Retorna 2. O impacto mais amplo da educação humanitária

Filosofia da Ciência da Vida 
  Confirmando a Vida 
  Pensamento crítico 
  Conhecimento emocional e ético 
  Sensibilização  
  Empatia e compaixão 
  Beleza, graça e amor 
  Conhecimento ético 
  Visão ecológica mundial e responsabilidade social 
  A ética e o poder 
  Acessibilidade e liberdades civis 

Impacto prático
  Impacto ambiental 
  Benefícios econômicos 
  Condições de trabalho 
  A reputação pessoal e institucional
  Requisitos Legislativos

Notas e referências


Introdução

As maiorias dos professores que desenvolveram alternativas e as implementaram no currículo fizeram-nas, primeiramente, devido às vantagens pedagógicas, conforme descrito no capítulo anterior e na Parte B - Estudo de Casos. Os impactos positivos éticos, sociais e econômicos dos métodos de ensino progressivo também desempenharam seu papel no processo de tomada de decisão de alguns desenvolvedores de cursos. Os múltiplos benefícios de uma transformação curricular que estabelece uma educação humanitária dentro das ciências da vida é agora explorada em detalhes. A consciência quanto a esses impactos e também quanto aos problemas criados pela utilização prejudicial de animais favorecem as alternativas. Ela também pode informar diretamente o processo de esboço curricular. A qualidade do projeto, além das experiências de aprendizado apresentadas aos estudantes, depende não somente da efetividade da entrega dos objetivos principais, mas também do impacto positivo criado para além da sala de aula.

Filosofia da Ciência da Vida 

Confirmando a Vida 

O compromisso dos médicos com a confirmação da vida pela cura, e o imperativo Primum non nocere, ou Em primeiro lugar, não prejudique, tem fornecido as bases filosóficas para a medicina humana. A utilização prejudicial de animais, então, é contrária aos dogmas fundamentais da medicina: o freqüente prejuízo e matança de animais para dissecação ou experimentação na educação tanto da medicina quanto da veterinária ensina ao estudante que o desrespeito à vida e a violação da integridade são práticas aceitáveis. Enquanto os médicos podem, em algumas circunstâncias, prejudicar a fim de curar, esse não é o caso quando se está educando um futuro profissional através da utilização prejudicial de animais.

Essas práticas são também anti-intuitivas quando se aborda o trabalho prático dentro da ciência biológica, de tal forma que o estudo da vida tem se tornado, de muitas maneiras, não mais biologia, mas sim necrologia. O enfoque nos cadáveres de animais assassinados e a utilização de práticas invasivas ensinam que a vida não é para ser abordada com sensibilidade e respeito, mas ao contrário, ela deve servir de teste ou então ser morta e picotada com um bisturi.

Causa-se prejuízo a um animal quando seu bem estar é limitado de alguma forma (veja o Apêndice). A captura, transporte e abrigo de um animal é um ato prejudicial, já que essas ações negam a oportunidade a ele de expressar por completo seu comportamento natural e de ser parte de uma estrutura social e de um ecossistema. Os experimentos em si podem causar dor, medo, stress ou até a morte.

Uma rearticulação entre vida e cura, através da utilização de alternativas como, por exemplo, à auto-experimentação do estudante, o trabalho realizado com pacientes animais e os softwares interativos que modelam os processos vivos podem beneficiar a educação da ciência da vida e impactar positivamente no homem e nos pacientes animais, assim como na própria vida em si.

Pensamento crítico 

O pensamento crítico é um processo de questionamento rigoroso e de efetiva resolução de problemas. Pensadores críticos utilizam um saudável cepticismo na avaliação da informação, no questionamento de crenças e práticas a fim de encarar desafios intelectuais e práticos criativamente, para construir e avaliar um argumento e para aplicar o conhecimento apropriadamente. Essas habilidades são necessárias para o pensamento científico verdadeiro: o método científico, em si, é uma formalização do pensamento crítico.

A habilidade de pensar de forma crítica é obtida através da prática do processo em si. Com direcionamento dado pelos professores, ela entretanto não pode ser ensinada efetivamente pela abstração. Se a educação da ciência da vida é o ensinamento efetivo do método científico, então as habilidades para o pensamento crítico estão sendo empregadas. Perguntas como Por que isso é assim? e Como podemos saber? são típicas. O pensamento mais profundo e a identificação de suposições secretas fazem parte do processo. Quando a evolução da consciência é despertada, o potencial intelectual se desenvolve e a autoconfiança intelectual é encorajada. Aprender como pensar é muito diferente de aprender o quê pensar. A superação da preguiça intelectual de maneira que os estudantes estejam ativamente engajados com o pensamento real pode requerer primeiramente motivação, mas o processo que promove a habilitação e os conhecimentos profissionais adquiridos tem longa duração e amplo impacto social. O pensamento crítico não acaba no campus da universidade ou após a graduação.

Experimentos animais convencionais freqüentemente envolvem pouco pensamento crítico - os estudantes geralmente seguem instruções a fim de obterem um resultado planejado. A experimentação genuína, utilizando o método científico, geralmente não é disponibilizada aos estudantes, ou não é fato encorajado devido à falta de comprometimento para com o processo, ou devido às limitações éticas, práticas, financeiras ou de tempo associadas aos laboratórios animais.As alternativas, como o trabalho em um laboratório virtual, permitem que os estudantes utilizem suas habilidades de pensamento crítico para investigar e resolver problemas e também para aprenderem como utilizar seus conhecimentos sem as idênticas limitações. Eles podem fazer experimentações livremente, aprendendo tanto o assunto em questão quanto o método científico envolvidos no processo e, por terem mais controle sobre a aula prática através do trabalho realizado individualmente ou em grupos, eles são capazes de repetir os experimentos ou de discutir quaisquer problemas até que percebam que adquiriram o grau desejável de compreensão e domínio.

A utilização de simulações de cenários clínicos, como um software de gerenciamento anestésico ou de manequins avançados criados para o treinamento de atendimento intensivo, pode desafiar os estudantes a aprenderem a pensar rápido e a agir apropriadamente, antes que se envolvam em situações reais com pacientes humanos ou animais. Tais simulações são mais realistas do que a condução de experiências dirigidas de experimentos animais pelo fato de serem focadas em casos reais e de explorarem uma variedade de cenários prováveis. O trabalho clínico em si, como uma alternativa, também fornece situações da vida real que desenvolvem o pensamento crítico e as habilidades para a resolução de problemas. Outras alternativas animais não laboratoriais, tais como as práticas de projeto de pesquisa (veja Scroop, neste volume), permitem aos estudantes utilizar o método científico e afiar suas habilidades de pensamento dentro dos projetos que são modelados nas metodologias de pesquisa.

Conhecimento emocional e ético 

Valores e práticas culturais tais como a sensibilidade, o respeito, a empatia, a compaixão e o amor representam papéis fundamentais na manutenção da união da sociedade. Eles ajudam a elevar o comportamento humano e as normas sociais acima e além da brutalidade, da falta de cuidado, da divisão social, do preconceito e da exploração, sendo que essas últimas são expressões de desequilíbrio psicológico e de decadência cultural cuja negatividade afeta e geralmente prejudica outros membros da sociedade, assim como os animais com os quais dividimos o nosso ambiente social e natural.

As práticas das ciências da vida que envolvem maiores prejuízos, como morte ou experimentação, são verdadeiramente atos de violência quando não são realizados para o bem-estar de um animal específico. A operação de um paciente ou a eutanásia em animal que está sofrendo ou tem uma doença terminal, de qualquer forma, tem um comprometimento com o bem-estar dele. Na escala atual de morte e sofrimento, a utilização prejudicial de animais poderia seria ser considerada como um reflexo da barbárie humana que está contendo o desenvolvimento cultural.

Sensibilização  

A sensibilidade é uma das maiores baixas sofridas pelas ciências da vida quando a utilização prejudicial de animais é a norma em vigor. Em vez de valorizar essa qualidade positiva e aspirar pelo seu engrandecimento, muitos professores vulgarizam, dispensam ou, de forma consciente ou inconsciente, destroem-na. Os experimentos e a dissecação de animais insensibilizam os estudantes através da violação da integridade e dos direitos dos animais e devido a própria moral de valores dos estudantes. Eles, portanto, sofrem um efeito negativo quanto ao respeito, empatia e compaixão para com os outros.

A sensibilidade é importante porque ela é a qualidade através da qual podemos receber sinais de outros ambientes, assim como do nosso próprio, e responder a eles. Ela é necessária para a compreensão dos demais e para o reconhecimento dos limites e, portanto, de sermos capazes de respeitar a integridade e os direitos alheios. Ela também é necessária para a exploração positiva de interações inter pessoais e entre as espécies e para testar ou desafiar limites questionáveis quanto ao ponto de vista ético.

A insensibilidade é um processo que se desenvolve quando a experimentação prejudicial de animais torna-se familiar e prática para os estudantes (e para os professores). Para muitos ela atinge um estágio onde a perda da sensibilidade não é mais reconhecida pelo plano consciente e a sua ausência é considerada normal. Tal perda, entretanto, é uma incapacidade emocional que possui um efeito negativo significativo na natureza das relações inter pessoais e entre as espécies, como também na profundeza da saúde mental.

Objeções quanto à utilização animal são por vezes dispensadas por 'delicadeza'. A utilização deste termo de forma pejorativa implica que os estudantes não são capazes de lidar com a dura realidade das ciências da vida - a utilização de um bisturi, a visão do sangue, etc. Eles são considerados 'muito sensíveis', 'não objetivos', 'muito afeminados', 'não são homens o suficiente'. A objeção consciente na educação superior, entretanto, é mais freqüentemente baseada na discordância ética quanto à matança e dano de animais saudáveis e por exigência de melhores experiências de aprendizado do que através da forma oferecida que utiliza prejudicialmente o animal. A finalidade de muitos estudantes de veterinária, ainda devido a sua opção de carreira ser baseada no trato com o sofrimento animal, inclui o tratamento de machucados e a operação quando necessária. Os objetores também são preparados para 'sujar as mãos' através do relacionamento com assuntos éticos, em vez de evitá-los.

Todos os estudantes, principalmente a partir da adolescência, estão explorando o universo moral e tentando compreender os conceitos de liberdade, limites e responsabilidade pessoal. Algumas experiências novas e desafiantes podem envolver o distanciamento ou provocar a repulsa nos estudantes até que elas sejam completamente compreendidas. Algumas 'delicadezas', então, são um aspecto da moral pessoal e do desenvolvimento emocional e devem ser bem-vindas como parte de uma experiência reflexiva e da evolução do sentido de identidade. Então, alguns estudantes sofrem um trauma associado a uma ameaça a sua integridade emocional e ética quando testemunham ou participam da utilização prejudicial de animais. 
O retrocesso psicológico, a dissociação completa e a fuga são maneiras típicas de tentar conviver com este trauma. Com a prática sistêmica continuada da utilização prejudicial de animais, a freqüente negação da existência de um problema ético e com apoio para lidar com o trauma, efeitos como lembranças desagradáveis e culpa podem durar muitos anos (veja Makarchuk, nesse volume).

A insensibilidade é freqüentemente defendida como sendo um mal necessário o qual ajuda os estudantes a aprender como lidar com situações de desafio emocional, tanto na educação quanto em suas carreiras futuras. Como um estudante de veterinária pode aprender a fazer sua primeira incisão cirúrgica, realizar uma eutanásia em um paciente terminal ou até mesmo pensar objetivamente se os seus sentimentos não estão separados e endurecidos em relação ao sofrimento?

A resposta é que através da defesa da sensibilidade, da exploração das reações emocionais de situações reais ou hipotéticas e pelo apoio da discussão ética, os estudantes podem obter as habilidades psicológicas e a força necessária para serem capazes de lidar, de maneira efetiva, com a maioria das situações. Manter a sensibilidade ajuda a manter a conscientização de possíveis cenários ou soluções para situações de crise enquanto que a perda da sensibilidade pode, por sua vez, limitar a habilidade de ação apropriada e de aplicação de um julgamento efetivo para, por exemplo, limitar o sofrimento. Esse conhecimento emocional, ou inteligência, evita a negação de problemas e em vez disso permite ao estudante ou profissional proceder a sentimentos complexos associados com seu trabalho. Um médico que não teve que sofrer enfrentamentos para salvar um paciente irá sofrer pessoalmente por não lidar com o assunto efetivamente e por trivializar os sentimentos. Em um desastre um paramédico precisa pensar e agir rapidamente e ser sensível aos níveis de sofrimento e sobre o tratamento apropriado. A falta de sensibilidade e abordagens descuidadas não são desejáveis nem aceitáveis.

A promoção da insensibilidade, negando os sentimentos do indivíduo e gabando-se dessas situações, pode ter sido popular nas décadas e séculos passados, mas essa técnica não funcionou. Além disso, o dualismo entre emoção e razão é uma construção social; não é a emoção que atrapalha a objetividade, mas a falta de pensamento crítico e consciência sobre a questão como um todo. A negação da emoção e o ato de denegrir qualidades e habilidades emocionais podem contribuir para a falta de autoconsciência que pode, inclusive, impactar negativamente na objetividade (apesar de tudo, há sempre alguém por trás da reivindicação por objetividade). Outra questão envolve o consciente dos seres - animais ou humanos - onde o mais importante é a sensibilidade e a sensibilização. Corações e mentes bem desenvolvidos são certamente pré-requisitos para todos os trabalhos médicos e veterinários, senão para todas as profissões.

Em situações inevitáveis, como desastres, onde a consciência completa do sofrimento poderia ser decisiva, então alguma negação e falta de sensibilidade pode ajudar alguém a sobreviver emocionalmente. Para as vítimas, isso pode ajudar a garantir a sobrevivência física, a menos que limite sua percepção de perigo e uma urgente necessidade por atenção.De qualquer forma, esses exemplos são auto-impostos e de solução temporária, um apoio emocional subseqüente através de aconselhamento encorajará o processo das experiências. As fobias, ou hipersensibilidade a animais específicos ou atividades, também são situações atípicas onde a insensibilidade pode auxiliar as pessoas. A insensibilidade através da utilização animal prejudicial é completamente diferente: trata-se de um processo imposto e certamente desnecessário para a sobrevivência através da educação da ciência da vida.

Empatia e compaixão 

A sensibilidade, por si só, não pode assegurar interações positivas, sejam elas inter pessoais ou inter raciais, ou ainda garantir uma contribuição positiva para a melhoria da ciência; mas ela pode até ser utilizada como uma ferramenta para aumentar o prejuízo ao outro. Combinada como respeito pelos outros, entretanto, a sensibilidade permite a empatia - a consciência e a identificação com os sentimentos alheios e com a experiência vivida. Um pré-requisito para a empatia é que o indivíduo esteja consciente e possa identificar as emoções do outro. O racionalismo científico, a 'maturidade' e o mundo masculino têm dispensado as emoções e sua importância, assim essa consciência é, freqüentemente, um processo de envolvimento para recuperação do próprio ser emocional.

A sensibilidade através da empatia com os estudantes terá que ser compelida, ou a dispensa de suas experiências e valores não poderão ser, eticamente, sustentadas. De forma similar, a sensibilidade através da empatia com os animais necessitará da imposição da isenção animal quanto a danos a sua integridade ou sofrimento, objetivando o fim dos prejuízos ou das mortes de animais. A compreensão desse fato - de que todos podemos sofrer - auxilia a induzir a compaixão. Se pudermos ser agentes na prevenção do prejuízo e, em vez disso, possamos criar situações de bem-estar, então é isso que devemos fazer. A motivação para a ação vem a partir de um sentido de consciência, informado pela inteligência emocional e através do conhecimento de si próprio e das responsabilidades individuais. 

A negação de um problema ético existente, ou o não conhecimento quanto ao próprio papel em relação ao prejuízo dos outros evidencia uma falta de consciência. Ela pode ocorrer devido à insensibilidade, por falha empática ou pelas defesas que criamos para nos defendermos quanto a sentimentos que nós mesmos enterramos ou perdemos. A racionalização do prejuízo animal, sua defesa através da doutrina, da emoção superficial ou de argumentos sentimentais são típicas estratégias de fuga.

A história nos ensina que em situações extremas, a falta de empatia pode ter conseqüências desastrosas. Durante a II Guerra Mundial, grupos inteiros de pessoas foram desumanizados: eles foram objetivados e tratados como 'vermes' na Alemanha, 'lenha' no Japão e como 'o inimigo' no resto do mundo. Respeito e empatia foram descartados e a violência era abundante. A educação médica era utilizada para promover o racismo e as ideologias fascistas, com a experimentação humana, tortura e morte executada por cientistas respeitados. Mais recentemente, Harold Shipman, um médico britânico em exercício, foi descoberto como sendo um serial killer que havia matado cerca de 300 pacientes. Importante, ele foi descrito como "um médico desapegado" e sendo "incapaz de demonstrar empatia", sem qualquer reconhecimento quanto aos valores intrínsecos das pessoas. Ele gostava de "exercitar o domínio sobre os outros" e parecia não ter consciência ou compaixão (1, 2). 

Aspirar pelo 'desapego médico' ainda é visto por muitos como sendo algo positivo. Ver os animais como objetos, como ferramentas dispensáveis sem qualquer valor intrínseco é lugar comum. É verdade que muitas pessoas tentam compartimentalizar suas vidas e suas éticas, mas nada existe verdadeiramente em isolamento: a falta de respeito e de empatia dentro de um laboratório não termina na porta de saída. A utilização prejudicial de animais na educação das ciências da vida contribui para um ambiente onde expressões extremas de falta de respeito e empatia, como a citada acima, pode ser desenvolvido. Ela também dá suporte aos problemas dos praticantes da medicina que vêem a doença, mas não a pessoa e da utilização prejudicial de centenas de milhares de animais em pesquisas e testes, apesar das alternativas disponíveis. Por que contribuir com o problema através do apoio as práticas prejudiciais em laboratório, um lugar onde o ensino quanto ao respeito pela vida não somente é possível como urgentemente necessário?

Beleza, graça e amor 

Em absoluto contraste com o exposto acima, há beleza, graça e amor. Para alguns cientistas, o apelo da pesquisa está na beleza do método científico e da execução de um bem elaborado experimento. Um curso criteriosamente elaborado para os estudantes, onde todos os elementos se encaixam sinergeticamente em um poderoso conjunto, também é uma obra de arte, como também são algumas das melhores ferramentas de aprendizado. Alguns professores entusiasmam os estudantes com uma fascinação e temor quanto à complexidade e beleza da natureza, dos animais e do corpo humano e demonstram paixão por ensinar, aprender e amar a vida.

Conhecimento ético 


O conhecimento de forma ética é a habilidade de compreender os conceitos e princípios do pensamento moral, de pensar criticamente sobre normas morais e de aplicar essas habilidades na vida pessoal e profissional. Isso envolve tanto as habilidades cognitivas quanto emocionais. Seguir uma corrente de pensamento certamente ajudará a fazer as conexões entre os temas e trazer o pensador à consciência quanto às conseqüências de uma atividade. A sensibilização, o respeito e a empatia ajudam a pessoa a se informar quanto as conexões inter pessoais e inter-raciais, incluindo a natureza do relacionamento, e uma compreensão quanto aos impactos e limites relacionados a elas. Essas características também evidenciam um conhecimento emocional que é parte do conhecimento pessoal necessário para assumir a total responsabilidade quanto aos atos do indivíduo - o que é uma parte essencial do conhecimento ético. 
O conhecimento ético, então, contribui para o autodesenvolvimento: a evolução e florescimento de um estudante com respeito aos valores e a integridade, ao engajamento com as comunidades locais e mundiais e competência e comprometimento ético na sua profissão. Parte desse autodesenvolvimento é uma compreensão do impacto dos padrões éticos pessoais e coletivos na sociedade e o papel que o conhecimento ético representa dentro da mudança moderna.

O reconhecimento de temas éticos e a capacidade de pensá-los de forma crítica vem sendo, há muito tempo, detectado como uma habilidade essencial para as profissões tanto de médico como de veterinário. O trabalho com um paciente requer conhecimento ético para auxiliar as ações do dia-a-dia e para fornecer suporte para situações particularmente desafiadoras. Avanços rápidos na tecnologia estão levantando novas e freqüentemente difíceis questões onde o conhecimento ético é necessário. Está claro que o nível dessas habilidades não é hoje em dia suficientemente alto entre as profissões, os corpos legislativos e reguladores, ou do público em geral para lidar efetivamente com muitos desses temas. A ciência, juntamente com outras tantas áreas, é freqüentemente vista como existindo em um vácuo ético e as conseqüências reais dessa ilusão estão refletidas nos problemas que nos circundam. Mas o debate ético deve ser um elemento essencial durante toda a política e prática; ele não deve ser adicionado aos cursos ou políticas, ou ser visto como um tema em separado, isolado do restante da realidade.

A discussão ética é mais provável de ser iniciada por professores e estudantes de mentes críticas, incluindo aqueles que vêm trabalhando para o lançamento de alternativas; essa discussão é freqüentemente evitada quando animais são utilizados de forma prejudicial nos cursos. Essa fuga sugeri a negação de um problema ético e evidencia uma falta de avaliação crítica da informação com respeito a utilização animal e as alternativas. Apoiar, de fato, o conhecimento ético, requer que professores e estudantes sejam capazes de desafiarem-se, desafiarem suas crenças e suas estruturas; se qualquer um dos dois não desejar esse desafio, então a ciência absoluta da natureza será traída. A ampla negação das discussões éticas quanto a utilização animal e das alternativas dentro das ciências da vida fornece um lição de facto na ética: que as preocupações éticas não importam. O currículo por trás disso ensina que a vida é algo barato e que os animais podem ser utilizados como ferramentas descartáveis.

Quando os assuntos são explorados, há muitos benefícios. Os professores podem demonstrar coragem emocional e intelectual, através do fato de encararem temas difíceis; o processo de lidar abertamente e de forma responsável com questões éticas está demonstrado como sendo preferível a sua negação; e o processo de resolução de conflito e do alcance de soluções para vencer ou vencer podem se demonstrados - ainda mais quando a comunidade de estudantes é avaliada como uma parte integral dos processos de decisões éticas na sala de aula.

Visão ecológica mundial e responsabilidade social 

A compreensão quanto ao múltiplo impacto negativo da utilização animal prejudicial é parte de um amplo processo de desenvolvimento (ou talvez de recuperação) de uma consciência ecológica e holística mais profunda de interconexão e de responsabilidade quanto as próprias ações. A relação entre a política, ou escolha da ferramenta de aprendizado de um lado e seu impacto pedagógico, social e ambiental de outro, torna-se mais clara a medida que essa conscientização cresce. A negação da conexão é mais difícil de se manter.

Reconhecer a si mesmo como um participante da comunidade mundial - a qual envolve seres humanos e animais - é tanto assombrosa quanto libertadora: assombrosa porque estamos cada vez mais reconhecendo nosso impacto atual no mundo (muito dele negativo), nossas responsabilidades com relação aos outros e a quantidade de tarefas que temos à frente; libertadora porque estamos vendo cada vez mais onde e como podemos desfazer as relações negativas e impactar de maneira positiva. Cada decisão e ação tem múltiplos efeitos e as escolhas éticas devem ser feitas e as estruturas organizacionais devem ser construídas a fim de maximizar o potencial bom e minimizar o potencial prejudicial. O compromisso individual ou coletivo com a genuína mudança social moderna através da escolha ética é o carimbo para uma cultura desenvolvida. 

Manter-se a consciência quanto ao panorama como um todo e poder focar em elementos específicos ou mover-se fluentemente entre os dois é uma habilidade valiosa. A ciência reducionista considera este aspecto como enganador, preferindo negar o todo para o privilégio das partes. A negação da conexão (assim como o impacto negativo da utilização animal prejudicial) e até mesmo a negação da realidade dos problemas éticos (onde a questão da utilização animal prejudicial é um dos temas) tornam-se lugar comum.

Em contraste, cursos bem elaborados rendem muitos elementos provenientes de fontes diferentes para a criação de um "todo" efetivo; o processo de elaboração requer consciência tanto do detalhe quanto do quadro como um todo. A sensibilidade dirigida à aquisição de habilidades efetivas, as combinações elaboradas de alternativas que podem de maneira mais efetiva apoiar a referida aquisição e a conscientização quanto aos múltiplos benefícios das alternativas refletem uma visão ecológica mundial.

A criação de estruturas genuinamente sustentáveis requer a mesma conscientização; a construção das articulações corretas ou das relações entre os elementos de um sistema podem permitir que as necessidades desse sistema sejam satisfeitas, principalmente a partir de dentro dele mesmo. Por exemplo, as necessidades relacionadas à anatomia veterinária e ao treinamento cirúrgico (através da utilização ética de cadáveres) e de recursos existentes (animais que foram submetidos a eutanásia em hospitais universitários ou em clínicas independentes locais) podem ser articulados através dos programas de doação de corpos. A qualidade da conexão pode ser futuramente melhorada e a sustentabilidade aumentada, com, por exemplo, um conselho de bons clientes de um lado e as estratégias efetivas de conservação de outro. Ter que levantar dinheiro através de fontes externas a fim de comprar animais saudáveis para o cumprimento das necessidades não é algo sustentável; de fato, em países onde os financiamentos centralizados entraram em colapso, há carência de animais para a educação. As alternativas combinadas com a consciência ecológica podem, então, fornecer soluções completamente éticas as quais contribuem com o desenvolvimento sustentável.

A ética e o poder 

A história do movimento humano ilustra a interconexão entre os movimentos sociais e também entre as diferentes formas de preconceito e exploração. Alguns reformadores sociais na Inglaterra do final do século lutaram pelos direitos da crianças em paralelo com a proteção animal e algumas feministas de vanguarda também promoveram o vegetarianismo ou a reforma do bem-estar animal. Antes disso, as articulações entre a liberdade animal e as campanhas anti-escravagistas estavam sendo feitas. Muitos grupos de educação humanitária atualmente trabalhando com crianças reconhecem que o cultivo de qualidades humanitárias e o encorajamento as habilidades do pensamento crítico e da responsabilidade pessoal têm múltiplos benefícios que causam impacto, individualmente, nas pessoas, nos animais e na mais ampla sociedade. Dentro do ensino adulto das ciências da vida, a educação humanitária lida com os mesmos temas porém em maior profundidade e também aborda como adquirir conhecimento e habilidades específicas de maneiras humanitárias, tanto para com os animais quanto para com os estudantes. 

A utilização prejudicial de animais na educação é, na verdade, uma forma de exploração. A comparação da exploração de animais pela sociedade com a violência doméstica, o sexismo, o racismo e o imperialismo demonstra que todos esses exemplos utilizam justificativas similares, dinâmicas, estratégias e ferramentas tendo a dominação como elemento comum. Essas táticas se apóiam mutuamente e desafiam quem quiser modificá-las. Assim, a substituição da utilização animal prejudicial na educação é uma parte do multifacetado desafio à utilização não-ética do exercício do poder sobre o outro. E quando as alianças entre campanhas são exploradas, o potencial de varredura de mudanças é ainda maior. 

Desistir do 'privilégio' da utilização animal em experimentos não significa que os professores ou os estudantes sairão perdendo. Como desistência quanto a qualquer privilégio ou prática de exploração, ela libera tanto o sujeito da exploração quanto o explorador. Através da dissolvição da relação hierárquica de poder, o indivíduo retorna para uma variada comunidade de iguais e reconquista alguma humanidade. Tal mudança permite a muitos novas oportunidades, incluindo o desenvolvimento de relações positivas entre espécies e a prática de um multiculturalismo verdadeiro que se estende a todas as formas de vida.


Acessibilidade e liberdades civis 

A acessibilidade à educação superior é um tema que ajuda a definir a inclusão social e que impacta nos temas de direitos civis. Cada vez mais, os governos estão declarando que dão apoio à acessibilidade e as políticas têm sido utilizadas para esse fim. O comprometimento genuíno quanto a essa questão está, de qualquer forma, faltando e as barreiras ao acesso total não foram removidas. A utilização prejudicial de animais limita a acessibilidade e o desenvolvimento da diversidade dentro da educação através da discriminação contra a mulher, contra povos de religiões e crenças espirituais específicas e também de alguns homens e mulheres com pensamento crítico, eticamente comprometidos e sensíveis. 

As mulheres já estão sub-representadas dentro da educação de ciências e das ciências da vida. As razões para isso são múltiplas e complexas, mas a auto percepção relativa a habilidade, os valores masculinos estereotipados dominando a ciência e a discriminação dentro do ambiente de trabalho representam importantes papéis. A utilização prejudicial de animais também contribui com a exclusão das mulheres na educação e, portanto, das profissões: relatórios e evidências provenientes dos Estados Unidos sugerem que a objeção quanto a utilização prejudicial de animais é mais provável entre as mulheres jovens do que entre os homens jovens2, embora esses dados possam variar de acordo com o país e de acordo com a situações específicas. Muitas mulheres e alguns homens têm, certamente, evitado fazer cursos de ciências da vida por não estarem preparados para comprometer seus princípios éticos ou prejudicar suas sensibilidades através do envolvimento em experimentos animais. 

Esses são temas relacionados a acessibilidade porque os estudantes não serão capazes de se beneficiar da educação científica ou da carreira; além disso suas habilidades e sensibilidade estarão perdidas para a ciência. Para aqueles que já estão nos cursos de ciências da vida, a penalidade acadêmica ou psicológica

freqüentemente associada à objeção podem obstruir oportunidades para o progresso, ou ocasionar mudanças de carreira para os estudantes caso não sejam fornecidas alternativas.

Os estudantes que têm alguma crença religiosa podem ser discriminados se a utilização prejudicial de animais for a norma na educação. A compaixão e a reverência à vida são princípios fundamentais do Jainismo, por exemplo. Os jainistas foram advertidos por um líder espiritual no século XX de que eles não deveriam estudar medicina devido a dissecação e vivisseção requerida naquela época em alguns países (3). A maioria das outras religiões também possui fortes elementos éticos dentro de seus ensinamentos, embora o grau de aplicação de tais elementos no mundo freqüentemente deixa muito a desejar. A acessibilidade e o multiculturalismo estão limitados pela discriminação contra aqueles que, de fato, reverenciam ou respeitam a vida por crença espiritual ou por outras práticas significativas.

A utilização de software multimídia e do treinamento baseado na web podem aumentar a acessibilidade para deficientes, portadores de necessidades especiais e estudantes de ensino a distância, pois muitas alternativas são bem adaptáveis a essa mídia. Cursos elaborados com uma variedade de ferramentas e abordagens de qualidade, especialmente escolhidos para atender os objetivos de ensino, podem também fazer da educação das ciências da vida algo mais adaptável à diversidade de estilos de aprendizado solicitados pelos estudantes. E com o oferecimento de treinamento ético de alta qualidade, o ensino se torna, também, mais atraente.

Muitos estudantes não podem escolher se querem ou não participar de utilização animal prejudicial em seus trabalhos práticos. Apesar do crescente número de políticas de escolha dos estudantes que estão sendo instaladas a nível estadual ou dentro de algumas instituições, em outras os estudantes não têm quaisquer direitos formais de objetar ou de lhe serem fornecidas alternativas. Os estudantes que descordam da utilização prejudicial de animais podem sentir-se discriminados e com sua liberdade de consciência violada. Enquanto alguns poucos podem se retirar ou se verem forçados a mudar de disciplina, outros são encorajados ou coagidos a realizar dissecações e experimentação animal sob a ameaça ou realidade de uma punição psicológica e acadêmica.

Todos os estudantes têm o direito moral de optar sobre a utilização prejudicial de animais e de ter acesso as alternativas. As diretrizes e convenções internacionais, leis nacionais, emendas constitucionais e regulamentações locais ou estaduais geralmente favorecem a acessibilidade e a antidiscriminação, pelo menos em teoria. Onde elas não são concedidas, a discriminação é uma violação das liberdades civis dos estudantes. Baseados em seus direitos os estudantes ou ativistas da liberdade civil podem decidir processar uma instituição (ou um departamento de educação do governo) com base na violação de liberdade de consciência, discriminação religiosa e limitação à acessibilidade, especialmente com relação ao acesso ao treinamento educacional ético e de alta qualidade. Alguns casos já foram levados à corte, particularmente nos Estados Unidos e na Alemanha, com os julgamentos tendendo para a proteção das liberdades civis.


Impacto prático

Impacto ambiental


A utilização de alternativas remove a maior parte do impacto ambiental negativo associado aos cursos práticos e faz a utilização prudente dos recursos existentes. Sua 'pegada ecológica' é significativamente menor do que a da utilização animal prejudicial. A captura, criação, abrigo, matança, preservação e transporte de milhões de animais, todos os anos, tem um impacto ambiental significativo. Esse impacto envolve poluição e rompimento de ecossistemas locais, ameaça espécies em risco e a utilização de energia e de outros recursos para o transporte, abrigo e outros aspectos da utilização animal. 

A retirada de animais da floresta tem contribuído com o declínio de algumas espécies como por exemplo a rã leopardo e das rãs touro nos Estados Unidos. O tubarão cação espinho é amplamente utilizado na educação superior, apesar de ser uma espécie ameaçada. As tartarugas também são tiradas de seus habitats, mortas e utilizadas para a educação. A remoção de elementos de ecossistemas saudáveis e sustentáveis pode rompê-los, as vezes de maneira permanente: os sapos, em particular, podem ter um papel importante na estabilidade de um ecossistema, por serem ao mesmo tempo predadores e presas. Quando os sapos dos países tropicais são utilizados, a população de insetos no local da captura provavelmente aumentará de maneira significativa, representando um aumento quanto ao risco de malária nos seres humanos.

Químicas tóxicas, como o formaldeído, são freqüentemente utilizadas para preparação dos milhões de animais assassinados a cada ano, particularmente para dissecação; elas causam um impacto de dano ambiental por serem poluentes e esses incidentes de poluição envolvendo o despejo de lixo químico tem sido documentada.

A produção e utilização de alternativas, juntamente com a maioria da atividade humanística (mas não toda) também tem um certo impacto ambiental negativo. A produção de computadores, por exemplo, envolve a mineração e refino de óleo para produção de plástico e para o transporte e de minerais raros para a confecção das placas de circuitos. Essa mineração tem significativo impacto ambiental local e global e freqüentemente envolve a violação dos direitos humanos daqueles que moram próximos aos recursos subterrâneos. A pressão sobre as corporações e governos a fim de que parem com os abusos aos direitos civis está aumentando e, de qualquer forma, o impacto ambiental da mineração e produção poderia ser facilmente limitado. A constante atualização dos computadores também cria uma imensa quantidade de resíduos, mas a reutilização e a reciclagem poderiam tornar-se práticas comuns se as pessoas e as corporações se responsabilizassem pelo seu lixo.

A habilidade de reutilização durante muitos anos de produtos alternativos como os softwares de computador, vídeos e modelos, por sua vez, indicam que não há nova produção, limitando o impacto das alternativas somente ao trabalho de produção inicial. O trabalho clínico com pacientes animais utiliza recursos existentes, como o que acontece com a utilização ética de cadáveres. Na verdade, esse último utiliza cadáveres que de outra forma seriam incinerados, o que, em si, já seria um processo de poluição.

Benefícios econômicos

Estudos realizados pela Sociedade Humanística dos Estados Unidos (HSUS) (5) e do Comitê Médico para a Medicina Responsável (PCRM) compararam os custos econômicos da dissecação com os de utilização de alternativas e descobriram que há uma diferença considerável a favor das alternativas. A compra de softwares, vídeos e modelos é, na maioria dos casos, mais barata do que a compra de animais para a realização de cursos práticos, com duração de somente um ano, e como as alternativas são normalmente reutilizadas no ano seguinte são consideradas invariavelmente mais econômicas a longo prazo do que a compra e abrigo anual dos animais. Para cursos práticos que utilizam gatos, fetos de porcos e rãs touro, avaliados por um período de três anos, o HSUS descobriu que as alternativas economizam entre $2,700 e $9,600, fornecendo uma seleção variada de mídias para um ensino mais efetivo.

Se as muitas centenas de imagens fotográficas de alta qualidade de CD-ROMs fossem impressas em um livro, o custo seria proibitivo. Similarmente, o custo de equipamentos em um laboratório virtual é limitado ao custo dos softwares em si, diferentemente de um laboratório real. Os programas de doação de corpos incorrem em custos de armazenagem e, às vezes, de transporte e despesas de prevenção, mas o recurso inicial de cadáveres animais é gratuito. O trabalho clínico realizado com pacientes animais utiliza recursos existentes, embora a introdução do envolvimento de novos estudantes necessite, de fato, de uma certa entrada financeira. As alternativas por computador podem necessitar de um investimento inicial alto se houver pouco hardware disponível no departamento, mas o gasto é recuperado com o passar do tempo; além disso, o aumento na reutilização de computadores e de reciclagem ao redor do mundo permite opções mais baratas de compra. Além do fator econômico, a parte educacional e os demais benefícios do investimento em alternativas modernas são freqüentemente aparentes de forma imediata.

O desenvolvimento de alternativas, tais como os softwares multimídia, podem dar apoio a novas atividades econômicas localizadas, utilizando os recursos humanos e experiências dos professores e de outros funcionários habilitados das próprias instituições. Poucos recursos externos são necessários, o que significa que a auto-sustentação para a instituição - e para o país como um todo - é suportável. Para aqueles países onde a transferência e perda de habilidades e recursos para outros países é típica, tal localização pode fornecer benefícios econômicos e sociais significativos. Alguma receita também pode ser gerada se os produtos forem vendidos.

A captura e embarque de animais provenientes de países de moeda fraca para outros de moeda forte - a venda de sapos indianos e gatos mexicanos para os Estados Unidos, por exemplo - somente perpetua um sistema econômico injusto, onde a vida e os recursos daqueles países são transformados em comodities e vendidos a preços que nunca poderão refletir seu valor real. A maioria dos recursos, incluindo os financeiros, geralmente viajam por uma via de mão única. O abastecimento local das necessidades, sempre que possível, liberta tanto os países fonte quanto os recipientes desta relação econômica injusta e pode permitir a regeneração da economia local em ambas as áreas.

Condições de trabalho

Para aqueles que trabalham em companhias de abastecimento biológico e também para os estudantes, a dissecação de animais mortos e conservados, a exposição ao formaldeído e a outras toxinas correspondem a uma série de assuntos relacionados à saúde e segurança. Apesar das considerações quanto a utilização de roupas de proteção, poucos estudantes estão usualmente protegidos. O odor pungente pode ser a principal lembrança dos estudantes quanto aos experimentos de dissecação realizados para fins de aprendizado, mais do que qualquer outra lição de anatomia.

O trabalho em locais onde a matança animal é rotina pode somente endurecer e prejudicar o espírito dos funcionários. Assim como nos abatedouros e empresas de processamento de carnes, um número desproporcional de funcionários de companhias de abastecimento biológico pode ser constituído por mulheres ou outras pessoas de baixa renda e provenientes de minorias. O 'trabalho sujo' é feito por grupos tradicionalmente explorados, que geralmente recebem bem pouco pelo serviço.

Não é necessário dizer que a produção de alternativas pode, em geral, oferecer condições de trabalho muito melhores, ainda que não seja sem impacto, nem sem perspectiva de melhora.

A reputação pessoal e institucional

Muitos desenvolvedores de alternativas descobriram que suas reputações pessoais e profissionais aprimoram-se devido a essas atividades. Assim como foram adotadas por outras instituições, alguns softwares de alta qualidade têm sido premiados dentro dos campos de elaboração multimídia ou inovação no ensino. Novas abordagens também podem atrair estudantes para instituições específicas. Muitos artigos acadêmicos que lidam com novas alternativas e suas implementações também têm sido publicados. O estudo sobre as alternativas e seus potenciais está começando a ser autorizado como parte de alguns cursos de 'desenvolvimento profissional' e, em número crescente de países, treinamentos alternativos também englobam educação profissional obrigatória para campos selecionados.

Ainda mais importante tem sido a melhoria da reputação dos professores entre os estudantes e colegas de trabalho dentro de uma instituição quando métodos de ensino alternativos são empregados e quando o conflito ético é resolvido. A melhoria resultante nas relações interpessoais e o ensino sobre o meio ambiente podem beneficiar todas as partes envolvidas. A distribuição gratuita de alternativas, tais como programas gratuitos de cd-roms, também gera boa vontade recíproca e oportunidades para colaboração.

Articulações positivas entre a academia e o público em geral podem ser feitas através da prática de abordagens alternativas. O estabelecimento do programa de doação de corpos para a utilização ética dos cadáveres de animais são um exemplo. Membros do público que têm animais de estimação podem doar o corpo do animal morto para estudo de anatomia veterinária e treinamento cirúrgico, conscientes de que eles não estão somente substituindo a utilização animal prejudicial, mas também estão contribuindo para a educação efetiva e ética de futuros veterinários. Os programas de doação de corpos que priorizam a sensibilidade com relação aos guardiões enlutados, que oferecem explicações claras quanto a necessidade de cadáveres e de tecidos dentro da educação e que podem demonstrar utilização responsável das doações, comprovam que os veterinários se importam com os animais, com seus guardiões e com a qualidade dos veterinários que se formam.Além disso, eles também podem ajudar a reconstruir a confiança abalada por casos históricos (e em alguns lugares contemporâneos) de animais de estimação que foram seqüestrados para a utilização em educação e pesquisa e pela retenção ocasional de órgãos ou tecidos humanos sem consentimento formal.

Tanto a reputação pessoal quanto institucional pode ser seriamente prejudicada pela publicidade negativa da mídia, ou por desafios legais a cerca da utilização animal prejudicial ou da violação dos direitos civis dos estudantes. Diversas instituições nos Estados Unidos têm sido forçadas a fornecer alternativas para os estudantes e de respeitar os direitos constitucionais de liberdade e consciência depois da publicação de manchetes de artigos de jornais ou de julgamentos legais favoráveis aos estudantes. A resolução de problemas dessa natureza antes que tais fatos ocorram é claramente preferível, especialmente quando soluções do tipo vencer-vencer podem ser geralmente encontradas. 

Requisitos Legislativos

Partindo de um ponto de vista ético, a natureza coerciva da legislação sugere que a responsabilidade pessoal e coletiva para a mudança é preferível do que aquela imposta de forma ditatorial. Assumindo a responsabilidade, na raiz do problema, quanto à transformação curricular é portanto não somente uma expressão de liberdade acadêmica, mas também de assertividade democrática. De qualquer forma, até que tal responsabilidade seja amplamente assumida, a legislação será uma ferramenta necessária para colocar limite no prejuízo e na discriminação e para auxiliar no estabelecimento de alternativas como sendo a norma.

Dentro da Europa, a Convenção européia, composta por 123 estados, garante que em seus cursos universitários básicos os estudantes não deverão utilizar animais de forma alguma. A Diretriz Européia 86/609 estabelece que alternativas devem ser utilizadas sempre que possível, embora a carta constitucional exclua a educação. Muitas leis nacionais são similares quanto ao estabelecimento de que as alternativas devam ser utilizadas onde existam e alguns países também possuem leis de âmbito nacional, estadual ou regional que banem a utilização animal em alguns níveis da educação. Assim como as leis e convenções contrárias a discriminação, o direito de objeção conscienciosa e de liberdade de religião e consciência são considerados sagrados em algumas constituições e leis nacionais. Um número crescente de instituições está incorporando as políticas de escolha por parte dos estudantes em suas regulamentações e estão fornecendo alternativas de qualidade as objeções conscienciosas dos estudantes. Outras estão substituindo totalmente a utilização animal prejudicial. 

O Centro Europeu para Validação de Métodos Alternativos (The European Centre for the Validation of Alternative Methods - ECVAM), que é parte da Comissão Européia, vem também promovendo as alternativas de substituição para a educação das ciências da vida em seminários para cientistas e professores de países da Europa Central e do leste europeu. A familiaridade com os métodos alternativos e a conformidade para com a relevante legislação sobre as alternativas são condições necessárias para o acesso à União Européia. Há ainda uma necessidade, entretanto, para os países que já são membros da CE para que melhorem suas próprias práticas científicas objetivando a substituição futura em todos os níveis.

De qualquer forma, existem problemas que estão precisando de atenção imediata, incluindo a atualização da legislação, a fim de refletir o pensamento ético e da ciência de hoje, a garantia da defesa dos animais, dos estudantes e da boa ciência em vez das práticas estabelecidas e ainda quanto a assegurar a implementação apropriada das leis. A manutenção de melhores estatísticas, incluindo a morte de animais antes de sua utilização em um procedimento, também poderia fornecer a informação básica necessária para a avaliação exata do grau de utilização prejudicial na educação e além dela.

Notas e referências

1. Gove, M. The motives of a murder addict. The Times, 20 July 2002.

2. Stuttaford, T. Psychopath with no guilt and no regret. The Times, 20 July 2002.

3. Veja, por exemplo, Keeping Girls and Women in the Sciences. Ethical Science and Education Coalition (ESEC) website. www.neavs.org/esec

4. Dr. Natubhai Shah. Personal comm. 10 May 2002

5. Dissection vs. Alternatives: A Cost Comparison. Humane Society of the United States (HSUS) (2002). www.hsus.org/ace/15305