Dr. Stefano Cagno, Médico Cirurgião – Itália
Laurea in Medicina e Chirurgia presso Università Statale di Milano (Itália);
Dirigente Medico Ospedaliero
Membro do Comitato Scientifico Antivivisezionista (Roma); Autor do livro "Sobre animais e pesquisa" - Franco Muzzio Editora, e de outras 100 publicações sobre a vivissecção, direitos animais e bioética.

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Literatura

Você acredita que o uso de animais durante a educação médica é indispensável para o ensino de técnica cirúrgica? Porquê?

Dr. Stefano - O uso de animais na pesquisa médica e científica não traz nenhum benefício ao progresso científico. Os animais possuem uma anatomia diferente da do homem e uma consistência/estrutura dos tecidos também diferente. O cirurgião depois de ter experimentado as técnicas nos animais, passa para o homem que será a verdadeira cobaia experimental. Os cirurgiões experimentais, convencidos que aquilo que viram nos animais tem validade para o homem, no momento que passam para este último, se tornam menos prudentes do que deveriam ser, e consequentemente fazem mais danos.

Iluminadoras são as palavras do Prof. Salvatore Rocca Rossetti, nefrologista e urologista, docente da universidade de Torino: "Vi cirurgiões experimentar em alguns órgãos de cão pensando que fossem idênticos àqueles do homem e não sabendo que estavam cortando um órgão diferente, até uma glândula linfática, invés da tireóide. Nenhum cirurgião se tornou tal porque aprendeu a operar num animal; pelo contrário no animal ele desaprendeu....Eu fiz dezenas de milhares de cirurgias no homem e não as havia feito primeiro em animais".

Que tipo de alternativas você sugeriria para a substituição dos animais durante o treinamento cirúrgico?

Dr. Stefano - É importante colocar que se fosse investido mais dinheiro para métodos substitutivos da vivissecção, existiriam até muito mais possibilidades válidas. Atualmente existem muitíssimos softwares úteis para procedimentos cirúrgicos experimentais. Um desses chamado "virtual section" recebeu a aprovação e o investimento (sponsor) financeiro de parte da Universidade de Stanford na Califórnia. Depois existem indústrias que produzem membros artificiais feitos de material com a mesma consistência dos tecidos humanos. Neste caso os jovens cirurgiões podem praticar (“fare la mano”) nesses manequins.

Que tipos de prejuízos (éticos, psicológicos, etc.) o uso de animais na educação médica pode causar ao estudante de medicina?

Dr. Stefano - O estudante de medicina que não critica o uso dos animais na pesquisa experimental adere a uma lógica mecanicista que já fez danos gravíssimos no passado. Habitua-se a pensar que os seres vivos são constituídos de pedaços (órgãos) destacados e destacáveis entre eles. Ignora as conseqüências psicológicas do correto funcionamento dos seres vivos (homens e animais), esquecendo, por exemplo, que situações estressantes como aquelas experimentais diminuem a eficácia do sistema imunitário e então predispõe os animais a reagir de maneira ineficaz a eventos potencialmente patogênicos. Mas sobretudo, os estudantes tornando-se insensíveis ao sofrimento animal, se acostumam a fazer o mesmo com o sofrimento humano. Neurologistas canadenses que, depois de ter transcorrido um período de 6 meses em laboratórios de vivissecção, voltavam ao hospital, quando colocados a testes psicológicos, demonstraram muito menos sensibilidade ao sofrimento do paciente se comparado com sua atitude antes do período que ficou no laboratório com os animais.

Para os vivisseccionistas os animais se tornam coisas, objetos para serem usados para os próprios fins. O passo em direção aos humanos é sempre muito curto/breve.

Cirurgiões daqui dizem que o estudante deve estar em contato com tecidos vivos, e que sem isso é impossível aprender a técnica cirúrgica. Alguns desconhecem universidades pelo mundo que não utilizem tecidos vivos para o ensino de cirurgia. É verdade?

Dr. Stefano - Como eu disse antes, o fato que os animais ofereçam aos estudantes jovens ou aos jovens cirurgiões a possibilidade de exercitar-se em tecidos vivos não quer dizer que isso seja realmente útil. A pressão que o cirurgião deve fazer no bisturi para abrir o abdome de um suíno não é a mesma que deve ser feita no homem.

Na Itália a partir do ano que vem a Universidade de Modena deveria abolir qualquer experimentação animal, com objetivo didático, em qualquer das faculdades

O fato que muitíssimas universidades se continue a usar animais na experimentação cirúrgica não quer dizer que todos os cirurgiões efetivamente a usem (ver declarações precedentes do professor Rossetti)

É possível ser um bom cirurgião sem ter aprendido com animais?

Dr. Stefano - Sim. Também nesse caso repito as declarações do prof. Rocca Rossetti. A anatomia humana se aprende nas salas de anatomia e observando as operações dos cirurgiões mais velhos. Depois que se aprende um procedimento numa espécie animal, o cirurgião experimental, tem que desaprender para virar um cirurgião humano.

Você pode explicar mais sobre o período de residência (por exemplo), onde os estudantes estão em contato com pacientes humanos e aprendem métodos cirúrgicos em seres humanos?

Dr. Stefano - Na Itália infelizmente os estudantes de medicina e cirurgia não são obrigados a freqüentar muito as salas de cirurgia e anatomia. Eu ao invés mantenho que, depois da colação de grau, um médico que queira se dedicar à profissão de cirurgião deveria freqüentar diariamente por alguns anos as salas cirúrgicas. Lá ele aprenderá tudo que lhe servirá para a profissão.

Se fosse para escolher entre sofrer uma cirurgia feita por um cirurgião com longa experiência prática em animais e um outro com longa experiência teórica com homens, eu não teria dúvidas: escolheria o último!

Realidade virtual e outras tecnologias não dão ao estudante informações importantes sobre sinais vitais, hemorragias, tato. É verdade?

Dr. Stefano - A realidade virtual é um rapidíssimo progresso e atualmente existem programas que mimetizam qualquer situação. Existem manequins que mimetizam, por exemplo, qualquer situação cardio/cardiocirculatória, kits para exercitar-se nas anastomoses e nas incisões. Os eventos imprevisíveis depois se verificarão, independente do método usado para se exercitar o para aprender. Não esqueçamos que, por exemplo nos casos dos transplantes, as primeiras cirurgias feitas no passado foram todas falidas para os eventos que eram verificados nos homens, mas não nos animais. Sobre o assunto ler os seguintes interessantíssimos artigos:

Jamieson S.W. et al. Combined heart and lung transplantation, The Lancet, May 21, 1983, 1130.

Burke C.M. et al. Twenty-eight cases oh human heart-lung trasplantation, March 8, 1986 517-519

Na Itália e na Europa, quantas escolas de medicina substituíram animais durante a educação médica?

Dr. Stefano - Não conheço esse dado precisamente. Na Itália o uso de animais para exercícios universitários está em franca diminuição e poderia em pouco tempo ser vetado. Como anteriormente lembrei, a universidade de Modena a partir do próximo ano deverá ser o primeiro caso onde o emprego de animais será vetado em todas as faculdades.

Algum comentário adicional?

Dr. Stefano - As respostas foram sintéticas, mas o argumento é muito vasto e importante. A medicina, e as disciplinas biológico/científicas em geral, progredirão com mais velocidade quando definitivamente for abolido o uso de animais. A vivissecção é um método que deveria ofender a inteligência dos que amam a ciência e as matérias científicas. Eu considero a vivissecção no mesmo nível que a bruxaria.

Entrevista concedida à Thales Tréz - dezembro 1999