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Prefácio
Quando eu estava estudando na Universidade de Cambridge, nos anos 70, conceitos como respeito por todas as formas de vida e liberdade de consciência do estudante eram dispensados dentro da academia. Como qualquer estudante do segundo ano de Ciências Naturais, eu entrei na sala de prática fisiológica e deparei com dúzias de coelhos sem cérebro, os quais tínhamos que dissecar e cujas reações às drogas tínhamos que monitorar como parte de nossa experiência de aprendizado. Solicitações como as de utilizar somente um coelho ou que um filme fosse feito para aulas futuras foram varridas por professores acadêmicos.
Porém, mais perturbador do que o desperdício desnecessário de vidas animais era o engatinhar da conscientização de que o meu entusiasmo e excitação pela ciência começavam rapidamente a sufocar minhas preocupações. Assim, inicia-se o processo de 'desensibilização', ao qual todo estudante de ciência da vida está suscetível quando ensinado através de métodos convencionais baseados na utilização de animais. Parte desse processo de aprendizado, deliberado ou não, era observar os animais através de seu valor instrumental e não intrínseco. Mais tarde, minhas memórias tornaram-se vagas quanto ao propósito e conseqüência de muitas dessas aulas que utilizavam 'preparo' animal. Em contraposição, eu me lembro bem e com consciência clara de outras práticas, onde nós, estudantes, experimentávamos práticas inofensivas em nós mesmos para demonstrar princípios fisiológicos chave.
Quando se está participando de uma campanha que se acredita ser importante, especialmente se ela requer uma troca de paradigmas intelectuais e sociais, é fácil sentir-se desencorajado pelo passo aparentemente lento do progresso. Os esforços despendidos para transformar o status quo, freqüentemente, encontram resistência implacável devido ao poder de transição, pela falta de visão e a má vontade da maioria das pessoas em se afastarem de suas 'zonas de conforto'.
Aqueles que acreditam na educação humanitária aplicada as ciências da vida - um conceito de ensino e aprendizado que evita o prejuízo animal e encoraja o pensamento crítico - podem, ocasionalmente, sentir-se desencorajados. Estudantes que tiveram que mudar de curso ou foram prejudicados porque a eles não foram oferecidas alternativas ao uso invasivo de animais e educadores que tentaram melhorar a maneira como as ciências biológicas são ensinadas podem sentir que o modelo de ensino nunca irá mudar.
Estou envolvida em alternativas à utilização de animais na ciência por mais de vinte anos e posso oferecer uma perspectiva diferente. Tem havido uma dramática evolução no pensamento, nas atitudes e na prática, no que se refere ao uso de animais na educação das ciências da vida. Hoje, a consciência e o respeito pela vida podem ser discutidos em círculos acadêmicos sem a expectativa de uma reação de extrapolação ridícula ou defensiva.
É também possível falar sobre a empatia com o sofrimento dos animais sem ser dispensado por excesso de sensibilidade. Para o estudante consciente de hoje, a escolha não é somente entre a utilização de animais ou a auto-experimentação. Nem tampouco a escolha está restrita a concordar com a visão multicultural, ou com a desistência ou mudança de curso. Há agora uma gama efetiva de sofisticadas ferramentas de educação humanitária, que vão desde a utilização de manequins e modelos cirúrgicos até pacotes de software de multimídia interativa em CD-ROM. Essas opções podem substituir as práticas baseadas na utilização de animais em disciplinas como anestesia, tratamento intensivo, anatomia, habilidades cirúrgicas, fisiologia, farmacologia, entre outras. Além disso, quando os animais são genuinamente necessários para a aquisição de habilidades, a utilização ética de cadáveres animais ou o tratamento benéfico com pacientes animais podem substituir práticas convencionais que envolvem experimentações em laboratório.
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prefácio
Esta nova edição de from Guinea Pig to Computer Mouse é muito mais que um catálogo de produtos disponíveis para o ensino de ciências da vida de maneira humanitária e progressista. Assim, conforme fornece descrições dessas alternativas, esse livro também oferece ensaios inteligentes, originais e bem argumentados, explicando o por quê e o como de se alterar o processo educacional para benefício dos estudantes, dos professores, dos animais e das ciências da vida. Isto não se trata de uma meta futura: a grade curricular já mudou em muitos estabelecimentos de ensino superior e os que não utilizam animais ou que são amigos dos animais estão sendo implementados mundialmente. Estatísticas anuais realizadas na Grã Bretanha, por exemplo, mostram um decréscimo de 2/3 nos últimos dez anos (de 12.000 procedimentos em 1991 para 3.760 em 2001) quanto à utilização de animais para fins educacionais.
Dentro dessas capas você encontrará informação, inovação e inspiração em quase todas as páginas.
Os editores e colaboradores, em uma cooperação internacional genuína, escrevem com um apelo entre o intelectual e o ideológico. Com explicações que partem dos tipos de métodos alternativos e avaliação de seu valor no ensino, até experiências pessoais quanto à elaboração de técnicas sem a utilização animal e do desenvolvimento do currículo humanitário de educação, o escopo e o conteúdo do livro desafiam antigas concepções e oferecem uma nova realidade.
A aceitação de alternativas na educação das ciências da vida tem sido comparada às mudanças similares na pesquisa biomédica e de verificação. Os animais são amplamente utilizados na pesquisa, especialmente como 'modelos' para o estudo de doenças humanas e no desenvolvimento de tratamentos; eles também são utilizados em testes de segurança para medicamentos, produtos químicos de uso industrial ou doméstico, pesticidas e novos produtos alimentícios. Entretanto, questões sérias têm sido levantadas considerando-se a importância e credibilidade dos dados obtidos através de tais experimentos quando extrapolados para os seres humanos. Tem havido um interesse crescente para a criação de novos métodos, incorporando tecnologia e conhecimentos de ponta, os quais poderiam substituir - e melhorar - os experimentos animais. Estudos moleculares, abordagens de cultura de células, a genética de tubo de ensaio e os estudos clínicos e da população oferecem maneiras humanitárias e multidisciplinares de atingir o progresso.
A educação humanitária é, assim, parte de um contexto mais amplo de mudança científica, no qual os animais são cada vez mais reconhecidos como seres sensíveis, com o direito de não serem machucados. Esses campos relacionados estão articulados em um círculo positivo de feedback: quanto maior o número de estudantes formados com seu senso de compaixão intacto, encorajados a apreciar outras formas de vida e a questionar os dogmas, maior será a procura por profissões e oportunidades de trabalho que reflitam essas qualidades. Conforme os jovens pesquisadores estão se tornando propensos a escolher campos onde a utilização animal seja evitada e cujos ideais e criatividade beneficiarão de maneira incomensurável o desenvolvimento em curso, menor será o uso de métodos de utilização animal para pesquisas e testes de segurança.
As mudanças de paradigma na sociedade raramente acontecem sem um esforço considerável ou sem comprometimento. A InterNICHE, organização que produziu este livro, tem realizado campanhas e tem trabalhado, incansavelmente, com estudantes e professores que estão interessados em ouvir e preparados para a visão da InterNICHE.
Freqüentemente, a pessoa certa, na hora certa, pode atingir resultados extraordinários e sem precedentes. Algumas dessas pessoas contribuíram para a realização desse livro. Outras estão a ponto de lê-lo, e com isso sentirem-se mais poderosas em sua movimentação para deixar "a zona de conforto" e tornarem-se parte da solução: o ensino e prática humanitários das ciências da vida.
Dr Gill Langley, MA PhD (Cantab) MIBiol CBiol
Consultora Científica do Dr Hadwen Trust para Pesquisa Humanitária
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