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Cadê
o cachorro? Desde que entrei na biologia, temia pelas aulas práticas que necessitassem do sacrifício de animais. Sempre me posicionei contra a prática de tais metodologias dentro da biologia. Animais são mortos inutilmente, em práticas didáticas desnecessárias e anti-pedagógicas. O episódio aconteceu quando cursava a disciplina de Fisiologia Humana. Deveríamos anestesiar um cão, observar que seus pulmões são vermelhos e que realmente inflam e se esvaziam, e finalmente sacrificá-lo. Uma semana antes da aula de laboratório, levantei a discussão dentro da sala de aula. Muitos não queriam participar da prática, mas sempre tem aqueles que querem, pois consideram seu interesse em aprender (?) maior que o interesse do animal em viver. Bom, no final, a prática se procederia, e seria dado o direito de abstenção aqueles que não quisessem participar desta (que até então era obrigatória). O fato de termos conseguido a opção de participar ou não de tal prática não me satisfez, pois sabia que dentro de uma semana, um cão iria morrer inutilmente. Conversei com duas amigas, e combinamos de tirar o cachorro do laboratório. Era 17 de novembro de 1997, 10 horas da manhã. A aula seria neste horário. Enquanto as duas amigas olhavam por fora, entrei no laboratório e não encontrei ninguém, a não ser um cão preto e magro, que me olhava assustado e cabisbaixo. O que se procedeu foi algo que qualquer pessoa, com um mínimo de sensibilidade, um pouco de coragem e conhecimento do fim daquele cão, teria feito. Entrei correndo no laboratório, peguei a corrente do animal e saí "arrastando" o animal pelos corredores da fisiologia. Escutava alguns "ei, ei, ei" de funcionários, mas não olhei para trás. Estava desesperado, mas convicto do que estava fazendo. Levei o cão à um lugar seguro, onde pude acalmá-lo até que pudesse pegar o carro e levá-lo em casa. Na Universidade, a fisiologia chamou a polícia e fez um Boletim de Ocorrência. Acusação: "roubo de patrimônio público" e "invasão". A situação estava ficando ruim... Sem querer, levantamos uma polêmica que estava há muito tempo enterrada. A verdade é que a maioria dos estudantes de biologia não gostam de tais práticas. A maioria simpatizante com a ação. No semestre anterior, na mesma disciplina, uma aluna foi "puxada" para dentro da aula prática, pois estava se sentindo mal com os gritos do cachorro que acordara no meio do experimento, com seu tórax aberto. Um debate foi realizado, no sentido de avaliar tal metodologia dentro do currículo de biologia. Nunca um debate dentro da biologia, num final de semestre, conseguiu reunir tanta gente. Estudantes e professores de outros cursos apareceram. Na reunião de colegiado de curso, que iria definir a sentença à nós três, exigiam a devolução da corrente e do cão, em troca de uma punição menos severa. Prometemos devolver somente a corrente, mas o cão seria impossível. Tínhamos argumentos éticos bastante palpáveis para justificar nosso "crime". Questionávamos o termo "propriedade", "patrimônio público", "roubo", quando estes estavam sendo aplicados a um ser vivo. Aliás, um ser vivo que foi "sequestrado" das ruas, onde vivia livremente, para ser confinado em um biotério onde teria um fim, na pior das hipóteses, semelhante à infelicidade do cão do semestre anterior. A acusação de "invasão" era infundada, pois estava devidamente matriculado na disciplina, e entrei no laboratório em horário de aula. Fomos sentenciados em uma simples advertência, com a condição de promovermos, no semestre seguinte, mais três discussões acerca do tema. Conseguimos acabar com a utilização de animais na fisiologia destinados à biologia, que foram substituídos pela alta tecnologia de um vídeo! A disciplina de Zoologia de Vertebrados, que pratica a vivisecção em pombos e sapos, abandonou o uso deste último, mas persiste no pombo. Algumas disciplinas ainda insistem em tais práticas desnecessárias e ultrapassadas. Muitas vezes as leis existem injustamente, e se a transgressão à estas implica em mais benefícios do que prejuízos, elas devem ser desobedecidas. Isto se chama desobediência civil. Neste caso, a lei foi transgredida, e os frutos desta transgressão agora são colhidos. Muitos alunos não terão mais que passar por esta didática embrutecedora e insensibilizadora, e muitas vidas animais serão poupadas. Cabe aos estudantes exigir a substituição de tais práticas, uma vez ferido qualquer princípio moral ou ético. Alternativas existem, é tudo uma questão de força de vontade. É neste clima que a biologia deve seguir, respeitando a vida. Bom, o cão...ele se chama krieger, e está passando muito bem por aí. * Membro do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis, aluno do Laboratório de Ética Prática, na Filosofia. Artigo publicado no jornal AN Capital de 5.2.99 |