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Utilização Ética de cadáveres de animais e de tecido
Para muitos estudantes de zoologia e para todos os futuros veterinários, o estudo de anatomia não seria completo sem que existisse um certo grau de experiência de tátil de animais e tecidos animais. De maneira similar as cirurgias, o treinamento poderia não ser suficiente se a experiência real com tecidos verdadeiros e as práticas de habilidades associadas estivessem ausentes. Alternativas éticas a matança e ferimento de animais certamente existem para tais requisitos, especialmente através da utilização de recurso ético de cadáveres de animais e tecidos.
O termo 'recurso ético', nesse contexto, refere-se aos cadáveres de animais e tecidos obtidos de animais que morreram de causas naturais ou por acidentes, ou ainda que sofreram eutanásia devido a uma doença natural terminal ou por uma série de ferimentos sem possibilidade de recuperação. Os animais que tenham sido machucados ou mortos para o fornecimento de cadáveres ou de tecido não são considerados 'recurso ético', nem tampouco aqueles que são obtidos de locais onde a matança e ferimento de animais é rotineira. Além disso, um mercado de compra de cadáveres de animais onde a aquisição possa ser considerada ética não deve ser criado ou apoiado.
A utilização do recurso ético de cadáveres não se trata de uma abordagem nova. Dentro da medicina humana é uma prática padrão. A aquisição de cadáveres humanos que são devidamente doados talvez não seja sempre suficiente, mas apesar disso os programas de doação dos corpos em testamento e outros mecanismos atendem algumas das necessidades dos estudantes de medicina para o estudo de anatomia. Os recursos éticos de cadáveres de animais não devem ser diferentes e é potencialmente muito mais fácil do que a de cadáveres humanos.
Substituição
As dissecações dos cadáveres obtidos através de recursos éticos podem substituir a dissecação de animais mortos em práticas anatômicas, para aqueles estudantes que necessitam de habilidades de dissecação em suas carreiras. Tais dissecações podem ser complementadas através de recursos multimídia e/ou de alternativas ou ainda os estudantes podem obter o progresso necessário através da aquisição de habilidades utilizando modelos, manequins e simuladores no lugar de cadáveres. Tanto para os estudantes quanto para os profissionais (por exemplo, onde os cirurgiões precisam treinar novos procedimentos), os cadáveres também são excelentes ferramentas para prática de habilidades clínicas e treinamento cirúrgico. Sendo um recurso valioso, eles não devem ser utilizados para treinamento de habilidades práticas básicas, mas sim para o próximo estágio do treinamento onde eles podem ser uma excelente ferramenta para a aquisição e apreciação do 'toque'do tecido real e para as técnicas de aprendizado como exposição, anatomia cirúrgica e fechamento. Órgãos e tecidos provenientes de recursos éticos também podem ser utilizados para o treinamento de técnicas cirúrgicas como anastomose intestinal e os órgãos, ou os cadáveres como um todo, podem ser aspergidos em simuladores para o fornecimento de oportunidades para prática de diversos procedimentos e utilização de ferramentas cirúrgicas específicas.
Os cadáveres e tecidos provenientes de recursos éticos podem, portanto, ser utilizados para o desenvolvimento e aperfeiçoamento de habilidades práticas dos estudantes a um nível suficiente de preparação enquanto aprendizes para a atuação em pacientes vivos. Estudos publicados têm demonstrado que estudantes utilizando cadáveres para treinamento cirúrgico são, no mínimo, tão competentes quanto aqueles que utilizam animais vivos e que os estudantes que utilizaram cadáveres provenientes de recursos éticos são também muito positivos quanto as experiências do aprendizado (6).
Tecido animal fresco proveniente de recursos éticos também podem ser utilizados dentro de algumas práticas bioquímicas, farmacológicas e fisiológicas nas situações onde os recursos de multimídia não são considerados como a ferramenta mais apropriada. As sobras de tecidos de operações benéficas realizadas em animais podem ser apropriadas às práticas nessas disciplinas. Quando os ditames convencionam que órgãos específicos de algumas espécies particulares podem ser utilizados em experimentos e preparações, então o mesmo pode ocorrer com o tecido para transformar o experimento em uma alternativa. Se a obtenção de quantidade suficiente de íleo do porquinho da guiné ou do jejuno do coelho é considera impossível, então uma alternativa que utilize tecido real ainda pode ser possível: com uma adaptação mínima o experimento poderia ser realizado utilizando o íleo e o jejuno proveniente de recursos éticos de outras espécies animais de pequeno porte.
Programa de Doação de Corpos
Dentre os que mais utilizam os recursos de cadáveres de animais para práticas estão os hospitais de ensino veterinário e clínicas independentes de veterinária. Os cadáveres para uso ético podem ser obtidos através de 'programas de doação de corpos', onde os clientes das clínicas autorizam a doação dos corpos de seus animais de estimação para serem utilizados para o ensino, após a morte natural ou por eutanásia do animal. Também os programas conhecidos por 'doação em testamento', 'doação do cliente' e 'memorial educacional', têm-se mostrado funcionais e sustentáveis em algumas universidades para o suprimento de cadáveres para as necessidades de treinamento anatômico e cirúrgico e deveriam ser explorados por todos os departamentos que precisam genuinamente de cadáveres para suas atividades de ensino (veja Kumar, nesse volume).
Os programas de doação de corpos fornecem um excelente exemplo das soluções de multi-benefício que o processo de implementação de alternativas pode oferecer. Com os diversos cadáveres animais que são dispostos ou cremados, tais programas utilizam-se desses recursos existentes negligenciados, economizando com isso energia, dinheiro e, o mais importante, a vida de animais através da substituição direta da matança animal. Devido as fichas médicas dos animais que são disponibilizados, existe a garantia de que os cadáveres estão livres de doenças possibilitando a observação de patologias assim como de uma anatomia normal. Os estudantes ficarão contentes pelo fato de que não será necessário matar, a necessidade da objeção consciente será inerente e o ambiente de aprendizado será, conseqüentemente, melhor. A profissão pode demonstrar compaixão e empatia e construir credibilidade junto ao público através da demonstração de respeito pela relação homem-animal e comprometimento com uma educação ética. Á família do animal de estimação é dada uma oportunidade de aliviar alguns de seus pesares sentindo-se capaz de ajudar na educação de futuros veterinários e assim ajudar a outros animais. E o público pode ser educado sobre a necessidade de cadáveres e tecidos para ensino e pesquisa - enquanto a profissão puder demonstrar que irá respeitar e utilizar eticamente os corpos de ex-animais de estimação que são confiados a ela.
Esse é um desafio positivo para as universidades fazerem as conexões corretas até mesmo entre departamentos, ou com clínicas independentes, e construírem uma infra-estrutura sustentável, a fim de utilizar efetivamente a pesquisa com cadáveres. No entanto, estruturas organizacionais provisionais, talvez com o envolvimento de estudantes, estão merecendo um ajuste a fim de iniciarem o processo de utilização de recursos éticos; a avaliação e refinamento do programa pode acontecer daqui há algum tempo. O aumento no número de programas de doação de corpos - por exemplo nos Estados Unidos - está comprovando o bom senso de fazer bom uso de uma fonte desperdiçada.
Bancos de tecidos animais
Bancos centralizados de tecidos animais provenientes de fontes éticas poderiam também ser montados dentro de regiões rurais para fornecimento de uma maior variedade de tecidos animais (e de cadáveres) e para dar suporte à utilização mais confiável e consistente de recursos éticos para a educação. A coleta e quase imediata utilização de tecido fresco também seria possível se a aquisição e os processos de distribuição fossem de alto padrão. O sangue dos animais de estimação voluntários e saudáveis poderia ser armazenado para transfusão de sangue e para outros tantos benefícios terapêuticos vitais, poderia também ser utilizado dentro da área de educação para a substituição de fontes de sangue provenientes de animais de laboratório. O investimento e a publicidade de bancos de sangue animal existentes, assim como o apoio para novos projetos, é necessário para auxiliar o fornecimento de sangue suficiente, tanto para fins clínicos quanto de educação. Os bancos de sangue animal poderiam estar proximamente articulados com as novas redes de comunicação dos bancos de tecido animal.
As lições aprendidas através do estabelecimento de bancos de tecidos humanos, como as da nova rede de comunicação européia, podem ser aplicadas aos bancos de tecidos animais conforme eles fossem se estabelecendo. O banco de tecidos humanos permite a aquisição ética, segura e controlada de resíduo cirúrgico humano, material post-mortem e tecido não-transplantado para a pesquisa bioquímica e verificação. Embora a doação de tecido humano e sua utilização em substituição ao tecido de animal sacrificado dentro da área de pesquisa e verificação ainda requeira uma ampla adoção, a utilização do tecido humano excedente é praticável para a educação médica veterinária e também para a humana.
Os próprios estudantes poderiam, também, consentir na doação de seu próprio sangue para utilização em trabalho prático, para não desprover os serviços de transfusão de recursos. A utilização de sangue humano ou animal deve estar de acordo, é claro, com as orientações éticas, de saúde e de segurança. Em muitos países, o transporte de cadáveres e de tecidos tem que ser controlado pela legislação de saúde e segurança. A conscientização quanto as regulamentações é importante e os desafios as restrições de práticas inapropriadas deve ser exigida.
Outras fontes de suprimento
Os departamentos universitários de patologia recebem, constantemente, cadáveres animais. Animais grandes ou pequenos são submetidos à autópsia e utilizados para ensino de patologia sendo que a população sabe que deve trazer animais selvagens mortos quando for necessário. Com o aumento da cooperação entre os departamentos de patologia, anatomia e cirurgia, cadáveres de animais doentes poderiam ser utilizados mais amplamente para princípios educacionais. Por exemplo, partes do animal como os membro, que não são utilizados para o ensino de patologia, poderiam ser utilizados dentro da anatomia, cirurgia e treinamento de algumas habilidades clínicas.
Outras fontes potenciais de cadáveres e tecidos incluem animais e peixes mortos devido a incidentes de poluição (onde não haja perigo tóxico), e de animais 'atropelados nas estradas', cujos cadáveres sejam utilizáveis. Os estudantes e os grupos de proteção natural que ajudam na migração anual dos sapos em alguns países poderão, dessa forma, obter algum tipo de material.
Fronteiras e Compromissos
Os dois exemplos apresentados acima ilustram as dificuldades éticas que cercam algumas fontes de cadáveres; ambos estão na fronteira do que se considera 'ético', porque as mortes dos animais não ocorreriam se não fosse devido ao desenvolvimento econômico inapropriado, a negligência criminal e uma sociedade antropocêntrica que pouco respeita os limites e os direitos de outras espécies. Em raras ocasiões, onde espécies incomuns são necessárias para estudo, a utilização ética de recursos animais pode não ser fácil de conseguir. Fontes não ideais, tais como criadouros animais, instalações de pesquisa, alguns abrigos de animais, fazendas, matadouros ou eventos esportivos - por exemplo, onde a utilização perigosa, matança ou comercialização de animais é típica - podem para alguns estudantes ser consideradas aceitáveis, mas somente quando os cadáveres ou tecidos fossem genuinamente destinado à disposição e quando a fonte não contribuísse em nada com a continuidade da prática prejudicial. Os órgãos provenientes de matadouros podem ser considerados aceitáveis, mas não o animal todo; devido a uma doença terminal, um cão de um abrigo de animais que foi submetido à eutanásia pode ser utilizado, mas não um que tenha sido morto pela 'dificuldade' em se encontrar um novo lar para ele. As fontes de cadáveres e tecidos animais deveriam priorizar os programas de doação de corpos, onde a verdadeira ética é clara, mas as fontes consideradas não-ideais utilizam-nas somente quando é absolutamente necessário. Companhias de abastecimento biológico são, geralmente, fontes de animais saudáveis sacrificados e são sempre consideradas eticamente inaceitáveis.
Preservação e armazenagem
O próximo assunto importante que precisa ser abordado é o que trata da preservação e armazenamento de cadáveres. Certamente alguns cadáveres estarão frescos e poderão ser utilizados imediatamente, ou dentro de poucos dias. A armazenagem fria em laboratórios de anatomia e patologia manterá o cadáver em boas condições e minimizará a autólise. Mas a re-utilização de cadáveres e armazenagem para utilização futura necessitará mais do que de uma sala refrigerada. A garantia do número suficiente de cadáveres necessários para o treinamento pedirá um planejamento cuidadoso e uma armazenagem de longo prazo.
O congelamento dos cadáveres é uma solução. A preparação cuidadosa que antecede ao congelamento, como o esvaziamento do sangue, resfriamento imediato através da remoção do couro ou da pele e o acesso rápido ao freezer podem ajudar a preservação bem-sucedida de tecidos e auxiliar até no descongelamento antes da utilização. Fluídos para embalsamamento, os quais geralmente contêm formalina que é tóxica e poluente, são também freqüentemente utilizados para a preparação de cadáveres.Combinações químicas diferentes podem ser utilizadas para tecidos diferentes e para resultados finais também diferentes, tais como na diversidade quanto a textura e longevidade do tecido.
Há espaço para desenvolvimentos adicionais de técnicas de preservação, entretanto o congelamento a seco, a impregnação por silicone
('siliofilização') e uma gama de técnicas de plastinação estão aumentando seu grau de utilização na preservação de cadáveres, órgãos e pequenos retalhos. Na plastinação, a água e a gordura dentro do cadáver são substituídas por polímeros plásticos os quais são então endurecidos, resultando em espécimes reais com texturas e estruturas que estão muito bem preservadas. Polímeros diferentes, incluindo os de borracha de silicone, resina epóxi e poliéster são escolhidos para a produção de espécimes de flexibilidade e impermeabilidade variáveis e corantes podem ser utilizados para ressaltar estruturas específicas. Os espécimes são mais resistentes as práticas de manuseio do que os provenientes de um laboratório 'molhado' convencional. A
siliofilização e a plastinação também oferecem a vantagem de um ambiente mais seguro e menos tóxico para aqueles que estão envolvidos tanto com o trabalho de preservação ou de utilização dos espécimes dentro da área de ensino.
Trabalho clínico com pacientes animais e voluntários
Espera-se que o treinamento de estudantes de medicina envolverá experiências com pacientes reais e, quanto maior for essa experiência - no nível e tempo adequados - melhor será o treinamento. Partindo das habilidades pessoais e clínicas, até as oportunidades para o aprendizado de anatomia, fisiologia etc, a clínica e o hospital oferecem um excelente ambiente para os estudantes. O aprendizado baseado na solução de problemas utilizando casos clínicos é também reconhecido como uma poderosa abordagem educacional e está sendo, cada vez mais, aplicado pelo mundo. Ambos estão substituindo a experimentação animal nos países onde estes ainda são utilizados para a educação médica humana.
Treinamento realístico
Estudantes de veterinária podem obter habilidades clínicas efetivas e experiência cirúrgica através de trabalho benéfico ou neutro com pacientes animais e 'voluntários' animais. Para alguns estudantes ao redor do mundo, esta já é a norma, com a tradição de um trabalho clínico médico, em vez de ter a vivisseção como prática padrão (7). Além de substituir a utilização de animais assassinados, práticas estressantes e invasivas ou utilizar animais terminais, essa abordagem alternativa encoraja o respeito e a consideração para com os animais e pode permitir aos estudantes estarem conscientes, ou ativamente envolvidos, no processo de cuidado do animal como um todo, desde o diagnóstico até os cuidados pós-operatórios e de recuperação. Outras habilidades que são essenciais para as profissões, tais como a experimentar e lidar com o ambiente clínico e suas demandas, a apreciação quanto a diversidade de pacientes e de situações clínicas, as habilidades de comunicação com os colegas de trabalho e com os guardiões de animais também podem ser obtidas utilizando-se essas alternativas. Como tal, a clínica pode fornecer um treinamento altamente relevante e realístico e possibilitar a verdadeira aprendizagem. O uso de animais 'clínicos', se mantido e utilizado repetidamente para procedimentos de treinamento e também, obviamente, para a utilização de experimentos e cirurgias terminais, não possibilita nada disso e ainda trabalha contra a ética veterinária de cuidado e tratamento animal.
Aquisição de habilidades
Os animais 'voluntários' são aqueles animais de estimação dos próprios estudantes que são encorajados a participar de treinamentos de habilidades não-prejudiciais e não-invasivas. Habilidades de toque, exames físicos, amostragem de sangue e bandagem são exemplos de trabalho clínico apropriado para ser realizado com animais voluntários. Recompensa em vez de punição e o direito do animal de parar com sua participação no momento em que se sentir com medo ou desconfortável é evidenciado e pode propiciar um ambiente amplamente ético e respeitoso.
Outros treinamentos de habilidades clínicas que podem envolver procedimentos invasivos são justificados quando realizados como sendo parte do trabalho clínico benéfico em pacientes animais. Danos causados ao paciente animal durante um procedimento clínico e/ou tratamento somente é aceitável quando for absolutamente necessário para a cura e quando causar o mínimo possível de prejuízo ao animal. O envolvimento por parte dos estudantes, em todos os trabalhos clínicos, exige que eles tenham o nível de domínio apropriado das habilidades. Alternativas não-animais como modelos, manequins e simuladores podem ajudar os estudantes a completarem este domínio dentro da arena das habilidades clínicas e a simulação por computador pode fornecer experiência em gestão de crises, tratamento intensivo e outros vários procedimentos. A segurança e bem-estar de um paciente animal não devem nunca ser colocadas em perigo pelos estudantes e a supervisão constante por instrutores qualificados é necessária durante qualquer procedimento de aprendizado que envolve vidas animais.
A gestão de ferimentos, intubação, cirurgias simples ou mais complexas podem também ser aprendidas de maneira melhor e mais ética quando realizadas em clínicas e com pacientes reais. Há muitas oportunidades de desenvolver habilidades cirúrgicas que não somente evitam o prejuízo animal, mas que contribuem para o bem-estar deles. Hospitais de ensino veterinário e clínicas independentes de veterinária têm um fluxo constante de pacientes; observação de procedimentos, cirurgias assistidas por estudantes e, finalmente, a atuação dos estudantes em procedimentos básicos que podem contribuir, não somente para a sensação de recompensa e efetivação do aprendizado, mas também com a substituição da utilização prejudicial de animais, além do apoio aos veterinários.
Algumas dessas alternativas de rastreamento de trabalho clínico, entretanto, envolverão também trabalho extra para os veterinários, particularmente, durante o estabelecimento do programa. Mudanças curriculares e organizacionais dentro das universidades podem ser solicitadas a fim de aumentar a ênfase no trabalho clínico com pacientes animais. Isto, de qualquer forma, já está acontecendo: de acordo com mais da metade dos veterinários americanos, os hospitais de ensino veterinário são 'clínicas de prática comunitária', estabelecidas para fornecer estudantes com experiência clínica de primeiros socorros dentro da comunidade. Quando houvesse limitações de tempo e pessoal, então articulações de desenvolvimento com práticas independentes poderiam ser priorizadas. Muitos estudantes já trabalham como assistentes em clínicas durante seus estudos e nos intervalos, a fim de obterem uma carga de experiência e prática valiosa, que poderia ser bem conscientizada de maneira a que todos os estudantes pudessem se beneficiar.
Esterilização de animais em abrigos
Há outras oportunidades significativas de trabalho com animais que podem ser exploradas a fim de substituir experimentos animais e de fornecer estudantes com mais experiência prática. Em particular, os animais em abrigos (depósitos) podem se beneficiar através de cuidados veterinários básicos supervisionados e através da esterilização realizada pelos estudantes. Assim como ocorre com a bem-sucedida utilização ética de cadáveres, o desafio aqui é construir e manter a infra-estrutura necessária e assegurar que todas as partes envolvidas sejam beneficiadas. Os estudantes entram com o trabalho gratuito, mas conscientes de que estarão ganhando uma experiência valiosa.
A castração e esterilização de cães e gatos de estimação ou de rua - duas das mais comuns operações que os veterinários profissionais irão encarar - são procedimentos típicos aos quais os estudantes podem participar em abrigos. Ambos, obviamente, necessitam de competência suficiente por parte do estudante e supervisão inicial. A castração é uma operação razoavelmente simples que pode ser aprendida rapidamente, mas a esterilização precisa de mais prática. Todas as universidades deveriam estar fornecendo mais oportunidades para os estudantes para realização de esterilizações, por exemplo, através de programas de esterilização. Esse 'serviço de aprendizado' é, às vezes, conseguido através da cooperação entre as universidades e os grupos de proteção animal. A adoção de animais esterilizados é mais alta do que a taxa média de adoção animal e a redução no número de esterilizações futuras de animais também seria provável.
Melhorando o potencial
O aprendizado potencial das clínicas, especialmente dentro dos hospitais de ensino, pode ser maximizado através da permissão para que estudantes de diversas disciplinas e níveis diferentes possam observar o trabalho clínico em pacientes. Isso pode ser ao vivo ou gravado, assistido em pequenos grupos ou através da projeção em tela para grupos maiores. Os instrutores podem sugerir um procedimento apropriado ao nível dos estudantes; não somente a cirurgia, mas anatomia, fisiologia, farmacologia e tratamento intensivo também podem ser ilustrados. As gravações podem ser editadas para vídeo ou alternativas de multimídia. O material sobre a clínica, incluindo a urina, fezes e sangue, poderá ser também utilizado no ensino de farmacologia, parasitologia e imunologia, por exemplo. O potencial pode ser, portanto, estendido muito além da clínica em si.
Auto-experimentação do estudante
Para a maioria dos estudantes de ciências, a importância do trabalho prático com corpos vivos não pode ser superenfatizada. A compreensão efetiva de processos fisiológicos e a prática das habilidades clínicas, requerem experiência com corpos vivos. A auto-experimentação do estudante é uma alternativa humana não-invasiva. O envolvimento intenso e a auto-referência podem torná-las memoráveis e também agradáveis - qualidades que são altamente significativas em termos de aprendizado.
A biologia e a medicina humana
O treinamento da auto-experimentação e das habilidades clínicas com os estudantes é utilizado pela maioria dos institutos como parte da prática normal. Amostragem de sangue, medição da pressão sangüínea e cateterização venosa é típica da educação médica. Práticas comuns de auto-experimentação utilizando equipamento laboratorial padrão podem incluir análise do sangue e urina antes e depois de exercícios físicos ou da ingestão de substâncias variadas. O aparato de auto-experimentação mais complexo associado a hardwares e softwares pode permitir a medição das atividades de EEG / ECG e da temperatura da pele em situações de descanso, exercício e atividade mental; da velocidade da condução dos nervos e EMG; das funções pulmonares e para outros tipos de teste (8). Esses dispositivos podem ser considerados uma opção entre as lições pré-programadas para demonstração de princípios fisiológicos fundamentais e para a geração de templates das aulas locais. Há também a oportunidade de coleta de dados (e subseqüente análise) de medição fisiológica durante circunstâncias mais extremas, tais como em recintos de feira e exposições, utilizando tecnologia de telemetria flexível (9).
É claro que as práticas de auto-experimentação devem estar de acordo com os mais altos padrões éticos, incluindo a necessidade de consentimento formal e do direito de retroceder; a supervisão de um professor qualificado; precaução quanto a riscos, danos e embaraços; e o anonimato quanto aos dados, sempre que for apropriado. Os comitês locais de revisão ética poderiam, freqüentemente, avaliar experimentos antecipadamente.
Relevância para veterinários
O corpo humano pode ser utilizado em todas as ciências da vida, incluindo a biologia geral e a medicina veterinária. Os estudantes de veterinária seriam beneficiados através da auto-experimentação, a medida que os humanos podem também ser modelos para animais. O treinamento de habilidades específicas com um estudante como o primeiro 'paciente', em vez de um animal, pode ajudar a criar um ambiente que leve mais ao aprendizado das habilidades e na construção da confiança: nenhum animal ficará estressado ou sofrerá danos no processo e os estudantes não terão que encarar este problema ético; o treinamento pode ser mais controlado e o 'paciente' pode responder as sugestões e dar retorno. Esse sistema também fornece a oportunidade de o estudante poder se colocar no lugar do paciente, o tipo de experiência a que os estudantes de veterinária geralmente não têm se comparados a seus colegas de medicina humana. Os estudantes também precisarão, evidentemente, aprender as técnicas referentes aos principais animais, mas eles estarão mais bem preparados: tirar sangue de um coelho ou de um cavalo é algo bem diferente, mas tirar sangue de um colega de classe significa uma experiência intermediária.
Laboratórios in vitro
O rápido desenvolvimento e a percepção da tecnologia in vitro na pesquisa e verificação está baseado nas vantagens tanto éticas quanto científicas da cultura celular e de tecido. O baixo custo e rápida taxa de projeção para avaliação do grau de toxina e confiabilidade superior e possibilidade de repetição dos testes realizados in vitro, são complementados com as vantagens éticas da não utilização de animais vivos. Essa mudança, na prática, precisa ser apoiada pela familiaridade dos estudantes com as técnicas e as práticas in vitro que podem fornecer essa experiência. Uma ênfase maior quanto à farmacologia celular e aos estudos fisiológicos, por exemplo, poderiam contribuir significativamente para a substituição de experimentos animais. As células e tecidos animais utilizados no trabalho in vitro podem ser utilizados de forma ética em desenvolvimentos recentes de substituição de soro não-animal e cultura de células sem soro que superam os problemas éticos de utilização do convencional soro fetal bovino. Além disso, dentro de algumas práticas da biologia celular, a utilização de tecido e células animais pode ser diretamente substituída por materiais provenientes de plantas: para estudo da respiração celular e transporte de elétrons, por exemplo, as mitocôndrias podem ser utilizadas a partir de nabos, batatas ou da beterraba em vez da utilização do fígado de ratos (10). Com a utilização ética da preservação animal ou com a utilização de materiais provenientes das plantas, então, tais práticas in vitro podem ser consideradas como alternativas.
Estudos de campo
Os estudantes inseridos nos campos da biologia, zoologia, etologia e até mesmo da ecologia podem, freqüentemente, se deparar com situações onde os animais são estudados nas instalações de um laboratório, representando o modelo da natureza, ou onde a interação com os animais no campo é prejudicial aos próprios animais ou aos seus habitats. Mas a biologia não é somente experimentação, nem o seu estudo precisa causar dano. Muito do conhecimento adquirido sobre os animais e a natureza foi conseguido através da observação e outros campos de trabalho não-invasivos. Essa tradição de estudar os animais em seu ambiente natural é uma alternativa particularmente recompensadora à utilização animal prejudicial a qual poderia ser desenvolvida e explorada a fim de substituir algumas utilizações animais prejudiciais nas disciplinas acima citadas.
Esse tipo de campo busca oferecer oportunidades de estudo do animal enquanto expressando comportamento natural em vez do limitado ou estereotipado comportamento apresentado por indivíduos isolados ou por grupos dentro de laboratórios. Eles podem fornecer uma experiência de aprendizado mais rica para o estudante e dar suporte à apreciação de animais como indivíduos de integridade livre, existindo dentro de uma complexa e dinâmica teia de realidades sociais, culturais e ecológicas.
Ambiente e impacto
O campo de estudo ideal deveria contribuir com a proteção animal e seu bem-estar, direta ou indiretamente. Não deveria envolver prejuízos ou causar qualquer perturbação. A avaliação de até que nível uma atividade pode ser invasiva e a opção pela que minimize esse impacto deve, obviamente, ser feita durante o planejamento dos níveis do trabalho de campo. O impacto depende do ambiente, das espécies, do método aplicado e de diversos outros aspectos. Áreas ecologicamente sensíveis e espécies ameaçadas devem ser evitadas, a menos que benefícios significativos para ambos sejam esperados e os instrutores devem ter a preparação necessária referente aos animais e habitats que façam parte do estudo. A avaliação dos métodos escolhidos deveria sempre ser realizada depois a fim de dar apoio completo a análise dos resultados e para permitir a melhoria do esboço no futuro.
Os campos e as florestas oferecem, claramente, oportunidades para estudos de campo e os insetos, os pássaros e muitos outros animais podem facilmente ser estudados com um mínimo de distúrbio. A sensibilidade do estudante e do instrutor em relação aos animais e seus habitats pode beneficiar tanto o estudo de campo quanto aos animais, e as técnicas, tais como a análise de dispersão e observação, ou o monitoramento a distância também podem reduzir a perturbação.
Vilas e cidades também são ricas em possibilidades de estudo de populações selvagens ou semi-selvagens de animais locais, tais como pombos, ratos, raposas e em alguns países vacas e primatas não-humanos (11). Os insetos, cães e gatos domésticos e animais de rua podem também compor parte do estudo de campo do estudante, como também os próprios humanos. O trabalho de conservação, os centros de reabilitação para animais selvagens, os abrigos para resgate de animais de fazenda e abrigos que não matam animais de rua são outros ambientes éticos; eles podem fornecer oportunidades de estudo específicos, eticamente aceitáveis, ou de disponibilidade prática para estudo em outro local. Os zoológicos e outros locais de cativeiro permanente raramente oferecem um ambiente suficientemente natural, ou livre de prejuízo para justificar sua utilização como campo de estudo, embora eles possam ser utilizados para ilustrar o sofrimento e a forma como os animais não deveriam ser mantidos.
Interação homem-animal
A interação humana com os animais também pode ser estudada. A investigação das populações animais antes, durante e depois da interação, a partir da qual o benefício aos animais - por exemplo, o comportamento da ninhada de populações de pombos nas torres ou a interação social em uma população de gatos de rua que tenha sido esterilizada e esteja recebendo comida e abrigo - pode fornecer um material interessante para análise, como também benefícios diretos para os animais.
Uma abordagem desafiadora para o trabalho de campo que envolve a investigação das relações entre homem x animal é a de esboçar experimentos onde os animais interajam com o homem em seus próprios termos. Bom conhecimento e sensibilidade quanto ao comportamento animal e a interação entre as espécies são pré-requisitos para tais experimentos e o desafio é criar uma situação onde os próprios animais escolham interagir e, através disso, participarem do estudo. Eles não são coagidos a participar e podem andar, saltar ou voar para longe a qualquer hora. Essa 'experimentação positiva' dá aos animais a oportunidade de expressar ação, em vez de retirar a ação, e isso também poderia trazer-lhes benefícios. Essa é uma analogia quanto a alguns experimentos com seres humanos baseados na ética de consentimento informado para o envolvimento. Como em quaisquer tipos de experimentos, os responsáveis pela iniciativa do estudo devem estar certos que a escolha pela participação é absolutamente livre. Os exemplos de experimentação positiva incluem o estudo das interações entre os cães e seus donos, ou o estabelecimento de outras relações de proximidade entre homem e animal, além das interações eticamente responsáveis entre os humanos e os primatas não-humanos (12).
Notas e referências
1. The Principles of Humane Experimental Technique - W.M.S. Russell & R.L. Burch
(UFAW, 1992)
2. O vídeo interativo e os DVDs são outros tipos de mídia menos comuns
3. Veja o item para P.O.P. Trainer na Parte C - Arquivo de Alternativas
4. Veja o item para o Sistema de Treinamento Cirúrgico (Modelo de Aboud) na Parte C - Arquivo de Alternativas
5. Por exemplo, a Universidade de Glasgow University (Reino Unido) está desenvolvendo um simulador de realidade virtual para treinamento de habilidades clínicas veterinárias.
6. Para um resumo desses papers, veja Ethically-Sourced Cadaver Surgery: A Submission to Murdoch University's Division of Veterinary and Biomedical Sciences (Knight, A., 2000). Veja também Balcombe e Kumar, neste livro.
7. Por exemplo, no Reino Unido, a educação médica humana britânica também envolve a utilização um pouco prejudicial de animais.
8. Veja o item Biopac na Parte C - Arquivo de Alternativas
9. Por exemplo, veja Axelsson. M., J. Altimiras & K. Pitsillides (2002). TeleHeart: Using Telemetry to Teach Function and Control of the Human Heart - from face-to-face to distance education. Bioscience Explained Vol. 1.1. www.bioscience-explained.org. Veja ainda o item sobre TeleHeart na Parte C - Arquivo de Alternativas
10. The Excellence of Turnip Mitochondrial Fractions. Joaquim A.F. Vicente and Vitor M.C. Madeira (2000). Biochemical Education, volume 28, pp. 104-6.
11. Cohen, P.S. & M.L. Block (2001). Field-Based Animal Research Approach for Teaching Learning & Motivation. NUCASE.
www.casdn.neu.edu/~nucase/library/cohenandblock.html
12. Por exemplo, veja Smuts, B. (2001). Encounters with Animal Minds. Journal of Consciousness Studies. Vol. 8, nos. 5-7, pp: 293-309
anterior [1]
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