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5. Programa de doação do cliente para reunir as necessidades da educação médica veterinária: Alternativas ao sacrifício de animais saudáveis
Amarendhra M. Kumar - m.kumar@tufts.edu
Departamento de Ciências Biomédicas, Tufts University School of Veterinary Medicine, Estados Unidos
O conhecimento de anatomia é essencial para a prática veterinária. A ciência anatômica é a base da biologia, essencial para a compreensão de diversas funções corporais normais e anormais, assim como para o diagnóstico clínico. A anatomia é, talvez, a mais antiga ciência médica. Povos da Idade da Pedra tentaram desenhar formas animais há cerca de 30.000 anos atrás, demonstrando algum conhecimento da anatomia topográfica dos animais. Registros históricos recentes indicam que as tentativas do estudo sistemático de anatomia começaram com o trabalho dos cientistas gregos Alcmaeon e Empedocles (aproximadamente 500 aC). Estes cientistas foram, provavelmente, os primeiros a dissecar um corpo humano, mas muito da dissecação por eles realizada não foi acurada. Não até a época de Aristóteles (384-322 aC), quando os médicos realizavam dissecações animais de maneira suficientemente cuidadosa para extrapolar a função do órgão humano. Galeno (aproximadamente 129-199 dC) dissecou sistematicamente macacos para aprender sobre a anatomia humana e foi o primeiro a descrever corretamente as diferenças entre veias e artérias e fornecer uma descrição razoável do cérebro. Subseqüentemente, Leonardo da Vinci (1452-1519) e o pai da anatomia moderna Andreas Vesalius (1514-1564), documentaram a anatomia humana através de dissecações sistemáticas. William Harvey (1578-1637), médico e anatomista inglês, publicou uma investigação anatômica sobre o movimento do coração e do sangue em animais, baseado na observação e dissecação cuidadosa de diversos órgãos (1).
Os rápidos avanços das técnicas de radiologia ocorridos no século XX permitiram que os cientistas reconhecessem significativas conexões entre a anatomia e a fisiologia e de integrarem a anatomia com as ciências médicas, assim como as ciências básicas. Avanços recentes nas técnicas de rastreamento, como por exemplo a ultra-sonografia, tomografia assistida por computador (computer assisted tomography - CAT), ressonância magnética da imagem (magnetic resonance imaging - MRI) e da tomografia de emissão de pósitron (positron emission tomography - PET), permitem aos médicos olhar por dentro do corpo e observar a anatomia interna sem que seja necessário realizar uma cirurgia. Essas técnicas de imagem constituem grandes avanços na história da anatomia e com o rápido desenvolvimento das tecnologias de computação a maneira como anatomia é ensinada ao estudante profissional irá gradualmente se afastando das tradicionais dissecações animais.
Atualmente, o ensino de anatomia veterinária macroscópica freqüentemente envolve o sacrifício de animais vivos e posterior embalsamamento. Na maioria dos países da Ásia, os estudantes do primeiro ano de veterinária dissecam primeiramente um animal ruminante e aprendem anatomia comparativa de cavalos e cães baseados na eficiência do animal dissecado. Cães sem dono são as maiores fontes de ensino de espécimes em muitos países em desenvolvimento. Na maioria dos departamentos de anatomia veterinária nos Estados Unidos, cães e gatos são obtidos a partir das seguintes fontes: 1) animais não reclamados que estão em abrigos; 2) animais gerados com o propósito de serem vendidos para o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA)- considerado fornecedor aprovado; ou 3) a partir de companhias de abastecimento biológico que vendem animais embalsamados (os quais podem ser também adquiridos a partir de abrigos de animais). Uma quarta fonte para a captação de cachorros é composta pelos cães da raça greyhound que foram afastados devido à idade de suas funções de caça ou reprodução.
Por muitos anos, estudantes da Tufts University School of Veterinary Medicine (TUSVM) dissecaram cães de caça da raça greyhound doados. O programa de doação de cães greyhoundes tornou-se, gradualmente, insustentável devido a relutância dos donos desses cães em doarem os animais escolhidos para o laboratório de anatomia. As objeções foram inicialmente levantadas pelos estudantes e pelo incremento de adoções realizado pela Greyhound Rescue League. Desde que a regulamentação pelo estado de Massachusetts proibiu a utilização de animais provenientes de abrigos para ensino e pesquisa, incluindo também os animais embalsamados provenientes de companhias de suprimento biológico (uma vez que eles são geralmente animais de abrigos) para a dissecação pelos estudantes, a única opção restante disponível era a compra de cães através de fornecedores aprovados pelo USDA.
Os cães criados especificamente para pesquisas são utilizados pelos pesquisadores em várias instalações de pesquisa biomédica em Boston. Estes animais são certificados na entrega como sendo saudáveis. Eu tinha sérias preocupações éticas quanto a realizar a eutanásia em cães saudáveis para efeito de dissecações anatômicas. O elemento catalítico para nos motivar a explorar modos alternativos para o nosso programa de ensino partiu de uma aluna de veterinária, True Ballas (atualmente Doutora em Medicina Veterinária).
Ela ofereceu tempo e meio de transporte a fim de iniciarmos um programa de doação do cliente. Isto foi estabelecido há seis anos atrás e nos estágios iniciais muitas pessoas despendiam grande quantidade de seu tempo contatando clínicas veterinárias locais e os nossos especialistas em trabalho clínico do hospital universitário para educarem os clientes quanto aos benefícios de tal programa - particularmente quanto a oportunidade de ter misericórdia para com os animais saudáveis. Durante seu primeiro ano, a Dra. Ballas freqüentemente transportava os animais doados pelas clínicas em seu próprio carro até o Campus de Boston para que fossem embalsamados. Naquela época, a TUSVM tinha dois campi - North Grafton (medicina veterinária) e Boston (ciências básicas). A situação de divisão do campus apresentava um desafio adicional para ser resolvido por nós. Com o programa de doação do cliente desenvolvido, os procedimentos para embalsamamento eram centralizados na sala de necropsia patológica. Os animais doados eram embalsamados no campus de Grafton e transportados para o campus de Boston através de uma companhia licenciada de transporte químico perigoso. Este procedimento requeria uma tremenda quantidade de esforços, inicialmente, para coordenar o programa. Mas, considerando a alternativa de mandar animais saudáveis para a morte, a escolha para nós era fácil.
Estudos de casos sugerem que as dificuldades para a obtenção de animais para ensino e as preocupações éticas expressas pelos estudantes de veterinária são os principais fatores para modificação do currículo e para a redução de dissecações animais em algumas faculdades de veterinária. As várias alternativas para a utilização de animais criados exclusivamente para pesquisa incluem a incorporação de espécimes plastinados ou de programas de computadores e conseqüente decréscimo de dissecações animais. De qualquer forma, uma pesquisa recente conduzida pelo Dr. Judy Provo (2) indica um número significativo de anatomistas veterinários macroscópicos que preferem a dissecação animal a fim de transmitir uma perspectiva do corpo em 3D para os estudantes. Os estudantes da TUSVM também praticam procedimentos médicos e habilidades clínicas (incluindo habilidades cirúrgicas básicas) em cadáveres de animais antes de trabalharem com pacientes animais. Portanto, foi importante desenvolver um programa que pudesse suprir a demanda por dissecações animais e outras necessidades e que ao mesmo tempo pudesse cumprir com as preocupações éticas expressas pelos estudantes e pela faculdade.
O primeiro passo no estabelecimento de um programa bem-sucedido de doação de cliente é convencer a administração da universidade que o programa é um componente importante do treinamento de estudantes. Sem o apoio da administração, o programa torna-se de difícil execução. Também é crucial incluir o chefe do departamento médico no processo. A próxima etapa é a de recrutar uma equipe que tenha total comprometimento com o programa. Finalmente, as políticas de direcionamento são desenvolvidas, as quais levam em consideração a USDA, como também os protocolos da Institutional Animal Care and Use Committee (IACUC) quanto à utilização de animais para o ensino.
Os próximos dados são elementos-chave da política de doação animal do TUSVM:
1. Os animais doados para programas de ensino devem pertencer a clientes regulares do TUSVM. Isto assegura os altos padrões éticos. Se a eutanásia é decidida, ela deve ser considerada devido a condição incurável e terminal do animal. Os relatórios de casos sobre animais doados estão facilmente disponíveis no hospital.
2. A decisão pela eutanásia é tomada de forma usual através do consenso entre o cliente e o veterinário que está atendendo o caso. O cliente tem acesso a brochura com informações sobre a eutanásia humanitária, a qual aborda com sensibilidade o tema e que, resumidamente, descreve as opções para disposição do cadáver. Uma vez que o cliente se decide pela eutanásia a partir das informações recebidas, o veterinário que o está atendendo argumenta com ele/ela de forma mais detalhada sobre a escolha entre o programa de doação do cliente, a cremação, a necropsia ou ainda a devolução do corpo. O hospital abre mão da cobrança da taxa de eutanásia para os doadores, mas isso não é mencionado inicialmente, a fim de garantir que o cliente não está sendo induzido a doar o animal devido a fatores financeiros.
3. A brochura sobre a eutanásia explica ao cliente do programa de doação que: "a doação de seus animais de estimação à escola veterinária pode ser uma maneira de permitir ao espírito de seu animal permanecer vivo através da educação de futuros veterinários, que estão sendo treinados para curar outros animais. Além disso, seu desejo em participar do programa dá suporte a uma abordagem humanística para a obtenção de recursos para esse treinamento. Os cadáveres dos animais são inestimáveis para o ensino de estudantes de veterinária sobre a anatomia animal e para as habilidades que eles precisam dominar a fim de se tornarem veterinários competentes".
4. O cliente assina o termo de consentimento de eutanásia, assinalando o quadradinho apropriado para a disposição do cadáver. O formulário é também assinado pelo veterinário atendente. Cópias dos formulários assinados são distribuídas para arquivo como segue: Registros Médicos, Divisão de Laboratório de Medicina Animal, Contabilidade e para o técnico. A manutenção apropriada de arquivos é importante a fim de estar em conformidade com as regulamentações federais, como também para evitar quaisquer potenciais problemas legais posteriores.
5. O técnico efetua a destinação do cadáver conforme a opção feita, baseado na condição do animal e na necessidade de cadáveres entre os diversos laboratórios da escola de veterinária. Os cadáveres são utilizados nos seguintes laboratórios: ensino de anatomia macroscópica, habilidades clínicas, procedimentos médicos, cirurgia júnior e no laboratório escolhido pelos estudantes do último ano de anatomia. A condição ou tamanho do cadáver pode não ser adequado para todos os laboratórios, mas isso não influencia o fato de o cliente ser ou não permitido de doar os restos mortais do animal. O programa de anatomia tem utilizado cães e gatos de todos os tamanhos para os propósitos de ensino.
6. Os animais utilizados para o ensino de veterinária macroscópica são embalsamados. Eles recebem 100.000 unidades de heparina IV antes da aplicação da injeção com a solução para a eutanásia. A heparina evita a coagulação do sangue, o que é crucial para que o embalsamamento seja bem-sucedido. O embalsamamento é feito, se possível, dentro do prazo de 24 horas, de outra forma os cadáveres podem ser armazenados a uma temperatura de 4°C e embalsamados quando for conveniente, dentro do prazo de três a quatro dias após a morte. Fomos bem-sucedidos em embalsamamentos realizados em animais doados após quatro ou cinco dias da morte e os utilizamos em laboratórios de ensino.
7. Se o cadáver for destinado para o laboratório de anatomia, a secretaria de anatomia é contactada imediatamente e uma cópia assinada do formulário de doação, com o número do caso, é enviada via fax para o esse escritório. A secretaria entra em contato como anatomista macroscópico assim que possível. O cadáver é embalado, etiquetado e armazenado em uma sala refrigerada até que esteja pronto para o embalsamamento.
8. Os animais doados e destinados a outros laboratórios são armazenados em freezers antes de serem utilizados.
Os animais embalsamados são etiquetados com etiquetadas numeradas colocadas na orelha. O arquivo sobre o animal é identificado utilizando-se o número dessa etiqueta. Em nossa experiência, aproximadamente 95% dos animais doados foram apropriadamente preparados pelos nossos métodos. Órgãos torácicos e abdominais, em poucas ocasiões, não tiveram a preparação apropriada, mas os estudantes utilizaram as partes boas desses animais para o aprendizado de anatomia. Não foram observadas diferenças na fixação do tecido entre animais preparados dentro de dez horas após a morte e os que foram embalsamados quatro ou cinco dias após a realização da eutanásia. (veja o anexo deste capítulo para detalhes quanto ao procedimento de embalsamamento).
Avaliamos as reações dos estudantes quanto ao programa de doação do cliente em um estudo que durou três anos.
A reação do estudante ao programa de doação do cliente foi preponderantemente positiva (veja a tabela 1).
| Se pudesse escolher, você preferiria: |
Número de participantes: 80 |
| a. Dissecar e aprender anatomia a partir de um animal
doado: |
78 (97.5%) |
b. Dissecar um animal sacrificado criado especialmente
para pesquisa:
|
0 |
c. Dissecar um animal doado ou um criado para
pesquisa:
|
2 (2.5%) |
Tabela 1: Reações dos estudantes do primeiro ano de veterinária quanto ao programa de doação do
cliente
Uma proporção significativa dos estudantes do primeiro ano preferiu os animais doados à dissecação. Destes, muitos consideraram que o programa é muito importante (68%) ou importante (30.7%) devido as suas objeções quanto ao sacrifício de animais saudáveis (Tabela 2). Uma proporção significativa da sala, que prefere a doação de animais à dissecação, considerou a doação de animais, às vezes, uma condição patológica ou clínica que talvez os possa ajudar a apreciar a importância quanto à compreensão da anatomia normal (Tabela 2). A Tabela 3 demonstra as condições clínicas mais comumente encontradas em animais doados.
Os comentários por escrito dos estudantes foram positivos e apoiavam fortemente o programa de doação do cliente. Não encontrei um único comentário negativo de estudantes que utilizaram animais doados para o aprendizado de anatomia e procedimentos clínicos. O programa está atualmente no seu bem-sucedido sétimo ano de atuação e tornou-se um dos maiores atrativos para o recrutamento de estudantes na TUSVM.
| |
Muito importante |
Importante |
Nada importante |
| A* |
36 (46.2%) |
8 (48.7%) |
4 (5.1%) |
| B** |
53 (68.0%) |
24 (30.7%) |
1 (1.3%) |
Tabela 2: Respostas dos estudantes que preferiram dissecar animais doados (média de 3
anos).
*A. Animais doados podem ter condições patológicas ou clínicas que podem me ajudar a compreender a importância de conhecer a anatomia normal.
**B. O programa de doação de animais é importante devido às objeções éticas que eu tenho quanto à dissecação de um animal que era sadio, mas que foi sacrificado.
1. Neoplastia intra-abdominal
2. Tumor pancreático
3. Haemoabdomen (trauma)
4. Tumor no ventrículo direito
5. Grand Mal Seizures
6. Mastocitoma de tumores em membro
7. Doença do disco torácico-lombar
8. Fratura vertebral
9. Dilatação gástrica e vólvulo
10. Osteosarcoma de ossos dos membros
11. Distrofia muscular
12. Hemorragia gastrintestinal
13. Tumores da tireóide
14. Linfosarcoma
15. Hemangiossarcoma
16. Atropelamento por carro |
Tabela 3: Condições clínicas comuns pelas quais os cães foram submetidos a eutanásia
Atualmente conseguimos todos os animais que precisamos para o ensino através do programa de doação de animais. As necessidades de cadáveres para o curso de anatomia macroscópica do primeiro ano, assim como aqueles necessários para as nossas habilidades clínicas e procedimentos médicos laboratoriais estão plenamente reunidos. Nenhum animal sadio é sacrificado para fins educacionais.
De acordo com os registros médicos, a TUSVM tem um armazenamento médio de 21.484 (cães e gatos).
Aproximadamente 240 animais por mês (a média entre caninos e felinos é de 2 para 1) são submetidos a eutanásia a pedido dos clientes e aproximadamente 20 animais por mês são doados para os programas de ensino. Baseado na nossa experiência, portanto, aproximadamente 8% dos clientes que solicitam a eutanásia para seus animais de estimação doam os cadáveres para os programas de ensino da TUSVM. Com base nesses dados, acreditamos que o programa de doação do cliente é sustentável em qualquer hospital universitário.
Uma pesquisa realizada entre várias faculdades de veterinária nos Estados Unidos indica que a TUSVM é a primeira a implementar de forma bem-sucedida o programa de doação do cliente que contribui para 100% da necessidade de animais para o ensino.
A Texas A&M University College of Veterinary Medicine atualmente obtém cerca de 10% dos cadáveres necessários para o ensino de veterinária macroscópica através de doações realizadas pelas clínicas veterinárias locais e o restante é proveniente de animais que sofreram eutanásia em currais ou abrigos. Os cadáveres provenientes do hospital universitário são utilizados para o ensino de necropsia no departamento de patologia (3).
A Ohio State University College of Veterinary Medicine atualmente obtém seus animais para ensino em abrigos locais. Os animais que estão doentes, ou aqueles que não serão bons companheiros devido a saúde ou a problemas comportamentais são submetidos a eutanásia e doados as faculdades de veterinária. Há forte interesse em estabelecer um programa de doação do cliente para assegurar uma fonte mais consistente de cadáveres (4).
A University of Wisconsin School of Veterinary Medicine instituiu um programa de doação do cliente no hospital universitário há quinze anos atrás (5). Ele inicialmente correspondia a 20% dos animais necessários para o ensino. O programa ficou inativo durante anos, em parte devido as mudanças na faculdade, mas está atualmente sendo revitalizado. Animais doados são utilizados no ensino de anatomia macroscópica e também nos cursos eletivos de cirurgia suplementar de pequenos animais e procedimentos dentários. O objetivo é reunir 100% da necessidade de cadáveres de pequenos animais através do programa de doação do cliente dentro de três anos. Um projeto piloto está atualmente articulando os praticantes locais com a universidade a fim de arrecadar mais cadáveres.
Na University of California College of Veterinary Medicine (Davis), os animais são geralmente adquiridos de fontes comerciais e de abrigos. A fim de acomodar as preocupações éticas de alguns estudantes, entretanto, cadáveres também são obtidos a partir de "fontes adequadas", ou seja, através da doação do cliente (6). Na Virginia Tech College of Veterinary Medicine, os animais doados são utilizados somente no ensino de necropsia patológica (7). O hospital universitário fornece a maioria dos cadáveres. Animais de currais que sofreram eutanásia são utilizados para o ensino de anatomia.
Outras escolas de veterinária tem expressado interesse nos programas de doação do cliente mas estão relutantes quanto a implementá-los. Tal relutância por parte da faculdade de anatomia está parcialmente baseada nas seguintes suposições:
a. Os programas são trabalhosos pois a doação do cliente ocorre esporadicamente e, às vezes, em horários diferentes do dia.
Os programas de doação do cliente não necessitam de um técnico de período integral para o seu gerenciamento. Não é necessário correr a todo hora do dia a fim de embalsamar imediatamente um animal que foi doado. Temos embalsamado de forma bem-sucedida animais doados que foram submetidos a eutanásia a cerca de quatro ou cinco dias. Pequenos grupos e animais doados durante um período de 3 a 4 dias são embalsamados juntos. É fácil recrutar um ou dois estudantes de veterinária e treiná-los quanto as técnicas de embalsamamento. Isso poupa tempo e trabalho para a faculdade de ensino.
b. Animais doados são geralmente castrados e portanto não são ideais para o ensino de componente reprodutivo de anatomia.
Aproximadamente 90% dos animais doados para a TUSVM são castrados. Eu estou assumindo que isso possa se refletir em números estatísticos nacionais quanto a proporção de animais que são castrados por seus donos. Na TUSVM, estamos desenvolvendo procedimentos de ensino para compensar pelo alto índice de animais castrados que são utilizados nos laboratórios de ensino de anatomia. Geralmente temos, a cada ano, de 2 a 3 animais intactos dentre todos que são doados para o ensino. Os instrutores demonstram a anatomia do sistema reprodutivo masculino e feminino para toda a sala utilizando os animais que estão intactos. Ao final do curso, as regiões abdominais e pélvicas são dissecadas e guardadas e utilizadas para a aula subseqüente. Durante um período de 2 a 3 anos, coletamos espécimes intactos suficientes para ensinar os componentes da anatomia reprodutiva adequadamente. Os espécimes podem também ser plastinados para aumentar sua utilidade.
c. Os animais que são doados podem não ser apropriadamente embalsamados, facilitando o crescimento de fungos perigosos.
De acordo com minha experiência pessoal, baseada em seis anos de ensino de anatomia macroscópica utilizando animais doados, isto não tem sido problema. Desenvolvi protocolos de embalsamamento baseados no programa da Tufts Medical School para doação de cadáveres humanos, realizados por um coveiro certificado. Não tivemos experiência com o crescimento de bolor nos animais doados.
d. Animais doados podem ter doenças infecciosas que podem ser perigosas para as pessoas.
Uma das grandes vantagens dos animais doados por clientes é que podemos ter acesso aos registros médicos dos animais existentes no hospital. Em contraste, não há como determinar o histórico médico de animais adquiridos no comércio ou daqueles que são submetidos a eutanásia em abrigos. Para que uma doença em um animal seja relatada às agências veterinárias estaduais dependerá das regulamentações estaduais individuais. Em Massachusetts, a raiva é considerada endêmica e não é relatada. Outras doenças de interesse, como a brucelose ou a tuberculose canina, são raras e podem requerer seu rastreamento, o que impede a utilização do animal em programas de ensino. Durante os seis anos em que o programa de doação de animais vem sendo utilizado na TUSVM, não encontramos um único caso de doença infecciosa.
Nossa experiência com o programa de doação do cliente tem sido positiva. Os estudantes têm uma melhor apreciação de anatomia e exibem um comportamento mais maduro ao tomarem cuidado com o cadáver e realizarem suas dissecações com um senso de responsabilidade.
O programa de doação do cliente também fornece a opção potencial de integração de outros temas importantes do aprendizado para a educação dos futuros profissionais da área veterinária. Por exemplo, na TUSVM os estudantes recebem os históricos do cão (ou do gato) que estão dissecando. Esses históricos podem ser integrados as sessões de Aprendizado de Resolução de Problemas (PBL). Os estudantes podem ser solicitados a elaboração de papers individuais enfatizando a base anatômica ou fisiológica da doença do cão.
O programa de doação do cliente é um programa viável que pode ser implementado pelas escolas de veterinária. Ele tem custo efetivo e apresenta algumas vantagens sobre a aquisição de animais através das rotas tradicionais. Estas vantagens incluem o fornecimento aos estudantes de uma educação valiosa que enfatiza os aspectos clínicos da anatomia e da habilidade de integrar os valores éticos da medicina veterinária começando a partir do primeiro ano do estudo de veterinária.
Anexo: Procedimento para o embalsamamento de animais doados
Cães: Depois do cadáver estar totalmente esticado, uma incisão é feita em direção a metade do ventre. A traquéia é exposta, aberta e tapada com toalhas de papel. Isto impede o vazamento dos fluidos de embalsamamento dos pulmões e permite a fixação apropriada do corpo. No aspecto dorsolateral da traquéia, a artéria carótida é exteriorizada. Uma cânula de metal de tamanho apropriado é inserida (slip hub cat #s 708701, 708719 ou 708727; The Dodge Company Inc., 165 Cambridge Park Drive, PO Box 400193, Cambridge, MA 02140, USA; tel +1 800 443 6343). A cânula é fixada dentro da artéria e infundida com a seguinte solução: Permaflow (Dodge Chemical Company) diluído na proporção de 1:2 com água morna e injetado na cânula a uma taxa de fluxo de 300 ml/min com uma bomba peristáltica (Fisher Scientific). A solução de Permaflow pode ficar no animal por aproximadamente dez minutos (ou mais se o tempo permitir). A solução de embalsamamento é bombeada no animal a uma taxa de fluxo de aproximadamente 300 ml/min. O estoque da solução de embalsamamento é obtido através da Hydrol Chemical Company (Commerce Drive, Yeadon, PA 19050, USA; tel +1 800 345 8200).
A solução de embalsamamento concentrada é composta pelas seguintes químicas:
Formaldeído 37% 13%
Fenol 13%
Etanol 32%
Glicol Propileno 42%
Maquat (Timol) 1%
A solução de embalsamamento é diluída na proporção de 1 parte de solução para três partes de água e bombeada no animal (rendendo um nível efetivo de formalina de 3.25%). Conforme a solução de embalsamamento começa a fluir dentro do animal a veia jugular externa é perfurada para forçar a saída do sangue juntamente com a solução de Permaflow previamente injetada. O animal é dessangrado até que o fluxo da veia jugular indique sangue estável (tom de marrom sujo claro-escuro). A veia jugular externa é desamarrada e a infusão da solução de embalsamamento continua até que se possa sentir os músculos firmes.
Na nossa experiência, um cão de tamanho grande (de 30 kg ou mais) necessita de 7-10 galões (30-40 litros) de solução de embalsamamento. Se o abdômen estiver inchado, o estômago deve ser pressionado com uma agulha de 14Ga para evacuar o gás. Isto reduz a pressão intra-abdominal e permite a passagem da solução de embalsamamento pelos membros pélvicos. Injeta-se de 100-200 ml de solução de embalsamamento em cada uma das cavidades abdominais e torácicas. Se for observado que há músculos moles, deve-se injetar uma quantidade apropriada de solução de embalsamamento.
Gatos: Seguem-se os mesmos procedimentos iniciais utilizados para os case e após o isolamento da artéria carótida um cateter de 23 Ga (Wingless 'quick-cath'; Baxter Healthcare Corporation, One Baxter Parkway, Deerfield, IL 60015, USA; tel +1 847 948 2000) é introduzido na artéria e a agulha é retirada e descartada. A cânula dentro da artéria é presa com uma corda. O cateter é conectado a um tubo de boca pequena preso a bomba peristáltica e o líquido de embalsamamento é então bombeado a uma taxa de fluxo de 50 ml/ min. Em um gato de 4 quilos geralmente utiliza-se um litro de solução de embalsamamento para fixação apropriada. A localização da injeção das cavidades e músculos é feita, se necessário, conforme descrito a seguir.
Embora seja possível injetar duplamente o animal doado com látex azul (para as veias) e vermelho (para as artérias), nós optamos por não fazê-lo, uma vez que a injeção vascular é um processo trabalhoso. Os estudantes foram capazes de discriminar artérias e veias sem a utilização do látex.
Referências
1. National Library of Medicine, History of Medicine Division
2. Dr. Judy Provo, Kansas State University College of Veterinary Medicine
3. Dr. Anton Hoffman, Texas A&M University College of Veterinary Medicine
4. Dr. Daniel Smeak, Ohio State University College of Veterinary Medicine
5. Dr. Norm Wilson, University of Wisconsin School of Veterinary Medicine
6. University of California College of Veterinary Medicine (Davis) website
(www.calf.vetmed.ucdavis.edu)
7. Dr. Ludeman Eng, Virginia Tech College of Veterinary Medicine
Biografia
Amarendhra M. Kumar obteve sua preparação para a medicina veterinária na Mysore Veterinary College, em Bangalore, na Índia. Ele subseqüentemente obteve seu grau de mestre em Anatomia Veterinária na mesma instituição, ensinou Anatomia Macroscópica na Mysore Veterinary College e na Ahmadu Bello University College of Veterinary Medicine, na Nigéria, antes de vir para os Estados Unidos. Ele obteve graduação de mestre na Kansas State University (em fisiologia) e na University of Florida (PhD em neurociência). Ele tem ensinado Anatomia Macroscópica na Tufts University desde 1983. Ele tem cerca de 100 abstracts e publicações sobre vários tópicos de pesquisa e é também um dos editores associados do jornal Small Ruminant Research.
M.S.A. Kumar, BVSc, MVSc, MS, PhD
Professor of Anatomy
Department of Biomedical Sciences
Tufts University School of Veterinary Medicine
200 Westboro Road
North Grafton, MA 01536
USA
tel: +1 508 839 7967
fax: +1 508 839 7969
e-mail: m.kumar@tufts.edu
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