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4. Elaboração Curricular: Escolha e planejamento de uma abordagem humanitária para a educação da ciência da vida

Lara Marie Rasmussen - lmrasmussen@westernu.edu
Western University of Health Sciences College of Veterinary Medicine, Estados Unidos


Introdução

O livro from Guinea Pig to Computer Mouse é todo sobre educação - educação humanitária mas, todavia, educação. Sua mensagem é sobre uma melhor forma de aprender. Essa mensagem não estaria completa sem as devidas consideração quanto ao que fazemos para facilitar o aprendizado e de como escolhemos o que é importante para os nossos estudantes, ou seja, a Elaboração Curricular. O alcance de uma experiência de educação humanística para os estudantes da ciência da vida e mais do que a mera substituição de um modelo inanimado ou de um programa de computador por uma dissecação animal. Além da abordagem efetiva das metas e objetivos tradicionais, a educação humanitária tem a missão maior de expandir o potencial de aprendizado a fim de incluir conceitos tais como a apreciação pela vida, compaixão, comunicação e compreensão inter pessoal / interespécies, altruísmo e da inter-relação da vida. A elaboração / re-elaboração curricular deve então ir além de simplesmente selecionar uma ferramenta não-prejudicial. Ênfase tem que ser dada quanto ao desenvolvimento de metas e objetivos que estão todos incluídos nessa missão maior e na análise dos métodos de aprendizado para ressaltar seus riscos e benefícios. Assumir que a educação nas ciências da vida é simplesmente aprender sobre um grupo conhecido de fatos, princípios e habilidades é uma visão míope e objetivista (1). O que nós 'sabemos' agora é diferente do que Darwin 'soube' ou do que os nossos netos 'saberão'. A noção popular atual de 'humano' provavelmente será diferente daquela de gerações anteriores e futuras. A premissa desse capítulo refere-se a missão referida anteriormente - uma maneira melhor de ensinar - que ela é desejável e que vale a pena; a fim de que a nossa sociedade possa avançar nessa direção, nosso sistema educacional precisar evoluir. Esse capítulo fornece um delineamento para o processo de elaboração do currículo; uma abordagem completa extraída de grandes conjuntos de expectadores, orientada para uma escala mais ampla de considerações e credenciada quanto as implicações sociais positivas da humanidade.

O aprendizado nas ciências da vida

As ciências da vida consistem em um amplo grupo de disciplinas complexas e em eterna mutação das quais a participação bem-sucedida requer diversas habilidades, conhecimentos e atributos. A abordagem e execução dessa diversidade em um currículo é sempre um desafio. O foco tem seguido uma tendência de ser só o conhecimento na abstração. Mas o domínio do conhecimento científico é apenas o começo. Os estudantes das ciências da vida devem também ir além no setor cognitivo para compreender, aplicar, analisar, sintetizar e avaliar o conhecimento (Taxonomia de Bloom2). Além disso, as ciências da vida devem ser abordadas através dos domínios afetivo e psicomotor. Os estudantes devem estar aptos a receber e responder à informação; precisam estar preparados para avaliar, organizar e caracterizar a informação. Aqueles adentrando a esses campos devem estar adaptados às práticas necessárias de habilidade para a participação bem-sucedida na disciplina escolhida. O dogma ignorado, dado que este é o aprendizado das ciências da vida, deve ser o de introduzir gota a gota a apreciação e o respeito pela vida, de forma que os estudantes tenham o potencial de ser nossos futuros especialistas, educadores, reguladores e modelos. Preparando-os para essas grandes ambições através da manutenção de seu interesse pelo aprendizado, suas naturezas inquisitivas e a compaixão para com todos darão apoio a um futuro positivo para com a civilização e para com este planeta.

Planejamento curricular nas ciências da vida

Quando se está revisando ou elaborando um currículo, o processo deve começar com os educadores, separando-nos dos métodos e concentrando nos resultados desejados. Iniciando com um quadro amplo, deveríamos determinar os objetivos do currículo das ciências da vida relativos ao currículo como um todo (3). Depois, o foco é atingir cada curso ou disciplina de ciências da vida através da esquematização dos objetivos com mais características comportamentais específicas amarradas (ou seja, ações que devem ocorrer para que o objetivo seja satisfeito). A partir daí, o mapa do curso pode ser desenvolvido na forma de objetivos bem construídos. Deve-se prestar atenção ao conceito de como algo que é ensinado ou aprendido possa ser tão importante para a transmissão desses objetivos e metas quanto o é o conteúdo apresentado. A determinação de importância relativa aos vários domínios do aprendizado (cognitivo, afetivo, psicomotor) com respeito ao nível acadêmico e expectativas futuras é uma tarefa aterrorizante e comumente desconsiderada. Conforme os estudantes vão amadurecendo seu enfoque, a atenção em disciplinas específicas, metas, objetivos e métodos devem ser alinhados apropriadamente sem que se esqueça que o 'quadro' permanece bem grande. Os estudantes em idade universitária e de pós-graduação devem vir apreciar o escopo de seus campos de estudo escolhido - não somente os fatos e princípios, mas as habilidades e atributos inerentes para a participação bem sucedida. Selecionar as metas, objetivos e métodos para a manter essa amplitude é um desafio para o processo de elaboração do currículo, apesar de altamente recompensável para os estudantes. Apesar do considerável investimento em tempo e recursos nessa experiência de planejamento curricular, os educadores não devem considerá-lo como algo estático ou como um projeto concluído. A evolução de um currículo é essencial.

Na entrega do currículo, a avaliação dos resultados, então, torna-se crítica para o sucesso e crescimento do currículo. Testes tradicionais padronizados podem não ser adequados para a avaliação do progresso dos estudantes; a metodologia de teste precisa levar em consideração os métodos pelos quais o estudante aprendeu a informação e a informação específica que foi aprendida. Novamente, a avaliação deve ir além dos testes relacionados aos fatos e princípios; a comunicação, a compaixão e o esforço colaborativo, por exemplo, devem ser avaliados. Além disso, a avaliação deve focar não somente o progresso do estudante, mas o progresso do currículo. Um currículo ajusta-se bem a metáfora de uma investigação científica; ele se desenvolve e evolui além do tempo, diretamente pelo retorno e pela nova informação (por exemplo o programa de avaliação de dados)4. Ignorar os dados é reprimir a investigação. Os métodos de educação humanitária permitem o potencial para aprendizado nas áreas tradicionais, assim como também em muitas outras, até agora minimamente apreciadas ou avaliadas áreas das ciências da vida (veja o artigo de Balcombe, neste volume).

Objetivos curriculares inclusivos

Os objetivos do aprendizado nas ciências da vida são bem amplos (5). Os estudantes precisam compreender e/ou serem capazes de avaliar a extensa base de conhecimento nas diversas disciplinas (tais como fisiologia, zoologia e biologia). Eles devem se importar em conhecer muitas inter-relações complexas e participar no raciocínio dedutivo. As diversas disciplinas científicas necessitam que o estudante empregue suas habilidades de percepção e também físicas. A área de aprendizado que não é específica as ciências da vida, embora essenciais a elas, está nas habilidades da vida. As comunicações circundantes, o pensamento crítico, a auto regulamentação, as interações entre grupos, a solução de problemas, o aprendizado ao longo da vida etc. E o centro para todos os campos da ciência da vida está na apreciação pela vida. Então, quando os educadores formulam os objetivos de um currículo ou programa de estudo, devemos ampliar o campo através do qual reunimos nossas expectativas - indo além de simplesmente pedir aos estudantes que acumulem conhecimento; pedindo a eles que aprendam a ser cientistas da vida. Os objetivos do currículo são, assim, de que as idéias "mantenham seu valor além da sala de aula" (6). Criar o conceito de idéias inclusivas versus exclusivas permite o desenvolvimento do estudante com um potencial muito maior.

Aplicações práticas

Esses objetivos inclusivos não são objetivamente mensuráveis; particularmente eles dão direcionamento ao currículo. Eles são concebidos e escritos para definir o currículo para os desenvolvedores e participantes.
Objetivos inclusivos podem ser escritos com terminologia geral, tais como 'compreender', 'apreciar' e 'desenvolver'. Eles podem ser explícitos e inclusivos de todos os aspectos de aprendizado no currículo, como sugerido acima.

Exemplos de objetivos inclusivos no aprendizado das ciências da vida para o estudante de veterinária podem incluir:
o Desenvolvimento de habilidades e conhecimento básico para medicina veterinária
o Compreensão de comunicações essenciais para a clínica médica de veterinária
o Apreciação das habilidades de aprendizado necessárias para o autodesenvolvimento de longo prazo na medicina veterinária
o Compreender as necessidades dos pacientes e dos guardiões.

Exemplos de objetivos inclusivos no aprendizado das ciências da vida para os estudantes universitários podem incluir:
o Compreensão do conhecimento básico para a disciplina
o Desenvolvimento da habilidade essencial para a elaboração e condução de uma investigação científica
o Apreciação das habilidades de comunicação necessárias para a disseminação de dados dentro da comunidade científica e amadora
o Compreensão quanto as necessidades da comunidade científica e das populações animais 

Exemplo de objetivos inclusivos no aprendizado da ciência da vida para os estudantes da escola secundária podem incluir:
o Apreciação do significado de 'vida' ou de 'modo de vida'
o Compreensão das características de distinção dos reinos animal e vegetal
o Desenvolvimento das habilidades necessárias para o aprendizado das ciências da vida
o Desenvolvimento de uma consciência quanto à interligação da vida vegetal e animal neste planeta

Concentrando nas metas curriculares

A partir da ampla pesquisa de objetivos podemos destilar as metas. As metas são mais específicas para o contexto de uma disciplina específica ou curso, além de preencher os objetivos curriculares. Por exemplo, um estudante aprendendo sobre fisiologia aplicará os objetivos gerais do currículo de ciências da vida em contextos mais específicos da disciplina de fisiologia (por exemplo, o significado de comunicação em fisiologia pode ser um tanto diferente se comparado a outras disciplinas; os métodos para transferência de informação ou investigação científica, ou ainda para a solução de problemas, podem ser bem diferentes dos utilizados em anatomia, botânica ou ecologia). O aprendizado é mais eficiente e efetivo quando é permitido que ocorra em um contexto apropriado; o estudante deve estar apto para relacionar informação com uma experiência ou situação tangível (ou seja, num modelo de aprendizado contextual)7. As metas iniciam o processo de fornecimento deste contexto.

Aplicação prática

As metas são escritas com mais atenção aos termos observáveis; elas descrevem as ações que devem ser demonstradas pelo estudante para confirmar o aprendizado bem sucedido na área específica. Se um curso não é parte de um currículo de ciência da vida bem construído, então os educadores deverão parar e retornar a elaboração dos objetivos de um currículo de ciência da vida onde o curso específico poderia se encaixar de maneira ideal. Devemos considerar de onde o estudante veio e para onde ele vai. Esta reflexão e preparação permitirão que considerações mais inclusivas emergem.

Exemplos de metas no aprendizado de ciências da vida para o estudante de veterinária podem incluir:
o Aquisição de conhecimento relacionado ao sistema cardiovascular normal e anormal em cães.
o Controle de habilidades clínicas básicas relacionadas ao sistema cardiovascular em cães. 
o Identificação e aperfeiçoar das comunicações essenciais ao diagnóstico cardiovascular e as terapêuticas na medicina veterinária 
o Aperfeiçoamento das habilidades de estudo necessárias para o auto aprimoramento de longo prazo na cardiologia veterinária
o Definição e abordagem das necessidades cardiológicas do paciente e para seu guardião
o Demonstração de compaixão e profissionalismo apropriados relacionados à prática de cardiologia veterinária

Exemplos de metas no aprendizado de ciências da vida para o estudante universitário de zoologia podem incluir:
o Aquisição de conhecimento básico sobre o ciclo de vida dos moluscos
o Controle das habilidades essenciais para a elaboração e condução de uma investigação científica
o Identificação e aperfeiçoamento das habilidades de comunicação necessárias para disseminação de dados dentro da comunidade científica e amadora
o Definição das necessidades da comunidade científica e das populações animais conforme relacionadas à disciplina de zoologia
o Explicar a relação entre os invertebrados e seus respectivos meio ambientes

Exemplos de metas do aprendizado de ciências da vida para estudantes secundaristas de biologia podem incluir:
o Aquisição de conhecimento básico sobre genética e evolução
o Esboçar e distinguir entre os ciclos e formas de vida de invertebrados versus vertebrados
o Demonstrar o papel da água e das moléculas orgânicas nas formas de vida animal e vegetal
o Identificar e aperfeiçoar as habilidades necessárias para o aprendizado nas ciências da vida
o Explicar a inter-relação da vida vegetal e animal.

Objetivos intencionais de aprendizado

Poderemos então utilizar os objetivos curriculares para a elaboração dos objetivos de um curso; um objetivo intencional de aprendizado deve ser uma declaração sobre um comportamento observável, com padrões de atuação minimamente aceitáveis, dadas as condições específicas sob as quais a atuação do estudante deve ocorrer. Estas declarações devem ser escritas com total consideração da posição do curso dentro do currículo, necessidades de tempo, nível de desenvolvimento do estudante, as necessidades inerentes quanto aos estudos ou atividades subseqüentes do estudante, os objetivos do curso assim como também de outros cursos relacionados e as metas do currículo. Elas podem ser organizadas por prioridade das atividades seqüenciais guiadas dos estudantes. Os objetivos de aprendizado bem estruturados fornecerão a estrutura através da qual as ferramentas e os métodos de estudo, assim como o significado da avaliação, serão elaborados. Os objetivos devem ser detalhados e inclusivos, necessitando ações por parte dos estudantes que demonstrarem aprendizado e compreensão nas áreas mais importantes das ciências da vida identificadas nas metas e objetivos do currículo

Aplicação Prática

A lista de objetivos de aprendizado para um curso deve ser suficientemente detalhada para ser utilizada como um guia durante o curso e/ou como um catálogo ao final do curso. A linguagem de um objetivo deve incluir termos específicos de observação, da forma que métodos de avaliação serão claramente desenvolvidos (por exemplo, conduta, análise, atuação, cálculo, verificação, demonstração, comparação). Objetivos de aprendizado 'generais' são escritos de acordo com o ponto de vista dos professores; eles dizem aos estudantes o que esperar do curso e do professor. Objetivos de aprendizado 'específicos' são escritos a partir do ponto de vista dos estudantes, eles dizem ao estudante o que o professor esperará dele. Um possibilidade interessante neste processo é a de submeter aos estudantes seus próprios objetivos específicos conforme o curso vai progredindo.

Exemplos de objetivos no aprendizado das ciências da vida para o estudante de veterinária podem incluir:
No quarto ano do currículo de medicina veterinária, o estudante será capaz de:
o Interpretar corretamente as dez mais comuns anormalidades eletrocardiográficas vistas em pacientes caninos durante exames clínicos reais.
o Comunicar-se em formato escrito seguindo uma avaliação de diagnóstico dos cinco casos mais freqüentes de problemas cardíacos em felinos.
o Fornecer crítica oral sobre dez fontes da internet relacionadas à cardiologia veterinária para estudantes membros da universidade.
o Representar a interação entre o cardiologista eqüino e seu guardião dado um caso de síncope em um potro com idade de quatro meses
o Dominar técnicas para amostra de sangue arterial e fornecimento por escrito de avaliações fisiológicas de dez apresentações clínicas utilizando o simulador de artéria, amostras clínicas e dois analisadores de gás do sangue
o Identificar a anatomia macroscópica de um coração vivo e dos grandes vasos durante a demonstração videográfica de uma cirurgia de ponte de safena em canino para correção de anomalias congênitas

Exemplos de objetivos de aprendizado das ciências da vida para estudantes universitários de zoologia podem incluir:
Na conclusão do curso, o estudante será capaz de:
o Esboçar o ciclo de vida e ensinar os princípios a estudantes de nível pré-universitário
o Preparar uma aplicação de concessão científica utilizando os padrões do U.S. National Institutes of Health 
o Apresentar as descobertas das investigações científicas para uma platéia profissional
o Elaborar e implementar uma viagem experimental no campo da zoologia para uma escola de primeiro grau
o Preparar um relatório de impacto ambiental relacionando o novo habitat às espécies XYZ.
o Liderar um fórum comunitário buscando abordar uma preocupação emergencial relacionada à vida animal
o Dominar a anatomia microscópica ultraestrutural da célula
o Criticar os componentes de elaboração de um estudo experimental 

Exemplos de objetivos no aprendizado das ciências da vida para os estudantes secundaristas de biologia podem incluir:
Ao final do segundo ano o estudante estará apto a:
o Prever progenitura para cruzamentos genéticos conhecidos no reino vegetal
o Identificar uma espécie e justificar a classificação filogênica 
o Preparar um estudo científico de investigação sobre o equilíbrio da água nos mamíferos
o Analisar os efeitos de um esforço físico relacionado aos sistemas cardiovasculares, respiratórios e metabólicos de um mamífero.
o Descrever os componentes de uma bem sucedida comunicação científica escrita
o Revisar quatro ferramentas de aprendizado utilizadas no estudo e no ensino da biologia 
o Rastrear uma molécula de água de uma gota de chuva até a bexiga de uma suçuarana

Seleção de métodos de ensino multidimensionais

A execução dos objetivos do aprendizado requer decisões e metodologia. Os riscos e benefícios de cada método devem ser identificados e pesados. Desde a forma como entregamos a educação impactará em algumas das metas/objetivos (ou seja, através dos processos de aprendizado, tais como a observação e o modelo de atuação), o brainstorming8 de cada método é um exercício de planejamento útil. (Através da utilização das técnicas de brainstorming o indivíduo é estimulado a novas formas de pensamento sobre como um método de ensino satisfaz direta e indiretamente metas/objetivos estabelecidos).

Quando uma pessoa em uma posição de autoridade é vista pelos estudantes prejudicando outra através da utilização de uma ferramenta específica de aprendizado ou método, os estudantes poderão concluir que o ato de prejudicar é um comportamento aceitável. Um termo empregado para definir este conceito é o de insensibilidade. Suas ramificações são de longo alcance. Nós queremos que um médico pediatra ou um veterinário pare de tratar a dor em crianças ou animais? 

Há evidências que sugerem que a insensibilidade ocorre em sistemas atuais de educação veterinária (9) e o tratamento da dor nas crianças está somente agora recebendo a atenção que merece (10). Essas descobertas estão relacionadas ao modo como aprendemos - as experiências de insensibilidade que tivemos em nossos anos de estudo? Sem a específica identificação, reconhecimento e avaliação quanto aos benefícios de cada método, eles permanecem intangíveis; os aprendizes podem não apreciar sua importância (11). E se o elaborador do currículo identificou esses temas como sendo de importância, então a 'apreciação do estudante' é de fato importante. Além disso, sem a identificação específica e o reconhecimento de cada detrimento do método, nós, enquanto educadores, não podemos pesar apropriadamente a relação de risco e benefício para nossos estudantes. Ainda que tenhamos que fazê-lo.

A área de aprendizado metodológico oferece oportunidades criativas para o elaborador do currículo. Podemos escolher métodos de aprendizado e ferramentas que tenham sido validados por seus objetivos pretendidos ou modificar métodos validados e ferramentas para novos objetivos. Podemos ainda realizar testes piloto em novos métodos e ferramentas para aplicação subsequente em objetivos específicos ou criar novos métodos e ferramentas para esses objetivos e validá-los através de sua própria utilização. Há atualmente uma abundância de recursos disponíveis e relativamente sub utilizados que irão auxiliar o elaborador do currículo na seleção do método e das ferramentas de ensino. Esse livro busca ser um desses recursos a fim de facilitar ao usuário o acesso as ferramentas de aprendizado. E há uma riqueza de informações na literatura referente à educação para facilitar a seleção do método de aprendizado.

Alguns exemplos de metodologia do aprendizado incluem:
o Aprendizado ativo: Um método de educação que permite aos estudantes participarem na aula em vez de assumirem o papel passivo de ouvintes e anotadores. Ele pode incluir a discussão em pequenos grupos, a representação, projetos práticos e questionamento conduzido pelo professor. Esta é uma metodologia bastante popular na literatura atual; muitos métodos bem sucedidos de aprendizado ativo têm sido avaliados, incluídos na dinâmica das aulas e até exercícios participativos (12-15).

o Aprendizagem-Serviço: Dois conceitos são centrais nesta metodologia de aprendizado. Primeiro, as experiências em serviço são utilizadas para aumentar o aprendizado (por exemplo, servindo a ele). O envolvimento nas atividades de serviço pode aumentar a motivação do estudante, evidenciar o aprendizado das atividades de sala de aula e introduzir o estudante na complexidade do mundo real. Em segundo lugar, a aprendizagem-serviço permite ao estudante reconhecer, desenvolver e refinar o ato de servir (por exemplo, aprendendo a servir). Auxiliar os estudantes a desenvolverem um espírito de serviço pode ser um objetivo-chave da educação dos estudantes em formação. Essa metodologia é utilizada e tem sido avaliada em uma variedade de disciplinas; ela é bem satisfatória para a arena das ciências da vida. 

o Aprendizado assistido por computador: Essa metodologia, na forma de realidade virtual gerada por computador (16-18), softwares interativos e simulações (19,20) pode ser uma poderosa ferramenta de engajamento quando aplicada de maneira apropriada.

o Aprendizado experimental: Utilizando essa metodologia, os estudantes se tornam participantes ativos em eventos que vão além da sala de aula, facilitando o acumulo de conhecimentos, habilidades e valores considerados importantes para o currículo. Essa abordagem leva em consideração a realidade do 'aprender fazendo';(21, 22) um elaborador criativo de currículos têm um potencial enorme de capitalizar esse conceito nas ciências da vida.

Os métodos escolhidos para facilitar o aprendizado podem ser diversos e multidimensionais, como também um único método pode satisfazer uma gama de objetivos distintos de aprendizado. Uma objeção ocasionalmente divulgada é a de que as ferramentas de aprendizado que surgem através de metodologias diversas não são suficientemente boas. A imagem do computador não é suficientemente exata, o conteúdo é por demais simplista, o comprometimento de tempo é muito grande, o preço é muito alto. Como foi evidenciado pelos exemplos e pelos dados de suporte nesse livro, muitos dos produtos e oportunidades de hoje demonstram que essas preocupações são infundadas. Além disso, se limites e expectativas apropriados forem aplicados a ferramenta de aprendizado (na forma dos protocolos individuais da ferramenta de ensino23), então o estudante pode focar nas forças da ferramenta e maximizar o aprendizado nas áreas específicas. Um protocolo apropriadamente preparado previne o desapontamento do estudante com uma ferramenta pelo fato das expectativas serem mais apropriadas que compromissadas. Além disso, os produtores de ferramentas de ensino tangíveis seguirão o comando do usuário final; se nós, enquanto educadores, fizermos exigências e participarmos no desenvolvimento de ferramentas de aprendizado e métodos novos, os produtores completarão nossas necessidades. Não podemos é ficar parados esperando que outros invistam seu tempo e esforço se a eles não é demonstrado o potencial de mercado. Os educadores devem criar a demanda, o suprimento virá a seguir.

Quando da escolha de métodos de aprendizagem, devemos ir além do alto da tribuna. Nós não devemos assumir que exista um modelo inanimado ou um programa de software que possa 'ensinar' um tópico inteiro. Não devemos assumir que a observação de uma demonstração fisiológica ou a audição de uma aula irá 'ensinar' um conceito. O aprendizado é multidimensional e, assim, necessita de métodos apropriados para facilitar o processo. Deveríamos olhar para fora das salas de aula, descer do púlpito, mudar através da variedade necessária para engajar e completar os estudantes.

Novamente, a analogia ligando a educação a abordagem científica é bem válida aqui. A escolha dos métodos de aprendizagem devem seguir a evidência quando esta estiver disponível (24) e nós devemos nos engajar ativamente na criação e disseminação da evidência onde ela estiver em falta (veja Balcombe, neste volume). Este processo de demonstração ou reforma curricular também é paralelo a construção ou ao processo de decisão colocado a frente por Dewey (25) e Wales et al (26). A mensagem trata do processo de pensamento lógico - defina o problema, estabeleça os objetivos, reúna informações, defina os obstáculos, sugira soluções, dê suporte as soluções através de evidências, escolha e avalie a solução.

Nesse estágio, quando as metas/objetivos estão concretos e os métodos de aprendizagem estão compatíveis com os objetivos, sugiro que é nesse ponto que a escolha por ser humanitário entra em prática.
O objetivo mencionado acima deve ser o de valorizar a vida - e é por isso que no final das contas estudamos esse assunto. Estamos apavorados com isso. Buscamos a compreensão. Mas, destruir nossa busca é o mesmo que matar aquilo de que tanto gostamos. Fazer isso com estudantes maduros é um tremendo desserviço para com eles, para com a comunidade e para com o nosso futuro - e nós, de fato, damos formato ao nosso futuro pelo fato de que elaboramos a forma como nossos estudantes irão aprender. Podemos escolher métodos e ferramenta de aprendizado que não prejudiquem os animais, o meio ambiente ou os estudantes. E aprendizado até mesmo através da participação benéfica e não maligna de animais é um privilégio que devemos reservar para aqueles que merecem e precisam dele. Através desse processo podemos promover uma reverência para com a vida tão eloqüentemente descrita por Albert Schweitzer na início do século XX (27).

"Vagarosamente nós navegávamos rio acima - era estação de seca - entre os bancos de areia. Perdido em meus pensamentos eu sentei na proa do barco, lutando para encontrar o universal e singular conceito da ética que eu não havia visto em nenhuma filosofia. Eu divaguei por tudo em frases desconexas tentando me concentrar no problema. Dois dias se passaram. No terceiro dia, num pôr-do-sol, quando passávamos por um grupo de hipopótamos, a frase "reverência pela vida" veio de uma forma inusitada a minha mente. Uma barreira havia se rompido. O caminho se tornou visível. Neste momento havia encontrado meu caminho ao princípio no qual a afirmação do mundo e a ética estão juntas! Estava na raiz do problema. Eu sabia que o reconhecimento ético do mundo e da vida, junto aos ideais de civilização contidos neste conceito, tem seu fundamento no pensamento".

"O que sempre esteve faltando no conceito de ética é que ele leva em consideração apenas a relação do homem com outros seres humanos. Mas, na verdade, deveríamos estar preocupados com a atitude do ser humano pata com o universo e as criaturas em seu entorno. O ser humano é moral apenas quando considera a vida por si, a vida em uma planta, a vida em um animal assim como a vida em um ser humano como sagrados e quando faz o possível para ajudar qualquer vida em aflição".

Essa abordagem não limita nossas escolhas; pelo contrário, força-nos a examinar e justificar nossas ações relacionadas aos animais e entre nós mesmos. Esse pensamento crítico, a introspecção e criatividade resultantes beneficiarão não somente o aprendiz das ciências da vida mas a sociedade como um todo.

Metas e objetivos amplamente satisfeitos nas ciências da vida sem que haja prejuízo animal

Como estabelecido originariamente na discussão sobre as metas curriculares, o aprendizado potencial disponível e importante para o estudante das ciências da vida é imenso e diverso. Nós pedimos aos estudantes que aprendam sobre anatomia macroscópica e sobre a fisiologia de um sapo, de um porco ou de um gato, mas não pedimos a eles que aprendam como comunicar seu conhecimento ou ainda como avançá-lo. Podemos pedir a eles que justifiquem ou julguem a informação. Podemos pedir que demonstrem suas habilidades de percepção tão fundamentais para as investigações científicas. Podemos ainda pedir que elaborem formas para responderem as suas próprias perguntas. A chave para o alcance desses objetivos mais inclusivos baseia-se nas suas identificações, em colocá-las no papel, tornar a expectativa clara e avaliar o progresso do estudante com relação a cada um deles. Todos os maiores resultados desejados devem ser avaliados ou eles não serão considerados resultados (11).

Quando consideramos o tópico de métodos humanitários para a educação, filosofia e prática curricular, o planejamento fornece a perspectiva; ele determina a importância relativa do aprendizado de um tema e assim dos métodos empregados. Eu poderia argumentar que metas como a de infundir a apreciação e propensão para o pensamento científico são tão importantes, se não forem até mais importantes, para o amadurecimento do estudante de ciências da vida do que saber a aparência de um rim preservado em formalina e onde ele reside. E a função do rim para o corpo vivo é igualmente mais importante e muito facilmente aprendida em contexto enquanto executa múltiplos objetivos durante as experiências multidimensionais. Por exemplo, no início da carreira acadêmica, o rim pode ser utilizado como o contexto no qual objetivos de aprendizado estão centralizados ao redor da escrita técnica, comunicação técnica verbal, método científico, medição científica (volumes, pesos etc), osmose e uma apreciação pela vida é satisfeita. Um objetivo de aprendizado que pede a um estudante que saiba como um rim morto se parece, cheira ou sente é inadmissível em comparação com os seis objetivos citados anteriormente. Ou mais pertinentemente, o estudante dominando somente o último objetivo sofre em comparação com o aquele que é versado nos seis primeiros. Talvez alguns educadores pensem que precisam de um cadáver para engajar os estudantes. Dado o seu uso muito limitado e potencial para satisfazer os objetivos de aprendizado fora do treinamento médico (ou seja, simplesmente para conduzir qual a aparência, cheiro e tato de um rim morto preservado em formalina), por que não escolher um método igual ou superior de engajamento de estudantes que preencha uma lista mais inclusiva de objetivos? 

Poderia essa abordagem do aprendizado da ciência da vida ser integrada em um currículo existente - uma tarefa que seria provavelmente mais difícil do que começar tudo de novo? Tanto uma reforma direta quanto uma abordagem gradual são atingíveis. Se a opção for por uma abordagem por estágios, somente as implementações devem ser adaptadas; a fase da elaboração deve acompanhar o plano como um todo. Se a elaboração não for feita por estágios, o grande cenário estará perdido. A reforma curricular pode ser uma tarefa amedrontadora. Para evitar muita da frustração inicial quando percebida a enormidade da tarefa, um primeiro objetivo importante deve ser formular as metas e objetivos pedagógicos curriculares sem considerar os recursos. Libertar o indivíduo de obstáculos potenciais relacionados a implantação permite a geração de metas e objetivos criativos e inclusivos. Sem essa liberdade, a criatividade não surgirá. Esse processo é melhor atingido com a participação de múltiplos participantes durante as sessões de brainstorming. Profissionais, acadêmicos e usuários da(s) disciplina(s) em questão poderão todos fornecer a percepção quanto ao desenvolvimento dos objetivos e metas relacionados. Pesquisas realizadas por usuários da(s) disciplina(s) também constituem ferramentas úteis para a compilação das metas e objetivos. 

Criando uma evolução da educação humanitária nas ciências da vida

A motivação para a reforma curricular pode ou não se originar com o desejo de emprego de métodos educacionais humanísticos. Mesmo se a reforma for motivada através da percepção de sua necessidade para uma educação 'melhor', é provável que o novo currículo seja de fato humanístico se todos concordarem que o aprendizado sobre coisas como compaixão, altruísmo, vida, e não-violência sejam importantes. Por exemplo, ensinar o princípio de superioridade de nossa espécie (através do detrimento animal porque nós podemos) é necessariamente contrário ao aprendizado voltado para a apreciação da diversidade dentro das nossas espécies ou em relação a outras espécies e da complexidade da vida em si. A ciência da vida não é exata; ela é continua. Nós não sabemos 'a verdade'. Sugerir que outras espécies são 'sabidas' como inferiores e estão a nossa disposição, não nos permite impingir a humilhação que precisamos para buscar pela verdade (1). A escolha de métodos de aprendizagem que dêem apoio aos importantes conceitos mencionados anteriormente nos moverá para a frente. 

A avaliação ativa do currículo é tão essencial para o progresso educacional quanto o teste de hipóteses é para a descoberta científica. Os educadores devem participar nesse processo de forma que nós também possamos nos beneficiar dele. Os métodos de avaliação dos nossos estudantes devem ser tão diversos quanto os nossos métodos de aprendizagem e nós temos que avaliar o que esperamos que os estudantes aprendam. Nossos programas de avaliação não devem atrapalhar nossos estudantes e devem ser focados a fim de que possam responder as questões colocadas. 

O processo de elaboração do currículo deve ser decidido e bem considerado. É fácil focar nos fatos a serem aprendidos como sendo os únicos objetivos. Um escopo muito mais amplo de conhecimento, habilidades e atributos é um objetivo atingível. Esse potencial maior é o que cria a excitação para o elaborador. Se criarmos um currículo que facilita uma experiência de aprendizado inclusiva, que não prejudique ao estudante nem aos demais e que busque objetivos de aprendizagem diversos através de vários métodos de aprendizado, 'criaremos' um formando cuja vida é definida tanto pela compaixão quanto pelo intelecto. Como e o que ensinamos impactará no mundo através desses indivíduos. 

Conclusões

Esse processo de desenvolver algo novo ou de reformar algo antigo, usando métodos criativos (que talvez não tenham sido comprovados) e solicitando aos estudantes que explorem e demonstrem objetivos de aprendizado novos ou incomuns, provavelmente preocuparão ao elaborador do currículo. Membros da nossa espécie (assim como de outras) atuam da melhor maneira possível quando os níveis de adrenalina sobem, o coração bate mais rápido e a mente está clara e exata. Fazer parte desta incerteza educacional nos dá a circunstância desafiadora de criar algo melhor. O risco restrito pela racionalidade permite-nos ir a frente na lógica, o gênero controlado buscando soluções para os problemas que enfrentamos. A educação é um desafio.

Agindo da forma como sempre agimos e esperando de nossos estudantes o que sempre esperamos é contrário à natureza humana e a descoberta científica. O aprendizado através da educação humanitária é ter a expectativa de que nossos estudantes demonstrem bondade e compaixão ao lado de seus intelectos é tanto atingível quanto apoiada pela sociedade civilizada.

Referências

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Biografia

Lara Marie Rasmussen bacharelou-se em Ciências e Estudos Políticos pela Universidade da Califórnia (Davis) em 1989. Concluiu seu doutorado em Medicina Veterinária em 1993. Parte de seu treinamento cirúrgico foi realizado durante um curso de cirurgia na Washington State University. Seu interesse profissional por pequenas cirurgias em animais levou-a a participar de um estágio na South Shore Veterinary Associates, em Massachusetts, e a uma residência com duração de três anos sobre cirurgia de pequenos animais e programa de graduação na Universidade de Minnesota. Mais tarde ela recebeu o status de Diplomada na American College of Veterinary Surgeons. Suas crenças sobre a inadequação e utilização prejudicial de animais na educação foram desafiadas em cada etapa de sua experiência educacional, mas ela triunfou e é atualmente uma bem-sucedida cirurgiã certificada pelo quadro de diretores. Ela passou um ano como instrutora clínica na Washington State University no departamento cirúrgico e então partiu para uma orientação prática na Veterinary Referral Services em Spokane, Washington. Em 1999, ela foi recrutada para desenvolver e dirigir o programa de habilidades clínicas na nova escola de veterinária na Califórnia do Sul (Western University of Health Sciences, College of Veterinary Medicine.) O programa envolve a utilização não prejudicial de animais e incorpora experiências benéficas em animais vivos. A abordagem da Dra. Rasmussen para com esse novo currículo é de capitalizar na riqueza disponível na ciência da educação e exigir o domínio de habilidades por parte do estudante em vez de uma simples exposição a elas. 


Lara Marie Rasmussen, DVM, MS 

Diplomate, American College of Veterinary Surgeons
Professora Assistente 
College of Veterinary Medicine 
Western University of Health Sciences
309 East 2nd Street
Pomona, CA 91766
USA
tel: +1 909 469 5668 (office)
fax: +1 909 469 5635
e-mail: lmrasmussen@westernu.edu
www.westernu.edu