg.
174) diz que um dos aspectos
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â
necessários para este processo de
“re-valoração” na educação científica é uma “maior consciência de quais
valores estão de fato sendo transmitidos como parte do currículo oculto no
atual ensino de ciências”.
Layton observa que esta ‘re-valoração’ pode tomar diferentes formas e
sentidos. Porém, o primeiro passo para este processo na educação
científica é mudar a percepção do ambiente educacional como um ambiente
livre de valores. “Como óleo e água, ciência e valores são comumente
supostos a não se misturar” (Ibid., pg. 160).
Layton mostra-nos com mais clareza como valores podem ser aprendidos na
educação científica. Ele usa, entre outros, o exemplo da célula de
Kellner-Solvay para produzir hidróxido de sódio e cloro, freqüentemente
empregado em cursos de Química para ensinar a eletrólise do sal. Os
princípios são bem ilustrados neste experimento, mas o espaço para
examinar o impacto que tais ferramentas de aprendizagem causam no ambiente
(como liberação de mercúrio no ecossistema) não é explorado. O “fato”
científico objetivo é o que importa aqui, de acordo com ele. “A seleção
particular de conhecimento (‘fatos’) incluídos no currículo é reflexo
desta posição de valor”, diz Layton, quando a abordagem usada no currículo
evita ou deprecia perspectivas diferentes sobre o mesmo assunto em foco
(Ibid., pg. 160).
Existe ainda uma dificuldade em reconhecer as opiniões e visões dos
estudantes como válidas. Observamos este desinteresse no ensino de
ciências quando não encontramos quase nenhum espaço para o debate de
conceitos tomados como paradigmáticos.
Dessa forma, o conhecimento científico estende-se em todas as suas
dimensões em direção à uma micro-realidade, onde os pensamentos e
comportamentos científicos ainda estão sendo descobertos e absorvidos
pelos estudantes no processo educativo. A ética, inserida neste movimento,
atuaria como elemento (ou ferramenta) fundamental para qualquer tipo de
processo de mudança em relação às reflexões sobre as dimensões do universo
construído pela ciência que inunda a educação científica. O conflito,
então, é gerado dentro desta micro-realidade, onde o papel do educador
seria o de estimular o questionamento acerca das estruturas que dão as
dimensões ao conhecimento científico.
E, escapando da perspectiva crescentemente antiquada que defende a
neutralidade do conhecimento científico, o ensino de ética constitui um
desafio para eticistas e pedagogos, principalmente em como
PG 53
â
traçar uma aproximação desta na
educação científica. E a necessidade de tal aproximação deve-se justamente
ao fato de, com freqüência, constatar-se nos estudantes uma estrutura de
reflexão ética mal desenvolvida (Balcombe, 2000. Pg. 20).
Nesse enfoque, Douglas Allchin (1991, pg. 44) defende que os educadores
devem preparar seus estudantes na integração de valores e conhecimento
científico no sentido de ajudá-los a desenvolverem uma plataforma ética
firme, de onde partiriam decisões e ações de relevância moral.
Proporcionar esta integração tem uma importância crucial na formação do
futuro cientista e profissional.
Não podemos, contudo, afirmar que a educação científica hoje não está
ensinando ética simplesmente porque não há nenhum “curso de ética”
especificado no currículo. Em relação à esta transmissão de conhecimento,
David Layton (1986, pg. 161) afirma que
"Porque reconhecimento explícito
raramente é dado para estimar resultados em educação de ciências, não
significa que valores não estejam sendo transmitidos e ensinados.
Currículo, pedagogia e avaliação representam três poderosos, e mutuamente
reforçados, sistemas de mensagem pela qual os estudantes ‘colhem’
valores."
Nesse caminho rumo à uma educação
ética, a distinção entre meras opiniões e um ponto de vista bem
desenvolvido deve ser feita. Esta perspectiva poderia evitar o
mal-interpretado e negativo senso de que ética é algo unicamente pessoal,
sem um significado ou alcance mais amplo, que acaba por conduzir sua
definição a um tipo de relativismo, onde a extensão ética do pessoal à
esfera social fica praticamente impossibilitada.
Os Valores
O uso prejudicial de animais expõe o estudante a paradoxos, como o de
matar para salvar, ou desrespeitar para respeitar. O reforço neste tipo de
conduta contribui com a decisão de ignorar os princípios éticos e as
situações emocionais envolvidas. Como Jane Goodall afirma:
PG 54
â
"Este tipo de educação sujeita as
pessoas jovens de nossa sociedade para um tipo de lavagem cerebral que
começa na escola e é intensificada, com exceção de algumas escolas e
faculdades inovadoras, ao longo de cursos superiores. Em geral, os
estudantes são expostos à mensagem implícita de que é eticamente aceitável
perpetuar, no nome de ciência, uma variedade de procedimentos
desagradáveis contra animais. Encorajam que eles suprimam qualquer empatia
que possam estar sentindo pelo sujeito de estudo, e persuadidos a
acreditar que a dor e os sentimentos do animal são de uma natureza
diferente da nossa, e que há pouco valor na vida animal. (Balcombe, 2000.
Pg. vii)"
Por esse caminho, existe um processo que facilita tornar práticas
pessoalmente inaceitáveis em socialmente aceitáveis, o que, no caso em
questão, torna-se um processo de dessensibilização. Em um artigo muito
interessante, Arnold Arluke e Frederic Hafferty entrevistaram estudantes
médicos a respeito de suas expectativas e experiências em um laboratório
de fisiologia, onde cachorros eram anestesiados e cirurgicamente
manipulados antes de serem mortos. Os autores demonstraram que estes
estudantes desenvolvem mecanismos para neutralizar o aspecto imoral do
experimento, aprendendo absolvições e permitindo negações de
responsabilidade e malfeitoria.
"Embora a prática com o cão seja
uma experiência breve na educação médica, pode servir como uma lembrança
poderosa de que habilidades técnicas só podem ser aperfeiçoadas ao se
suprimir ou suspender questionamentos morais. Embora seja verdade que
muitos estudantes demonstram um pouco de dificuldade ética sobre a
prática, não lhes é encorajado a expressão ou exame destas preocupações.
(…) Eles aprendem que é aceitável, e até mesmo necessário, suspender tais
questões de forma a adentrar em um aprendizado 'real', o qual eles fazem
com uma sensação de excitação e temor em lugar de incerteza moral. (Arluke
& Hafferty, 1996. Pg. 223)"
PG 55
â
Dorian Solot e Arnold Arluke dizem
que, pela redefinição da natureza do animal na mente do estudante, há uma
redução na identificação entre este e o animal. Collard e Contrucci
afirmam que esta coisificação “permite ao experimentador permanecer
emocionalmente distante e ignorar e/ou rejeitar a experiência do animal” (Collard
& Contrucci, 1989. Pg. 58). Assim a educação orienta os estudantes a
reproduzirem “a perspectiva da ciência ocidental moderna e o tipo de
relação homem-animal que ela implica” (Solot & Arluke, 1997. Pg. 30). Os
animais são redefinidos como “máquinas orgânicas” nas práticas, dando ao
cientista o poder de domínio sobre a vida dentro deste contexto (Ibid.,
pg. 47).
A questão do gênero também é importante de se chamar atenção. A diferença
de gênero na ciência é perceptível, e está se tornando cada vez mais claro
que a obrigação à pratica com animais resulta na perda de pessoas
compassivas na ciência.
"(...) tais atividades geram nos
estudantes uma atitude calosa para com os animais, a natureza, e o mundo
natural, e pode dissuadir alguns estudantes, especialmente do sexo
feminino, da ciência. (…) As mulheres ainda estão em minoria entre
cientistas. (Arluke, 1997. Pg. 50)"
Analisando o gênero da maioria de estudantes que objetam ao uso de
animais, podemos encontrar uma diferença notável de opiniões entre
estudantes do sexo masculino e feminino. De acordo com a psicóloga
norte-americana Theo Capaldo, 76% de todas as chamadas e pedidos para a
“Dissection Hotline” (2) que tratavam de dificuldades com o uso de animais
em escolas e universidades norte-americanas eram de estudantes do sexo
feminino (Animal Voice, 2001. Pg. 9). Em uma pesquisa na Universidade
Federal de Santa Catarina, com 250 estudantes de 6 cursos diferentes de
graduação, uma diferença relevante em relação ao desejo para adoção de
métodos alternativos ao uso de animais na educação foi observada entre
sexos: as mulheres demonstraram maior preferência por estes métodos
(58,2%) que os homens (38,2%) (Tréz, 2000. Pg. 45). Outras pesquisas com
estudantes também mostraram que “atitudes sobre dissecação são forte e
claramente expressas com mais frequência em meninas, que sentem mais
negativamente a dissecação que os meninos” (Lock e Millett, 1992. Pg.
122), e que estudantes
PG 56
â
universitárias achavam que
poderiam aprender mais sem a prática do uso de animais (Lord & Moses,
1994. Pg. 270).
Através da Interniche Brasil (3), outro testemunho reforça o peso que o
uso de animais exerce em selecionar pessoas mais sensíveis para fora do
campo das ciências: “Eu nunca tentei biologia pois apesar da vontade
enorme eu sabia que não teria coragem de matar animais para serem abertos
ou abrí-los ainda vivos” (Interniche, 2002). A fisióloga F.B. Orlans
(1988, pg. 10) afirma que
"(…) nós temos que reconhecer que
(…) alguns estudantes foram excluídos de um interesse em biologia por
causa da ofensa sentida em ter que dissecar um animal morto. Muitos
estudantes não gostam disto. Alguns estudantes acreditam que dissecação é
irrelevante à sua educação, e desnecessariamente destrutiva."
No artigo Learning the Scientist’s Role, Dorian Solot e Arnold Arluke
analisam a “atitude de macho” encontrada em estudantes em aulas de
ciências. Quando na sala de aula, o comportamento estereotipado de gênero
é reforçado em relação à expressão de emoções para com o animal usado. A
maioria dos estudantes masculinos recusa demonstrar uma relação
sentimental ou de cuidado com o animal a ser dissecado (Solot & Arluke,
1997. Pg. 42).
A educadora ambiental Zoe Weil, defendendo uma abordagem ecofeminista para
a educação, critica essa visão linear dominada pelo pensamento racional.
Ela propõe uma abordagem onde o estudante é considerado como um todo. Seu
trabalho é feito de forma a abrir um espaço para o desenvolvimento
intelectual, emocional e espiritual dos estudantes (Ibid., pg. 315).
"(...) emoções, intuições,
pensamento racional, e desenvolvimento espiritual são todas fontes
importantes de conhecimento e devem ser respeitadas e honradas por sua
validade, poder e veracidade. Como uma feminista, eu rejeito a visão
patriarcal de que o pensamento racional é a única base para o conhecimento
e a moralidade, e defendo uma pedagogia que reconhece e reforça a educação
da pessoa como um todo. (Adams, 1993. Pg. 312)"
PG 57
â
Em seu artigo, ela admiravelmente explica como trabalha com estudantes em
temas como meio ambiente e direitos animais, mostrando, inclusive, como
aspectos relacionados ao gênero afetam posicionamentos diferentes em
relação às opiniões dos problemas que ela coloca.
Weil comenta sobre as dificuldades enfrentadas por estudantes
simpatizantes de direitos animais, que se sentem sós em suas convicções e,
por vezes, vítimas de preconceitos por parte de seus colegas. De fato, é
comum que estudantes objetando ao uso de animais normalmente se confrontem
com situações difíceis no ambiente educacional. Resistência, intimidação
ou ridicularização podem ser o resultado de tais objeções (Balcombe, 1994.
Pg. 24). Às vezes, seus sentimentos sobre animais ou sobre a prática em si
são refutados com valores que acentuam a objetividade e a postura
impessoal que deveriam ter quando enfrentando esta situação conflitiva. Um
recente relato de uma estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro
diz que, ao falar para seu professor que estava cursando biologia para
estudar a vida e não a morte, este riu e disse que eles (os estudantes)
deveriam “matar pombos e caramujos africanos com prazer por serem espécies
exóticas e que os ratos foram criados pra nós os matarmos” (4).
Collard e Contrucci dizem que poucos estudantes têm a “coragem e a
integridade” para questionarem seus professores sobre a moralidade deste
uso.
"Estudantes devem saber que se
agirem com emotividade ou criticidade, sua vida profissional pode estar em
risco. O mais provável de acontecer é a maioria destes estudantes perderem
a habilidade de conectarem-se em afinidade com animais muito antes de
adentrarem em estabelecimentos de treinamento profissionais. (...) Quando
estes estudantes terminam o treinamento profissional, a habilidade de
compartimentalizar sentimentos e conhecimento está completa. (Collard &
Contrucci, 1989. Pg. 68)"
Remeto-me novamente à experiência durante minha graduação, quando
questionei, em sala, a necessidade da morte de um cachorro saudável para
estudos de fisiologia humana. As palavras do professor, que reforçaram
esse processo de compartimentalização acima citado, foram mais ou menos
estas: se quiserem ser cientistas, terão de saber
PG 58
â
como distinguir e escolher
corretamente entre seu pensamento racional e suas emoções. É importante
salientar que um semestre antes deste debate acontecer, na mesma prática,
um cachorro havia recuperado consciência no meio do experimento,
levantando-se da mesa com o tórax aberto. Uma das estudantes presentes
começou a chorar, e muitos estavam deixando o laboratório chocados,
enquanto outro professor estava lhes pedindo que ficassem para observar
uma situação fisiológica contornável: “nós podemos aplicar mais
anestesia”.
Nesse acesso ao conhecimento científico objetivo e impessoal, os
“cientistas” devem cumprir com a tarefa quase inumana de dividir a
integridade humana em mundos pessoais dissecáveis - o racional e o
emocional.
O médico e professor norte-americano Nedim Buyukmihci (2001) afirma que
"Estudantes, até mesmo no nível
profissional, perdem um grau de sensibilidade para com a vida de
não-humanos quando forçados a matar (...). Sabemos de estudos em humanos
que muitas pessoas tendem a obedecer figuras de autoridade mesmo quando
sendo solicitadas a fazer algo que achem ser moralmente censurável."
Esse processo de dessensibilização pode fazer com que os estudantes sejam
mais “frios” com os animais e, por conseqüência, com humanos (Balcombe,
2000. Pg. 15). O processo pode ser interpretado como uma diminuição do
sofrimento por familiaridade, como Andrée Collard e Joyce Contrucci (1989,
pg. 67) descrevem:
"Uma médica de meu conhecimento
falou que sua aula era a de que ‘trabalhar’ em animais era necessário para
ensinar-lhes a dessensibilização, significando uma separação necessária
para ‘evitar ser subjugado pelo horror de certas coisas’."
Podemos observar que a exploração de emoções de estudantes normalmente não
tem algum espaço na educação científica. Jonathan Balcombe (2000, pg. 21)
diz que poucos estudantes afirmam terem cursado disciplinas onde o
objetivo, em algum momento, tenha sido o de ajudar os estudantes a
PG 59
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entenderem seus sentimentos.
Howard Birnie (1978, pg. 29) acredita que a maioria dos educadores ignorou
o domínio afetivo na educação científica. “O afeto é um assunto impróprio
para o estudo nas ciências”, e afirma que
"Tradicionalmente, a educação
científica enfatizou o domínio cognitivo - particularmente conhecimento,
compreensão, e aplicação. (…) A ciência, antes de tudo, é um
empreendimento dinâmico construído por pessoas, que têm emoções, moral e
preconceitos; pessoas que desenvolvem atitudes e valores; e pessoas que
freqüentemente tomam decisões não só baseadas no que elas sabem, mas no
que elas sentem."
Conclusão
O uso prejudicial de animais na educação ainda é uma regra em muitas
universidades brasileiras. Neste contexto, estudantes provenientes de
diferentes composições ideológicas, éticas ou religiosas são direcionados
à execução dos mais variados tipos de experimentos em animais para atingir
bom rendimento (ou boas notas) em seus cursos.
As vítimas da dissecação ou da vivissecção não são apenas as espécies
animais envolvidas nos experimentos. O próprio estudante, no respeito à
sua integridade e dignidade, pode ser também uma vítima. Apesar das
conseqüências fatais e diretas destes métodos para os animais, o prejuízo
causado aos estudantes é raramente considerado. Estudantes podem ser
prejudicados com tais práticas não apenas por, voluntária ou
involuntariamente, passarem pela experiência com animais, mas, também, ao
enfrentar uma possível e pesada reação do ambiente acadêmico uma vez
expressas suas objeções. E isto faz a educação assumir um de seus papéis
mais questionáveis: o do ensino para alienação. A mensagem muitas vezes é
clara: é melhor adaptar-se a enfrentar as conseqüências.
“Dissecções não deveriam ser exigidas na ausência de discussão ética sobre
(...) as implicações morais do seu uso”, e estudantes deveriam estar
envolvidos nos processos de decisão ética na sala de aula, como sugere
Jonathan Balcombe (2000, pg. 82). De outra maneira, o animal dissecado
seria considerado como fora de qualquer domínio de reflexão
PG 60
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moral, e a prática do seu uso
transmitiria uma mensagem subliminar aos estudantes: a de que animais não
são merecedores de consideração moral (Balcombe, 1997. Pg. 14).
A própria palavra uso de animais, por si só, não pode ser dissociada de
uma visão instrumental da vida animal. Não só o status do homem como
senhor dos animais e da natureza é reforçado neste contexto, como também o
caráter descartável da vida não-humana. Não é surpreendente que, em
estabelecimentos de ensino, e especialmente em biotérios, refiram-se aos
animais disponíveis para uso com termos como estoque, demanda, produção e
consumo.
A opção por adotar ou não um processo educacional que arrisca valores
éticos ou religiosos de um estudante deveria ser escolha do próprio
estudante. Entretanto, grandes passos precisam ser dados de forma a fazer
com que o ambiente educacional esteja aberto a estas objeções. “A objeção
de consciência não deveria ser vista como rebeliosa ou como um intento de
questionar o esforço de um professor em ensinar, mas ao contrário,
respeitada como evidência de preocupação e reflexão” (Balcombe, 200. Pg.
81).
Importante perceber que apenas adotar um sistema de opção poderia não ser
suficiente ou desejável, uma vez as objeções de estudantes contra o uso de
animais podem ir além de uma questão de escolha, e se configurar como uma
“violação do direito dos animais” (Downie & Meadows, 1995. Pg. 188). E,
com o crescimento do interesse e atenção para o movimento dos direitos
animais, estudantes e pedagogos estão considerando “crescentemente o valor
das vidas dos animais em função da aprendizagem a ser ganha através de seu
uso” (Strauss & Kinzie, 1991. Pg. 154).
Um comentário final trata da disponibilidade de alternativas ao método
tradicional e o sucesso obtido onde tais alternativas vêm sendo
implementadas - o que reforçaria ainda mais a tese de que o uso
prejudicial de animais na educação deveria ser, se não abolida, no mínimo
opcional. Esta variedade de alternativas não só “vão de vídeos e modelos
anatômicos a simulações de computadores e CD-roms mais sofisticados” (Strauss
& Kinzie, 1994. Pg. 398), mas podem ser encontradas na adoção de
diferentes metodologias e abordagens na educação (5). Performar
experiências em animais, que poderiam ser completamente substituídas por
métodos alternativos tornam tais práticas ainda mais antiéticas.
PG 61
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Downie e Meadows (1995, pg. 192)
perguntam: “Podemos justificar o sacrifício de vidas de inúmeros pequenos
mamíferos para a finalidade exclusiva de ajudar (por exemplo) estudantes
de biologia a aprenderem fatos já bem estabelecidos?”. Nas palavras do
professor George K. Russell, a vivisseção não pode ser justificada apenas
baseada na defesa de uma abordagem de ensino experimental. “Uma maior
preocupação deveria ser dada ao tratamento humanitário de criaturas
sensíveis” (Mayer et al., 1980. Pg. 19).
A conclusão da história
Enquanto as duas colegas vigiavam o lado de fora do laboratório, o
terceiro estudante entrou no recinto, desatou a corrente do pé da mesa
cirúrgica e, com o cachorro no colo, saiu às pressas, ouvindo os gritos de
um funcionário do estabelecimento que presenciou o ato. O cão foi levado
para um carro, o qual partiu para a casa do estudante, que o alimentou e o
acalmou. O estudante pôde sentir, do meio do trajeto até sua casa, um ato
de gratidão por parte do cão, quando este subiu ao banco do passageiro e
repousou a cabeça em seu colo.
Os três estudantes de Biologia foram acusados de roubo de patrimônio
público e invasão (6). Na reunião de colegiado do curso, que determinaria
suas sentenças, a acusação de invasão foi desqualificada pelos próprios
estudantes, pois estavam regularmente inscritos na disciplina e entraram
no laboratório no horário de atendimento e sem o uso de força. A acusação
de roubo, porém, permanecia. Exigiu-se dos estudantes a devolução do
material roubado: a coleira, a corrente e o cachorro. Apenas as duas
primeiras foram entregues pelos estudantes no ato do pedido. A partir
disso teve início um debate que questionava a consideração do animal como
uma mera propriedade, um objeto. Percebeu-se, então, que aquilo tudo não
se tratava do que até aquele momento estava sendo considerado como um
simples furto. Por detrás do ato, uma série de questões éticas foram
trazidas à tona, que acabou por servir de base para a defesa e
justificação do “crime”. A sentença final, após longa exposição de
comentários e colocações, foi uma simples advertência e o compromisso de
realizar um debate sobre o uso didático de animais na universidade,
realizado no final do mesmo ano. A partir daquele semestre, a prática
seria abolida e substituída por um vídeo, que já existia em posse do
Departamento de Fisiologia.
PG 62
â
Sem nome e capturado das ruas pela
carrocinha da prefeitura de Curitiba, para um laboratório em
Florianópolis, e com o número 51 em seu pescoço. E, finalmente, na
companhia de um casal de amigos, e outros muitos amigos caninos, felizes e
sem-número. Seu nome é Krieger, e oxalá ainda esteja por aí abanando o
rabo!
Notas
1. Dissecação é um termo que se
refere ao estudo de um corpo morto (abatido ou não para os propósitos
objetivados), e vivisseção (do latim vivus, vivo; sectione, seção)
significa qualquer procedimento de exploração invasiva, dolorosa ou não,
em um animal vivo para pesquisa experimental e/ou finalidade educativa.
2. A Dissection Hotline é um serviço de atendimento telefônico que a
National Anti-Vivisection Society (NAVS) oferece à estudantes.
3. A Interniche Brasil é uma rede nacional de informações pela educação
humanitária que promove alternativas ao uso didático de animais em
universidades brasileiras (www.internichebrasil.org)
4. Com. Pess. Interniche Brasil, 2002.
5. Para maiores informações sobre métodos alternativos: Jukes, N., Mihnea,
C. (Org.), From Guinea Pig to Computer Mouse: Alternative Methods for a
Progressive, Humane Education. 2nd. Edition. London: Interniche, 2003. And
Balcombe, J., The Use of Animals in Higher Education. Washington: Humane
Society Press, 2000.
6. Ofício número 073/CFS/97, do Chefe de departamento de Ciências
Fisiológicas ao Diretor do Centro de Ciências Biológicas da UFSC.
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REFERÊNCIA DO ARTIGO
TRÉZ, T. O ensino
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