| Retorna |
5. Objeção Consciente: Papéis e responsabilidades para estudantes e professores
O contexto
Para qualquer discussão quanto a utilização prejudicial de animais e às alternativas na educação, o tema de objeção consciente deve ser considerado. Se compararmos a objeção consciente com a guerra, ela seria uma ação individual ou em grupo através da qual os que objetam se recusam a participar das práticas que são contra suas crenças morais. Este é um tema de direitos civis relacionado à liberdade de consciência e, na educação, ele tem um impacto direto sobre o currículo. Onde as alternativas não substituíram a utilização prejudicial de animais nas ciências da vida e as solicitações para sua implementação foram negadas, então a objeção por parte dos estudantes é um cenário bem provável. Assim, além de se recusarem a participar em dissecações de animais mortos ou de experimentações animais, os objetores irão, certamente, reivindicar por alternativas humanitárias.
A objeção consciente dos estudantes pode, portanto, criar uma situação desafiadora para os professores, já que ela levanta questões sobre práticas estabelecidas e liberdade acadêmica. Além disso, ela está enraizada em valores culturais positivos tais como o respeito à vida e um compromisso com curar em vez de prejudicar. Ainda, as habilidades do raciocínio crítico bem desenvolvido e o conhecimento ético estão freqüentemente evidenciados pelos estudantes que, conscientemente, objetam. Por ser um processo, a objeção pode também representar um papel significativo na resolução de conflitos éticos existentes e na modernização da educação através da introdução de alternativas.
Grau de objeção
O número de estudantes que objetam parece freqüentemente baixo. Isto é compreensível se consideramos as pressões acadêmicas e sociais de ser um estudante e das punições psicológicas e acadêmicas que geralmente ameaçam aqueles que questionam o status quo. Mas a situação é enganadora, como demonstrado na literatura, quando assuntos inerentes à ética a cerca da utilização prejudicial de animais são discutidos abertamente, muitos outros estudantes estão preparados para falar sobre seus desconfortos e discordância relacionados a esta prática (1).
Em particular, a silenciosa discordância dos estudantes, entretanto, não soluciona o problema ético e nem limita o prejuízo causado aos animais. Os estudantes podem participar em experimentos contra sua vontade ou escolher a observação a distância. Em alguns casos eles podem decidir mudar ou abandonar o curso em vez de defender e seguir suas crenças desafiando os experimentos. A objeção consciente, em si, envolve os estudantes escolhendo aqueles que levantam questões sobre o tema da utilização prejudicial de animal junto a seus professores e expressam seus pontos de vista na tentativa de atingir uma solução em acordo mútuo que envolva a substituição da utilização animal. É provável que isso envolva uma postura mais pública contra os experimentos e a solicitação pelo direito às alternativas através de um comprometimento firme, seja pessoal ou coletivo, para o alcance de sua implementação. Esta ação freqüentemente envolve um número pequeno de determinados estudantes, mas em algumas ocasiões classes inteiras ficaram conhecidas por objetarem.
Reação dos professores
A reação dos professores nessas situações varia consideravelmente, freqüentemente refletem suas habilidades ou escolha em lidar criativamente com desafios e a confiança institucional e pessoal com relação ao processo de transição. No melhor dos casos, eles podem reagir através da investigação das alternativas existentes e da implementação de uma combinação de ferramentas humanitárias e abordagens as quais vão ao encontro dos objetivos de ensino e da substituição das práticas de prejuízo animais. Eles também podem desenvolver suas próprias alternativas. Em condições ideais, as mudanças curriculares acontecerão para a classe como um todo, de maneira que todos os estudantes poderão se beneficiar; de qualquer forma, onde as alternativas não são bem conscientizadas, elas poderão ser utilizadas somente pelos estudantes que escolheram a 'trilha das alternativas'.
Os professores poderão também deixar os estudantes encontrarem suas próprias maneiras de reunir os objetivos de ensino para práticas particulares utilizando as alternativas. Estudantes do curso de veterinária, por exemplo, podem considerar a utilização ética de cadáveres de animais para o estudo da anatomia ou da prática de habilidades clínicas ou organizar práticas cirúrgicas extracurricular com o apoio de veterinários independentes. A faculdade pode consentir o reconhecimento desta atividade como parte dos créditos do curso e monitorar o progresso dos estudantes.
Alguns estudantes, entretanto, enfrentam uma oposição emocional altamente defensiva por parte dos professores e, ocasionalmente, até mesmo de seus companheiros de turma, de forma que a discussão calma e racional sobre os temas é impossível. A objeção consciente é, algumas vezes, tomada como pessoal pelos professores, em vez de um desafio à negação da escolha do estudante ou como uma crítica à prática em si. O questionamento agressivo dos estudantes e o tratamento desprezível quanto as suas preocupações são surpreendentemente comuns e muitos têm sofrido ameaças e recebido notas baixas, ficado sem nota ou até sendo expulso.
As escolhas do estudante
Face à oposição ou onde consideram que as alternativas auto-organizadas refletem uma abnegação da responsabilidade da instituição em fornecer as experiências educacionais, os estudantes podem optar em fazer uma campanha mais dura para a disseminação oficial de implementação de alternativas. As rotas escolhidas pelos estudantes podem incluir a inclusão do apoio de colegas e professores simpatizantes, grupos de defesa de estudantes, organizações de liberdade civil e outros objetores conscientes; apresentação as autoridades da universidade de argumentos bem estruturados e detalhes sobre alternativas importantes e suas vantagens pedagógicas e, como último recurso, levar o assunto à mídia ou lançar um desafio legal.
Encontrar soluções de ganho mútuo para problemas éticos é quase invariavelmente possível. É válido olhar de perto as qualidades e abordagens de muitos estudantes objetores conscientes, como o reconhecimento dos aspectos positivos de objeção irão ajudar a dar apoio a compreensão mútua, reduzir os conflitos entre estudantes e professores e encorajar a resolução cooperativa.
Qualidades e valores
Os estudantes que objetam são provavelmente pensadores críticos ativos e, portanto, cientistas potenciais.
Serem capazes de questionar o que é ortodoxo é um sinal de pensamento crítico, científico. Não teria existido qualquer inovação - ou mesmo qualquer ciência - se não fosse pelo pensamento crítico e pelo desafio as normas estabelecidas. Muitos objetores estão também entre os mais brilhantes estudantes e essa inteligência freqüentemente tem relação com seu desejo e habilidade de desafiar.
Arriscar-se a oposição e punição por parte dos professores, como uma conseqüência potencial da objeção, não é uma escolha fácil. Os estudantes que fazem objeções preocupam-se profundamente com sua educação e têm um elevado nível de motivação e comprometimento para com ela. Assim como seu interesse pelas melhores práticas através da utilização de alternativas, eles também podem estar envolvidos em trabalho de treinamento extracurricular, clubes de ciências para estudantes ou de proteção animal para obtenção de maior experiência nesses campos.
Eles são, provavelmente, mais emocionais, valorizam a sensibilidade, o respeito, a empatia e a compaixão.
Estudantes que dão valor as próprias emoções assim como as dos outros, possuem uma autoconsciência que é intrinsecamente valiosa e que tem um impacto positivo em termos de aprendizado bem-sucedido: com uma consciência sobre si mesmos e seus próprios processos de aprendizagem eles são mais prováveis de aprender de forma efetiva. Os esforços do estudante para dar apoio a implementação de alternativas em um currículo bem elaborado deriva, em parte, desta consciência sobre o processo de aprendizado e dos ambientes efetivos de aprendizagem. Tal consciência é apoiada pela evidência publicada em estudos acadêmicos, o quais demonstram que as alternativas soam, pelo menos, tão efetivas quanto as experimentações animais em termos da atuação do estudante (veja Balcombe, neste volume).
Juntamente com suas habilidades de pensamento crítico, os conhecimentos emocionais informam suas facilidades para lidar com temas éticos. O conhecimento ético é de importância crucial nas ciências da vida e a familiaridade com a ética terrena em um estágio precoce é uma habilidade e um recurso valioso. Apoiar e encorajar o processo de desenvolvimento emocional e ético é importante para todos. A objeção consciente é também uma expressão de como assumir a responsabilidade pelas próprias atitudes, tanto através da recusa em participar da prática que é contrária a sua própria moral, quanto pelo pedido da implementação de alternativas. Além disso, os estudantes estão geralmente comprometidos em impulsionar soluções cooperativas e em engajarem-se, de maneira responsável, com os professores quanto ao tema. Assumir responsabilidades e desenvolver qualidades de liderança verdadeira devem ser atitudes bem-vindas e recompensadas.
Resolução de conflitos éticos
Os estudantes objetores são catalisadores de resoluções de tensões existentes e,
freqüentemente, não mencionadas. Cabe ao professor responder de forma apropriada quando a tensão a cerca da utilização prejudicial de animais é mencionada e explorada. Os professores podem lidar com o desafio através da reunião da energia intelectual e da paixão dos estudantes. Tristemente, alguns professores evitam fazer isso e lançam mão de meios como imposição de autoridade e punição, ou ainda praticando o não-engajamento. A resolução de conflitos pode melhorar significativamente o ambiente de aprendizagem se incluir a relação entre estudante e professor. Os estudantes apreciarão os esforços feitos pelos professores para lidar com os temas e para implementar alternativas e se sentirão valorizados e encorajados quanto ao seu pensamento, aprendizado e compromisso com a ética. A melhoria da comunicação que acompanha uma abordagem mais respeitosa e de parceria dentro da educação significa que tanto a sabedoria quanto a experiência dos professores pode ser transmitida de forma bem-sucedida para os estudantes. O pleno respeito em ambas direções pode criar um ambiente bem livre, onde o crescimento e o aprendizado podem florir. E ensinar estudantes que se preocupam profundamente quanto a própria educação e têm um alto nível de respeito por seus professores pode ser bastante gratificante para os próprios mestres. Tal respeito vem de uma fonte muito diferente daquela que demanda da autoridade.
Catalisando a mudança
A resolução de conflitos relacionados a utilização prejudicial de animais conduzirá a apresentação de algumas alternativas. Como catalisadores, portanto, os estudantes podem causar mudanças significativas. Se a liberdade acadêmica dos professores for entendida como sendo limitada pela substituição de métodos convencionais, então deveria ser lembrado que a liberdade acadêmica sempre teve obstáculos éticos e que seus praticantes podem ser questionados pela sociedade. Informado pela evolução de valores culturais e os impactos dos desenvolvimentos tecnológicos, o processo de diálogo e do estabelecimento de consenso social ajuda a definir quais são esses obstáculos. Além disso, qualquer liberdade que negue a liberdade do outro é absurda: negar a liberdade de escolha do estudante ou dos animais quanto a liberdade de viver não é eticamente consistente. Em contraste, a liberdade acadêmica para desenvolver modos de ensino humanitário progressista constitui uma expressão de liberdade ilimitada. Essa orientação positive, enraizada na liberdade de criação é o poderoso contraponto para quaisquer perdas de 'liberdade' acadêmica para o prejuízo animal ou de negação de escolha por parte do estudante.
Potencialidades e oportunidades concentram-se ao redor de quaisquer solicitações por mudanças progressistas. Com a entrada de novas idéias e novas energias, os estudantes poderão ser bem recebidos como parceiros do estabelecimento de ensino para ajudar na modernização e tornar humanitária a prática atual. Se os estudantes têm energia para discutir e progredir nesse tema, então uma parte dessa energia pode ser canalizada pelos professores. No desenvolvimento de ferramentas alternativas, como por exemplo um novo software, os estudantes podem depositar suas idéias, realizar uma parte do trabalho, e testar versões beta. Para abordagens alternativas, como por exemplo a de utilização de cadáveres provenientes de fontes éticas, a energia do estudante pode ajudar a estabelecer a infra-estrutura. Essa participação no processo de mudança irá também auxiliar os estudantes a se comprometerem com o processo de aprendizado. E a utilização prejudicial de animais e as alternativas fornecem um excelente estudo de caso para futuro desenvolvimento de pensamento crítico e habilidades de conhecimento ético.
Capacitação
Para os próprios estudantes, a implementação de alternativas é, sem dúvida, um resultado bem sucedido.
Mas o processo de objeção consciente como um todo pode ser elucidativo e capacitador. Se ele começa com um simples desconforto frente a experimentação animal ou se é disseminado por uma posição ética bem desenvolvida, achar coragem para levantar a voz coloca em movimento um processo de capacitação segundo o qual a ação do indivíduo para a catalisação das mudanças torna-se mais e mais aparente e forte.
Forças e qualidades existentes podem ser aprimoradas através da objeção, embora o processo não seja, certamente, sempre fácil. Desafiar e ser desafiado desenvolve no indivíduo o raciocínio crítico e pode forçá-lo a um refinamento crítico quanto a sua posição ética. É recompensador exercitar e desenvolver uma mente incisiva e superar a ociosidade intelectual. Obter maiores conhecimentos éticos e ser verdadeiro com as próprias emoções é sempre uma forma de libertação. A prática da autenticidade é surpreendentemente radical e, combinada com a autoconfiança, pode ser muito efetiva para a comunicação. Sentir-se mais vivo e engajado com o mundo através do ato de pensar mais, sentir mais e ser mais ético é a alternativa para a negação, conformidade e obediência. Essas práticas de negação da vida ajudam a sustentar a utilização prejudicial de animais e limitam as únicas contribuições para a diversidade cultural e mudança progressista que cada pessoa poderia fazer.
O objeção consciente, portanto, facilita a capacitação, a qual apóia as subseqüentes objeções. Com uma visão bem elaborada da educação humanitária, uma apreciação realística da situação existente e conhecimentos das habilidades do indivíduo, a mudança progressista pode certamente ser ocasionada por um ou mais indivíduos dedicados. A estratégia exata, ou o mapa da rota, não precisa ser previamente conhecido em detalhes: o caminho de menor resistência ficará aparente, especialmente conforme o indivíduo começar a viver mais no presente e mais centrado em seu próprio poder. Mas uma visão do mundo mais otimista e a fé em algumas formas de sucesso farão com que a realização dessa visão se torne mais provável.
O desenvolvimento do desejo representa um papel crucial no autodesenvolvimento e, portanto, na catalisação da mudança. Um forte desejo é, de fato, a energia para a autodeterminação e reflete uma identificação com a decisão e o comprometimento (em vez do esforço da 'força de vontade' e de 'tentar demais' ou ainda a 'obrigação de inflexibilizar o autodomínio'). O domínio ajudará de forma direta e colocará energia apropriadamente e sem esforço. E a boa vontade fornecerá a base ética necessária (2).
Fontes de informação e suporte apresentar-se-ão freqüentemente, cada vez que um compromisso em si ou uma mudança ocorram. Novas comunidades de pensamento, que se preocupam com as pessoas podem se tornar visíveis. Além disso, sempre haverá um forte respeito por estudantes que se recusam a desistir ou que se comprometem com professores que não descordariam publicamente de seus colegas, mas que são certamente contrários a utilização prejudicial de animais e apóiam a mudança curricular. Expressar esse apoio ou ajudar de outras maneiras pode ser muito valioso para os estudantes.
Qualquer ação, incluindo a objeção e as reações subseqüentes dos professores, deve abrir possibilidades para futura cooperação e iniciativas, em vez de limitá-las ou impedi-las. Assegurar que o que se pretende está sendo realizado de forma responsável, sempre que possível de maneira cooperativa, ajudará na sua garantia. A 'não-cooperação' através da objeção consciente, de qualquer forma, é a única opção disponível quando a utilização prejudicial de animais é compulsória. No entanto, quando um estudante se recusa a abrir mão de temas éticos, todas as outras avenidas para a cooperação com os professores ainda estarão abertas. Depende de ambas as partes a exploração destas avenidas e a aspiração por soluções de ganho mútuo.
Notas e referências
1. Para um resumo dos estudos publicados sobre as atitudes quanto a utilização prejudicial de animais na educação, veja Balcombe, J. (2000). The Use of Animals in Higher Education: Problems, Alternatives and Recommendations. Humane Society Press, Washington, D.C.
Veja também Pedersen, H. (2002). Humane Education: Animals and Alternatives in Laboratory Classes. Aspects, Attitudes and Implications. Humanimal 4.
2. Para uma completa exploração quanto ao desejo, veja Ferrucci, P. (1995). What We May Be: Techniques for Psychological and Spiritual Growth through Psychosynthesis. Thorsons, London.
|