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A Utilização de Cães como Recurso Didático na Medicina Debate realizado no dia 18 de junho de 1999 o Auditório da Reitoria - UFSC Palestrantes: -
Joanésia Rothstein – Diretora do Biotério Central da UFSC -
Sônia Felipe – Filósofa e professora de ética e filosofia
política na UFSC -
Armando d’Acâmpora – Cirurgião geral, professor da disciplina
de Técnica Operatória no CCS -
Paula Cals Brugger – Bióloga e doutora em Sociedade e Meio
Ambiente -
Rogério Gallego – Cirurgião e professor de Técnica Operatória
no CCS -
Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho – Etólogo e chefe de
departamento de Zootecnia do CCA Sobre
a mediação de João de Deus Medeiros, Diretor do Centro de Ciências
Biológicas, o debate se iniciou. A fala inicial foi de Joanésia Rothstein, que falou sobre as atividades do Biotério Central, que é um laboratório de produção de modelos biológicos para a utilização de animais para o progresso da ciência. Os cães são recolhidos pela vigilância sanitária das prefeituras de Itapema e Curitiba, onde aguardam pela reclamação dos donos e depois ficam sob a custódia da prefeitura. Esses cães são então comprados pela UFSC – o Biotério Central não produz animais para fins didáticos. Os cães recebem uma alimentação balanceada e de qualidade e ficam sob observação para se detectar alguma zoonose. Estes cães são, então, disponibilizados ao ensino e a pesquisa. O Biotério segue os princípios éticos para animais de utilização ditados pelo Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (COBEA). Falou que a legislação no Brasil é muito carente no que diz respeito a regulação de animais para usos científicos. Segundo ela, o Biotério tem se preocupado em querer reduzir os animais em experimentos, através de novas tecnologias, padronização de linhagens, instalações apropriadas e controle genético. Informou que menos de 5% dos animais utilizados estão relacionados com o progresso da ciência. Em
seguida a filósofa Sônia Felipe seguiu denotando a importância deste
tema que tem sido deixado em segundo plano nesta universidade, algo que
desde 1930 vem sendo discutido exaustivamente em muitos países,
principalmente no que diz respeito à critérios éticos da relação
médico/paciente e aprendiz de medicina/“recursos didáticos”. Aqui,
sequer estudamos as teorias éticas para que possamos orientar este tipo
de prática. Temos seguido uma tradição ética racionalista
antropocêntrica e, acrescenta, hierarquizante. Segundo a filósofa, o
problema não se encontra tanto no caráter antropocêntrico da ética, no
sentido de que ela só pode ser discutida entre seres humanos. A
fundação atual contemporânea de uma das correntes mais adotadas no eixo
anglo-saxão, o utilitarismo, com Jeremy Bentham que, há 300 anos atrás
surpreendeu a corrente racionalista (a qual nos filiamos de modo
a-crítico) com um parágrafo que diz que a razão e a linguagem não são
critérios éticos para orientar nossas considerações éticas, e sim a
capacidade de sofrer. A partir daí, a ciência volta seus esforços para
a minimização da dor. Os hedonistas e epicurianos, antes de Bentham,
também afirmavam que a busca da felicidade estava relacionada com a
diminuição da dor e sofrimento. Peter
Singer, um filósofo contemporâneo e neo-utilitarista, defende o
princípio da “igual consideração de interesses”, quando estes são
semelhantes. Estes interesses devem ser considerados igualmente entre as
espécies que compartilham conosco uma característica em comum – a
capacidade de sentir prazer ou sofrimento, independente da presença de
razão ou linguagem. Kant, com o princípio do “imperativo categórico”,
contribuiu com a reflexão que devemos fazer ao realizar ações que
impliquem na perda da condição de dignidade de outros indivíduos, sendo
estes tratados como meros meios para a satisfação de necessidades
individuais. O princípio ético de Kant está baseado no conceito de
dignidade, e no princípio da liberdade e autonomia moral, que nós não
pretendemos estender aos animais. Mas ficamos ainda a responder, para
conseguir aplicar este princípio neste momento da ciência, se as demais
espécies animais realmente não possuem razão. Este preceito vem sendo
abalado, e vamos observando que existem formas e formas de expressão da
razão. Experiências confirmam que muitas espécies são capazes de
cuidar de seus próprios interesses de sobrevivência muito bem, e melhor
sem a nossa interferência. Os
gregos fizeram uma distinção entre os seres viventes (zoo) e os que eram
donos da vida (bio). Esta classificação não tinha qualquer finalidade
ética. Aristóteles utiliza estes termos politicamente, na polis, uma vez
que os animais (zoos) não podem fazer contratos políticos com o ser
humano, pois estes não podem assumir responsabilidades conosco. A
interpretação errônea destes fatos podem acarretar em consequências
sérias, e é preciso ter cuidado. Citou
também que muitas práticas didáticas foram abolidas em muitas
universidades de vários países. Finalizou
convidando o público presente a participarem da uma disciplina de ética
que ela ministra (Ética III), onde este assunto é tratado com mais
profundidade. O
professor Armando d’Acâmpora, em uma breve exposição, citou os
objetivos da disciplina de Técnica Operatória, dentre eles, o de ensinar
ao aluno como se comportar frente a um paciente real antes, durante e
após a cirurgia. Os alunos precisam ter este comportamento com ética e
profissionalismo. Ensinar o manuseio de tecidos vivos é indispensável,
pois apresentam situações adversas e inesperadas – principalmente ao
cirurgião – no caso de lesões acidentais de veias e consequente
sangramento intenso. Outro objetivo fundamental é ensinar método ao
aluno, já que as cirurgias são metódicas e padronizadas, salvo
condições excepcionais. A
professora Paula Brugger iniciou em um enfoque ambiental, salientando a
relação homem X animal como sendo muito importante, e fazendo parte da
relação sociedade X meio ambiente. Em nossa cultura ocidental
industrializada, o homem desenvolveu uma relação de objeto com a
natureza e, consequentemente, com os animais. O termo recurso é
utilizado, inclusive, para nós, seres humanos – sendo reforçado pela
nova onda de globalização. Esse tipo de visão sobre a natureza é
bastante pragmática. Paula faz uma crítica a ética conservacionista,
uma vez que ela se preocupa apenas em salvar espécies em extinção, ou
seja, bancos genéticos, se esquecendo de outras espécies. Não
estaríamos preservando a vida pelo direito à vida. Essa
visão pragmática e anti-ética faz parte da raiz do que se chama hoje de
crise ambiental – que é uma crise de sociedade, da cultura
cientificista e ocidental. Sobre
a utilização de animais em específico, Paula acredita que é uma
prática cruel e que envolve sofrimento. Por mais que se diga que se
obedeça as normas do COBEA, o processo de sofrimento começa com a
captura do animal, transporte, confinamento, etc. Sobre
a pesquisa, ela acredita que os resultados provindos da utilização de
animais podem ser extremamente enganosos quando extrapolados aos seres
humanos. A experimentação animal é responsável pela produção de
produtos tóxicos ao meio ambiente e a saúde humana, uma vez que poluem a
biosfera e produzem não raramente efeitos colaterais sérios ao ser
humano. Citou também como absurdo os testes realizados para produtos de
limpeza e higiene. Mesmo
com as objeções feitas à utilização de animais, milhões destes
morrem em experimentos e, um absurdo, como excedente de pesquisa. Na
opinião dela, deve-se investir em alternativas imediatamente, e não se
acomodar com a situação. Citou a realidade virtual, que aumenta a
precisão de acerto quando aplicada em animais e evita a morte
desnecessária de milhares de animais. Afirma
que a experimentação animal é uma faceta doentia da relação sociedade
e meio ambiente, e que deve mudar. Numa reflexão sobre a ciência, Paula
pergunta se tudo o que é científico é sempre o justo. Afirma que, como
a ciência está atrelada a ganância que consome o planeta, e como ela é
uma realidade construída pelos homens, ela não é neutra, tampouco boa
em si. O
paradigma mecanicista é muito presente na relação sociedade e meio
ambiente, e representa o modelo mecanicista também adotado pela medicina
alopática e cartesiana. A
ciência não questionada se transforma em fundamentalismo, e devemos
prestar muita atenção à isto. Finalizou
salientado que muitas vezes criticamos outras culturas, dizendo que não
refletem sobre sua realidade, e esquecemos de olhar para a nossa. O
professor Luiz Carlos “Pinheirinho”, zootecnista e etólogo, fez uma
exposição em cima de três questionamentos. A primeira é: os animais
sofrem? Isso pode parecer óbvio em primeira instância, porém nem todos
acreditam que sim. Se todos tivessem esta certeza, o uso de animais pela
sociedade humana não seria da maneira como é utilizada hoje.
Questionaríamos se é justo, por exemplo, que para que possamos comer um
ovo a 10 centavos uma galinha viva durante toda sua vida num espaço de
360 cm2 (menos da metade de uma folha de papel A4). Primeiro é
preciso definir o que é sofrimento. Segundo ele, é um desconforto
físico e/ou psocológico agudo e continuado. Não há nenhuma evidência
de que os animais não sintam a mesma dor que nós sentimos , e é
exatamente por isso que o animal é utilizado em experimentação – é
porque suas estruturas neurofisiológicas são exatamente as mesmas dos
humanos, com a diferença de que nós possuímos um cérebro e um
intelecto mais desenvolvido. Do ponto de vista psicológico, o animal
sofre? A resposta é sim. O animal, considerado durante muito tempo como
uma máquina viva, um objeto, hoje é considerado pela própria zootecnia
moderna como um sujeito – uma entidade psicológica. Toma como exemplo 2
argumentos que revelam o sofrimento animal do ponto de vista psicológico.
Um recente trabalho da revista Nature (17/6/99) compilou um estudo de 151
anos de observações de macacos e chimpanzés em vários locais do mundo.
Este trabalho concluiu que estes animais tem cultura – algo como sendo
característica exclusiva dos humanos. Um exemplo claro disso é o ato de
lavar batatas em macacos japoneses (Macaca alouatta). Uma macaca jovem
começou a lavar batatas e esse comportamento foi aprendido por todos os
outros macacos, e é transmitido de geração à geração. Outro exemplo
é o ato de comer nozes – a mãe ensina ao filho o complexo ato de
quebrar e comer uma noz. Alguém poderia dizer que os macacos são animais
mais desenvolvidos, mas qual será a linha que delimita a cultura nos
animais e a inteligência animal? O professor citou o exemplo do cachorro
que mora em sua casa. Ele colhe os abacates em determinado momento,
agrupa-os em um local do jardim com sol, e come-os quando amadurecem. Do
ponto de vista do racionalismo antropomórfico, os animais sentem dor e
demonstram sofrimento tanto físico quanto psicológico. A
segunda pergunta - O uso de animais implica em sofrimento? Depende do uso. O uso
de animais é aceitável eticamente? Depende da moral e ética de cada
indivíduo. Por exemplo – o uso de vacas leiteiras criados em campo para
extração de leite basicamente não implica em sofrimento para o animal,
acredita. Alguém que defende radicalmente os direitos animais pode dizer
que nenhum ser humano tem o direito de usar qualquer animal em benefício
próprio – o animal tem a sua vida e o direito de decidir sobre o seu
destino independentemente. Alguém que sustente uma visão mais
produtivista do assunto diria que o sofrimento animal não importa,
confinando o animal e achando que produzirá mais leite (neste momento ele
afirma que isso é um engano, pois ele não produzirá mais leite). O
debate sobre o bem-estar animal começou de fora para dentro – não foi
o cientista, o produtor de ovos e leite ou o médico que começaram com
estes questionamentos, foi a sociedade. Estes questionamentos sempre vem
de fora para dentro. Apresentou 3 teorias básicas, a saber: Produtivista
– O resultado econômico é o que importa, e isso justifica o sofrimento
ou a argumentação de que o animal não sofre. Utilitarianista
– Os benefícios devem ser superiores aos prejuízos. O cuidado com o
bem estar animal não pode resultar, por exemplo, em queda da
lucratividade, e que o uso de animais e algum sofrimento é justificável
se os benefícios são maiores que os danos. Direitos
Animais – estes direitos devem ser análogos aos do homem. Esta teoria
defende que os animais não podem ser utilizados como meios, pois eles tem
o direito de decidir sobre suas próprias vidas. Geralmente que defende
esta teoria é adepto ao vegetarianismo. A
terceira pergunta é: é necessário o uso de animais? Ele afirma que a
indução de dor desnecessária ou calculada é eticamente reprovável –
não há justificativa para isso. Mas
esta pergunta deve passar por reflexões O
resultado da pesquisa médica com animais resulta num maior bem-estar
humano? Ele
cita os resultados da pesquisa com mapeamento genético, onde várias
doenças (mal de Alzheimer, calvície, câncer de cérebro, asma,
envelhecimento precoce, etc.) estão patenteadas por indústrias
farmacêuticas, universidades, etc. Ou seja, existe um interesse maior por
detrás de toda esta pesquisa. “Enquanto
isso, triplica a fome no mundo e o número de pobres, segundo a ONU”,
questiona. Ele
reflete: “Assim como na experimentação animal, eu ouvia na agronomia
que era preciso produzir para alimentar o mundo, e que isso justificava
envenenar o meio ambiente, impor tecnologias que os agricultores acabavam
por perder suas terras devido ao endividamento, e tudo isso para acabar
com a fome no mundo!”. Segundo a FAU, de 1980 à 1995, a população
humana no globo aumentou em 25%. No mesmo período, a produção de
alimentos aumentou 30%. Ou seja, a produção de alimentos aumentou mais
que a população humana e os resultados são estes – o aumento do
número de pobres no mundo. Quem se beneficia com isso tudo? Provavelmente
não é a maioria da sociedade humana. Apesar
de tudo, nossa decisão pertence somente à nós,... além, é claro, da
legislação, que é uma imposição da sociedade para quem faz pesquisa
(ela vem de fora para dentro – não foram os cientistas que criaram a
legislação). Conclui
que não há neutralidade científica, que a adesão a princípios éticos
não compromete o uso de métodos e critérios científicos rigorosos.
Isso é uma falácia que tentaram nos impor aqueles que advogam uma
a-criticidade com relação ao uso da ciência. Todo cientista, como
qualquer ser-humano, tem uma responsabilidade social e ética com seu
trabalho. “Quando a bomba explodiu, abrindo o universo e revelou a
perspectiva do infinitamente extraordinário, também revelou o fato mais
antigo, mais simples, mais comum, mais negligenciado e mais importante de
que cada homem é eternamente acima de tudo responsável por sua própria
alma”, cita de um cientista. Gilberto
Galego cita que durante anos as pesquisas que se utilizaram de modelos
animais não foram discutidas porque os resultados desta pesquisa tinham
um alto impacto social. Exemplos: vacina rubéola, varicela, caxumba, etc.
Quem de vocês até hoje não foi vacinado quando criança? A
Comissão de Pesquisa e Ética em Saúde – credenciada junto ao Conselho
Nacional de Ética na Pesquisa do Ministério da Saúde -
foi criada objetivando estabelecer normas referentes à
utilização de animais em projetos de pesquisa submetidos à apreciação
desta mesma comissão, que dispõe de critérios. Por exemplo, “A
utilização de animais em pesquisa científica deve ocorrer somente após
ser provada sua relevância para o avanço do conhecimento científico –
considerando-se a impossibilidade de métodos alternativos como modelos
matemáticos, simulação computadorizada, sistemas biológicos in vitro
ou outro modelo adequado. A espécie a ser utilizada e o cálculo do
tamanho amostral devem ser adequados para a obtenção de resultados
válidos. Deve ser oferecido alojamento, transporte, alimentação e
cuidados adequados à espécie através de assistência qualificada.
Procedimentos que possam causar dor ou angústia devem ser desenvolvidos
com sedação, analgesia ou anestesia. Quando for necessário ao estudo,
ou após o mesmo, se indicado que os animais devam ser sacrificados, esse
procedimento deve ser realizado de forma rápida, indolor e irreversível”.
O grupo de pesquisa do qual Gilberto faz parte segue estes critérios. Ele
lamenta que os órgãos e tecidos são estruturas tão complexas e bem
construídas que nenhum cientista conseguiu até hoje conseguiu inventar
até hoje alguma máquina ou estrutura semelhante para que possamos fazer
pesquisa ou até mesmo para que possamos fazer docência. Segundo
Gilberto, sua equipe procura substituir os animais de experimentação
para a docência para que possam treinar bem seus alunos para a prática
cirúrgica, mas infelizmente não existe nenhum material não-vivo que
possa substituir um tecido vivo, acredita. Eles
tem aprovado pelo FUNGRAD um projeto para aquisição de modelos
experimentais para a redução do número de animais que utilizam na
docência. Infelizmente nem aqui nesta escola nem em qualquer outra do
mundo, por mais desenvolvido que seja o país, se consegue ensinar
cirurgia ou manuseio de tecidos vivos sem a presença destes. “Deus foi
o único que conseguiu criar um tecido ou um órgão ou uma estrutura tão
bem feita até hoje”, afirma. Ele
teve a oportunidade de conhecer um padre reitor da Universidade de Paul e
consultor para pesquisa junto à NASA, John Mainghi, que participou de um
evento internacional de pesquisa e medicina, numa mesa exclusiva para o
debate de ética em pesquisa. Nessa ocasião perguntou à ele o que ele
pensava sobre a pesquisa com animais, e ele respondeu com 3 visões: como
reitor ele deveria autorizar as pesquisas; como consultor, deveria
viabilizar as pesquisas, e como padre, deveria vigiar as pesquisas. Ele
finaliza lendo o artigo 2o do COBEA: “O
experimentador é moralmente responsável por suas escolhas e por seus
atos na experimentação animal”. Ele está ciente disso quando faz
pesquisa ou quando utiliza animais para a docência. O
debate seguiu com vários depoimentos, dos mais expositivos aos mais
arrogantes, passando por momentos de emoção e raiva. Para
quem tem interesse no assunto, vale a pena conferir a gravação em K7
deste debate – são 3 horas e 40 minutos! Quem
quiser tê-lo na íntegra, e tiver a paciência de escutar tudo o que foi
falado, entre em contato com a Rede. COMENTÁRIOS Gostaria
de levantar algumas considerações sobre este tema que foram referidos no
debate de forma que me pareceram inconclusivas e passíveis de
contra-argumentação: 1)
Uma das considerações importantes que devem ser analisadas para
se verificar o sucesso de uma intervenção cirúrgica é a recuperação
do paciente, levantada pelo professor Luiz Carlos Pinheiro Filho. A
técnica em si é importante, mas ela inevitavelmente depende da
observação pós-operatória do paciente, que dirá se a técnica foi bem
aplicada ou não. O que dizer dos animais que, após sofrerem
intervenção na Técnica Operatória, são mortos? Como avaliar o sucesso
da intervenção? 2)
O professor d’Acâmpora afirmou, em sua fala inicial, que um dos
objetivos da técnica operatória era o de ensinar ao aluno como se
comportar frente a um paciente real antes, durante e após a cirurgia. O
detalhe é que o “paciente real”, na maioria das vezes, acaba morto.
Na universidade de Miami, EUA, em 98 houve uma campanha que, por ironia do
destino, se chamava “Save your First Patient” (Salve seu primeiro
paciente) – parece bastante familiar, não? Hoje, a universidade de
Miami não utiliza mais animais na educação médica. 3)
Realmente o estudante deve ter contato com tecido vivo, e todas
situações cirúrgicas que possam decorrer deste tipo de recurso. Muitos
recursos didáticos alternativos a utilização de animais não oferecem
este tipo de informação. Um depoimento de uma estudante de medicina
sobre a carência de conhecimento prático observado em estudantes
intercambistas também foi importante neste sentido. Mas é importante
salientar algumas considerações sobre esses fatos: -
Nas universidades em que as práticas com animais foram abolidas, foi
devido majoritariamente a ação dos próprios estudantes de medicina, que
não concordavam com este tipo de didática. Em outras universidades dos
Estados Unidos, a utilização de animais se tornou optativa – a
própria American Medical Student Association garante aos estudantes de
medicina a não obrigatoriedade à estas práticas, e exige-se da
universidade que se apliquem técnicas alternativas à estes alunos que se
recusam a participar de tais aulas (ver anexo) -
Os estudantes devem ter contato com material vivo, mas humano, e não
animal. Estas universidades que optaram por não utilizarem animais na
formação dos médicos, adotaram a seguinte alternativa. O estudante de
medicina tem um período de residência maior que o usual. Neste período,
realizado em hospitais ou pronto-socorros, o estudante vai tendo contato
com a realidade destes estabelecimentos e inicialmente observando as
cirurgias feitas em pacientes que realmente necessitam de cirurgia. Com o
tempo, este estudante vai realizando intervenções cirúrgicas simples e
gradualmente, mais complexas. Tudo isso sob a condição de estar sendo
supervisionado severamente por um cirurgião responsável, que o
orientará cuidadosamente. Além de ensinar ao estudante a técnica de
cirurgias gradativamente, e em pacientes reais, o estudante tem contato
com o paciente humano, e aprende também a lidar com os sentimentos que
envolvem qualquer intervenção cirúrgica, como medo, insegurança,
desconforto. Tudo isso possibilita a sensibilização do estudante diante
de todo o quadro clínico que cerceia uma cirurgia. Este método,
desenvolvido na universidade de Harvard, também possibilita a
observação da recuperação do paciente. É importante salientar que
estes pacientes não são cobaias, como procuram se defender retoricamente
os que defendem a utilização de animais. Todo este procedimento é
realizado com respeito a vida, e procurando ajudar o paciente – isto
não é anti-ético. Todo
este conhecimento é reforçado paralelamente com a utilização de
métodos não-animais auxiliares de aprendizado, como a realidade virtual,
microcirurgia em placentas, cultivo de tecidos e órgãos humanos,
técnicas de imageamento não-invasivas, simulações em computadores,
modelos matemáticos, maquetes humanas, estudos em cadáveres, etc. -
Os entraves burocráticos não devem servir de pretexto para que a
utilização de animais siga. O fato de que a Técnica Operatória é um
pré-requisito para a residência em hospitais e pronto-socorros é um
caso excepcional de universidades que acreditam que a utilização de
animais é necessária. Tal situação pode ser facilmente contornada se
chegar a conclusão de que estes métodos convencionais podem ser
abandonados e substituídos. 4)
A experimentação animal se dá em dois níveis – pesquisa e
ensino. A intenção do debate não era discutir o papel da pesquisa para
a medicina, e sim o papel da utilização de animais durante a formação
do médico – um tema claro de educação. Porém, em muitas ocasiões,
alguns estudantes de medicina, e mesmo os professores palestrantes,
alegavam que a experimentação animal era importante para o progresso da
medicina – citando exemplos para isso. Em paralelo à isso, houveram
depoimentos e falações que também usavam exemplos de como a
experimentação animal, à nível de pesquisa, não trazia benefícios à
humanidade, causando sérios problemas à saúde humana. Atento que a
utilização de animais na educação médica era o que estava sendo
discutido – apesar de ser muito difícil não entrar nestes aspectos que
acabam por complementar determinadas argumentações e levantar
questionamentos acerca de determinada formas de pensamento. 5)
Uma fala de uma estudante de Engenharia de Alimentos foi muito
interessante e, com certa razão, apropriada. A condição social à que a
maioria (a maioria!) dos estudantes de medicina estão sujeitos não
propicia o questionamento. Isso é evidente e uma das características de
pessoas provenientes destas posições sociais. 6)
Uma questão não foi respondida: como seria se os estudantes
tivessem que levar os cães que moram em seus lares para aprenderem
técnica cirúrgica? Essa questão é, na minha opinião, importante, uma
vez que revela o caráter de propriedade e egoísmo que se tem diante da
vida – valores que para um médico são contraditórios. 7)
Muitos cirurgiões famosos passaram pela utilização de animais.
Isso não significa necessariamente que cirurgiões que não passaram pela
mesma didática não sejam um bons cirurgiões -
isso é um fato, e não uma hipótese!
8)
A questão do “currículo oculto” levantado pela professora
Paula é muito importante. Através deste tipo de didática, muitas coisas
são ensinadas além da técnica operatória em si. Valores pessoais do
professor são transmitidos, além de uma carga pedagógica que cultiva a
submissão, obediência e o não-questionamento. Valores estes que
contribuem para a rigidez das condutas humanas (no sentido mais negativo
possível) e para a estagnação de conceitos e idéias. Quem viu o vídeo
contendo o depoimento dos estudantes de medicina também pode ter uma
idéia do que se trata esta questão – a passividade e insensibilidade
que determinadas ocasiões inesperadas são exigidas diante do sofrimento
animal, quando este superficializa antes de uma dose de manutenção e
fica de pé em uma mesa de cirurgia (relatado como “tragicômico” pelo
estudante), ou quando os estudantes tem que ignorar os gritos de dor que
este animal dá e continuar com a cirurgia (relatado como “angustiante”
pela estudante). Bom,
foram 4 longas horas de debate. Momentos de seriedade e emoção marcaram
este debate através dos depoimentos oferecidos. Poder-se-ia dizer que o
mais difícil tenha sido manter uma linearidade de argumentações, uma
vez que o tema lida com aspectos inevitavelmente emocionais – afinal,
tratam-se de vidas que sofrem, para aqueles(as) que defendem os direitos
animais. Uma
coisa fica clara: este é apenas o início. Esse foi o primeiro de uma
série de debates que se sucederão. Das próximas vezes, espero que
possamos contar com um número cada vez maior de pessoas preocupadas com
este tipo de discussão. Thales
Tréz
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