Dr. Corina Gericke, Veterinária - Alemanha
Education as Medical Technician Assistent; Employed at Society for Epilepsy Research; Studied veterinary medicine at the University of Giessen/Germany; Founded the Federal Society of Students against Animal Misuse in Education in 1988; Employed at 4 different small animal clinics in the United Kingdom (1995-1998)

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Literatura

Você acredita que o uso de animais durante a educação médica é indispensável para o ensino de técnica cirúrgica? Porquê?

Dr. Corina – Não é necessário o uso de animais para aprender técnicas cirúrgicas nem em qualquer outra parte do estudo médico. Porquê? Veja a questão 2.

Que tipo de alternativas você sugeriria para a substituição dos animais durante o treinamento cirúrgico?

Dr. Corina – A única maneira apropriada de aprender cirurgia é primeiro praticá-la em cadáveres, então observar um experiente cirurgião, auxiliar este cirurgião e finalmente praticar a cirurgia, sendo supervisionado por um cirurgião experiente. Aprendendo passo a passo. Isto se aplica tanto para cirurgiões veterinários ou humanos. Na minha opinião, não existe outra maneira de se aprender cirurgia.

Se um estudante pratica em animais de laboratório e algo dá errado, é fácil dizer: “E daí, é apenas um animal de laboratório, pegaremos outro”. Na vida real, em uma operação real, você não pode dizer isto. Quando se usa animais de laboratório na cirurgia, os estudantes aprendem a atitude errada sobre a vida e a morte.

Que tipos de prejuízos (éticos, psicológicos, etc.) o uso de animais na educação médica pode causar ao estudante de medicina?

Dr. Corina – Os estudantes de tornam insensíveis e duros quando usam animais para seu estudo. Estudantes de medicina e doutores deveriam ter respeito pela vida, incluindo a vida de animais.

Cirurgiões daqui dizem que o estudante deve estar em contato com tecidos vivos, e que sem isso é impossível aprender a técnica cirúrgica. Alguns desconhecem universidades pelo mundo que não utilizem tecidos vivos para o ensino de cirurgia. É verdade?

Dr. Corina – É óbvio que os estudantes devem estar em contato com tecido vivo, mas deve ser um tecido vivo de uma operação real em um paciente. Quando um estudante observa e ajuda um cirurgião experiente, ele/ela está em contato com tecido vivo, com hemorragias, etc. Não existe NENHUMA universidade de medicina na Alemanha onde os estudantes tenham que participar de experimentos animais para aprender cirurgia! De acordo com seus professores, todos cirurgiões alemães deveriam ser cirurgiões inexperientes, o que eu asseguro que não é verdade.

É possível ser um bom cirurgião sem ter aprendido com animais?

Dr. Corina – Você não pode ser um bom cirurgião quando aprende com animais.

Você pode explicar mais sobre o período de residência (por exemplo), onde os estudantes estão em contato com pacientes humanos e aprendem métodos cirúrgicos em seres humanos?

Dr. Corina – Depois de 6 anos na universidade, os estudantes alemães de medicina devem fazer um “ano prático”, que é dividido em 3 partes: medicina interna, cirurgia e uma parte optativa. É aí que começa a se aprender cirurgia. Leva diversos anos de prática e experiência para se tornar um bom cirurgião. Não se espera aprender tudo isso em um curto período na universidade.

Realidade virtual e outras tecnologias não dão ao estudante informações importantes sobre sinais vitais, hemorragias, tato. É verdade?

Dr. Corina – Realidade virtual, simulações em computadores, filmes são alternativas boas para o ensino de fisiologia, mas não para o ensino de cirurgia. Existem alguns métodos alternativos disponíveis para o ensino de cirurgia: por exemplo, um “braço para a prática de sutura” (suture practice arm), que é feito de uma pele sintética. Ele tem diversos ferimentos, que permite ao estudante a prática da sutura de ferimentos. Então ele/ela pode abrir e tentar novamente. Outra alternativa feita de borracha (ruber foam) simula um estômago, no qual você pode praticar certas técnicas cirúrgicas. Em um outro modelo, órgãos provenientes de abatedouros (como fígado, rim, et.) são submetidos à uma corrente de um líquido semelhante ao sangue. Isso pode ser utilizado para o manuseio de vasos hemorrágicos. Em um rato artificial, você pode aprender microcirurgia, por exemplo, anastomose de vasos sangüíneos finos (NT.: o estudo de anastomose microcirúrgica pode ser estudado também, e com maior eficiência, em vasos sanguíneos de placentas humanas).

Na Alemanha, quantas escolas de medicina substituíram animais durante a educação médica?

Dr. Corina – Existem 36 universidades médicas na Alemanha. Em 14 delas você pode estudar sem a utilização compulsória de animais. As outras universidades utilizam animais em cursos de fisiologia  e/ou zoologia/morfologia.

Entrevista concedida à Thales Tréz - dezembro de 1999