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Rumo a uma Educação Humanitária & Ética*


Existe hoje uma carência em relação à discussão ética durante a graduação de profissionais que no futuro lidarão com vidas. Durante a graduação, as disciplinas de ética, quando não apenas tratam da legislação profissional, abordam superficialmente, e em pouco tempo, assuntos que deveriam estar sendo constantemente debatidos, em meio a situações moralmente conflitantes – como é o caso do uso prejudicial de animais.

Se existe a vontade de se formar um profissional que conduza suas ações baseadas em um código de ética, então a discussão ética deve ser vista como necessária.

Uma das grandes vantagens de se oferecer alternativas à utilização de animais na educação é a oportunidade que se propicia para que os estudantes possam experimentar na prática as decisões bioéticas, assim como deixar com que aprendam do jeito que acreditem ser o mais apropriado. Porém, uma possível barreira para a adoção de alternativas é a relutância de muitos professores em assumir a utilização de animais no ensino como um problema ético. Como agravador desta situação, existe a falta de preparo dos professores diante de tais debates e a falta de informação, especialmente no Brasil, onde são raras as bibliografias relacionadas a tal questão.

Quando o debate é lançado em sala de aula, muitas vezes se torna um tema de difícil discussão, porém não menos envolvente. Numa aula de Fisiologia Humana, na UFSC, questionou-se o sentido do sacrifício de um cão para um experimento clássico de sistema respiratório e cardíaco. Neste momento notou-se a surpresa do professor diante de tais questionamentos e protestos, e o envolvimento dos estudantes em quererem entender o porquê do sacrifício.

Porém, existe ainda o posicionamento não-receptivo dos alunos em relação à discussão ética em torno do uso de animais, que é muitas vezes resultado da influência do professor em sala de aula - uma das claras manifestações do currículo oculto. Em um outro caso de objeção ao uso de animais envolvendo uma estudante de medicina veterinária da UFMS, o que pode-se perceber foi a dificuldade com que a estudante teve em discutir tal questão com seus professores e colegas, sofrendo inclusive retaliações.

Veja este outro exemplo, por meio de uma denúncia, envolvendo uma estudante de medicina veterinária da UFRPE:

"Sou aluna do segundo período de med. veterinária da UFRPE.É incrível a crueldade encontrada em um lugar que deveria apenas ensinar a tratar dos animais, ao contrário disso os alunos são incentivados a matar animais para testes. Os animais são eletrocutados, recebendo antes da morte um banho para o choque fazer mais efeito, injeções de formol ( aplicadas na v. jugular externa ), ... Certa vez tive uma grande discussão com uma professora de anatomia, porque me recusei a matar um cachorro totalmente sadio para estudar ( ela me chamou de fresca ); ...”

Outro motivo para essa apatia em relação à este debate provém do ambiente criado pelos professores ou pela instituição, que muitas vezes não é aberto para preocupações éticas dos estudantes em relação ao uso de animais no ensino. Não existe estímulo para que tais discussões encontrem espaço na sala de aula. Dessa forma, os estudantes acabam por arriscar-se ao expor suas posturas e questionamentos, muitas vezes passando por humilhações, repressões por parte de professores e mesmo colegas, chegando mesmo ao abandono do curso, dependendo do caso. O que se pode esperar de um estudante neste ambiente? No mínimo, segundo o Dr. Johnathan Balcombe, da Humane Society of the United States (1997), espera-se que ele passe pela utilização de animais sem reclamar, mesmo que vá contra suas convicções éticas. Dessa maneira, ao manter a utilização de animais como um procedimento comum, inquestionável e imprescindível, abandona-se uma discussão polêmica importante e geradora de juízos éticos.

Os estudantes podem e devem ser preparados para a ação, integrando valores aos conhecimentos científicos, adotando uma plataforma ética que os orientem suas decisões. O estudantes ainda devem estar cientes de que, assim como uma argumentação científica, os argumentos éticos devem estar baseados em evidências racionais

A falta desta discussão pode originar sérias implicações, envolvendo conflitos individuais entre os estudantes e situações onde a própria instituição acadêmica pode se envolver.

Conflitos Individuais:

Caso da estudante de medicina da Universidade de La Paz, que se recusou a sacrificar animais em aulas de técnica cirúrgica, desmaiou em uma das aulas, foi enviada a psiquiatras, foi medicada e está, agora, dispensada das aulas.

Comprometimento Institucional:

Caso do cão da fisiologia (Biologia) na UFSC, onde um cão foi retirado do laboratório por estudantes do curso, por não concordarem com o sacrifício deste animal. Tal caso levou a UFSC e o Departamento de Fisiologia a substituírem tais práticas por alternativas, devido à grande polêmica que cercou o caso. Ainda na UFSC, o caso dos cães utilizados pela disciplina de Técnica Operatória (Medicina), onde pessoas desconhecidas registraram em fotos os cães antes das aulas, vivos, e depois das aulas, no lixão do hospital. Tais fotos foram distribuídas para a mídia, que cobriu o caso, e estão publicadas na internet. A polêmica que tal ação levantou expôs o nome da UFSC no meio público, inclusive recebendo uma recomendação de controle do uso de animais por parte da Procuradoria da República, por meio do Procurador Marco Aurélio Dutra Aydos. E como outro exemplo, já citado, envolvendo o curso de Medicina Veterinária da UNIMES, onde uma campanha internacional de e-mails fez com que a Universidade recebesse, em poucos dias, quase 200 mensagens de vários estados brasileiros e países, exigindo que se utilize alternativas e se abandone tais práticas arcaicas de ensino.

O uso de animais ainda possibilita, inevitavelmente, circunstâncias traumáticas ou marcantes para os estudantes. Um vídeo produzido na UFSC pelo Departamento de Jornalismo, mostra o depoimento de estudantes de medicina que passam pela disciplina de Técnica Operatória, onde relatam o desconforto em se utilizar animais e, em alguns casos, em ter que “praticar as cirurgias em cães gemendo”. No curso de Ciências Biológicas da mesma universidade, um semestre antes da libertação do cão da Fisiologia acima descrito, na mesma prática da Fisiologia Humana, um cão superficializou em meio ao experimento com o tórax aberto, gritando. Na UFRPE, o e-mail da estudante de veterinária continua da seguinte forma:

“(...) outra vez encomendaram 12 cachorros a carrocinha (CVA) e sete destes cachorros apodreceram na universidade porque o formol para conservá-los não era suficiente ( estes animais haviam sido mortos para estudos, mas até para isso suas mortes foram desnecessárias ). Só para se ter uma idéia dos maus tratos com os animais pela carrocinhas, mais da metade dos animais apreendidos já chegam ao CVA mortos ( morrem no meio do caminho! ). São espancados, humilhados, condicionados a fome e sede. Eu estou enviando este e-mail pois eu ainda tenho esperança e sei que estes animais só podem contar com nós, e se cada um fizer a sua parte com certeza um dia essa crueldade acaba."

Os debates na UFSC sobre o uso de animais na educação tem sido motivos para se encherem auditórios por longas horas de discussão, e terminar por motivos de tempo. Nestes debates percebe-se como este tema tão polêmico é abordado: superficialmente, quando não procura-se considerar as alternativas existentes e aplicadas em muitas universidades de vários países; ou quando não considera-se a questão do uso de animais como uma questão também estudantil, envolvendo aspectos psicológicos, morais, religiosos, etc.; ou unilateralmente, quando discute-se somente as vantagens que o uso de animais traz para nós, ressaltando-se a importância deste uso para a formação do profissional. Não consideram-se os interesses do sujeito diretamente prejudicado por nossas ações.

Outra característica que tem marcado os debates é a emotividade, um fator quase que inevitável quando se discute a morte massiva de animais em laboratórios. A experiência na UFSC mostrou que esta mesma emotividade foi a responsável por impulsionar o debate e o questionamento, de uma forma ou de outra.

As barreiras que mais tem impedido a substituição de animais nas faculdades brasileiras são, basicamente, decorrentes da falta de informação e de discussão sobre as alternativas, e sobre os aspectos que envolvem o uso de animais na educação. Estudantes não expõem suas opiniões sobre tais práticas, pois tem medo de repreensões por parte da instituição, dos professores e até mesmo de seus colegas. A grande maioria dos professores não aborda o assunto, fazendo com que as práticas de vivissecção se tornem métodos normais e inquestionáveis; e a maioria das abordagens são, inevitavelmente, em favor do uso de animais, não havendo possibilidades de discussão, o que inibe os estudantes de se inteirarem mais profundamente sobre esta questão.

Agora cabe à nós, estudantes, professores, e a comunidade não-acadêmica, encontrar uma solução mais humana para a educação. Estamos em um novo milênio, e já é hora de abrirmos mão do valor arcaico de ver a natureza como um recurso à serviço da nossa espécie, e em prejuízo de todas as demais espécies.

 

por Thales Tréz - Biólogo e Coordenador da InternicheBrasil