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Foto:
Diretor e Vice-diretora da FMABC, Dr. Luiz Henrique Paschoal e Dra. Maria
Alice Tavares, com "Sorriso" - o cachorro mascote da Faculdade.
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Juiz reconhece direito à objeção de consciência e
obriga Universidade Federal do Rio Grande do Sul a providenciar métodos
substitutivos.
Agência Estado (23 de maio 2008)
O juiz titular da Vara Federal Ambiental, Agrária e Residual de Porto
Alegre, Cândido Alfredo Silva Leal Júnior, assegurou a um aluno de
ciências biológicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS) o direito de elaborar trabalhos alternativos às aulas práticas
com uso de animais. Leal Júnior reconheceu o direito de "objeção de
consciência" apresentado pelo autor da ação para as disciplinas "que
possuem aulas práticas com o uso de animais e envolvam práticas cruéis"
e determinou que a UFRGS providencie atividades alternativas nas
cadeiras de Bioquímica II e Fisiologia Animal B, com integral
validade para a aprovação final.
Ele rejeitou pedido do estudante para que fosse proibido o uso de bichos
em aulas práticas do curso, entendendo que não há comprovação de que os
procedimentos adotados pela universidade são ilegais ou
abusivos. A UFRGS também foi condenada a indenizá-lo em mil reais por
danos morais. O aluno tentou dispensa das atividades didáticas com uso
de animais junto à universidade, que recusou o pedido e determinou a
reprovação nas cadeiras relacionadas, caso não participasse das aulas.
Em julho, o universitário obteve liminar nesta ação, que foi cassada
pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), da Região Sul, em
recurso da UFRGS. A Justiça Federal informou que o recurso tem efeito
suspensivo - impede a eficácia desta sentença da Vara Ambiental. A
decisão de primeira instância é do dia 16 e foi divulgada hoje em
boletim eletrônico da Justiça.
Leia a íntegra da sentença
aqui
UFRGS deixa de usar animais para treinar
estudantes de medicina
Publicidade Folha Online (visite
o link)
SIMONE IGLESIAS
da Agência Folha, em Porto Alegre
Anestesiar animais de rua, na maioria cães, para ensinar procedimentos
médicos como suturas, incisões e punções deixou de fazer parte da rotina
dos professores e alunos de medicina da UFRGS (Universidade Federal do
Rio Grande do Sul).
A direção do curso montou um laboratório para as aulas práticas de
técnica operatória com simuladores plásticos e sangue artificial.
"Queríamos acabar com um problema que sempre existiu nas faculdades de
medicina. Algumas criam os animais para usá-los nas aulas, ainda vivos.
Mas, e depois, o que se faz com eles? Uma eutanásia provocada? Alguém
vai passar a cuidar deles?", questiona o diretor da faculdade de
medicina, Mauro Czepienewski, 53.
Czepienewski diz que os estudantes e professores se deparavam com um
problema moral, de ter que abrir um cão vivo e, em seguida, descartá-lo.
"Nos víamos diante da questão: acabar com a vida para preservar a vida.
Por isso, passamos a nos dedicar a uma alternativa", afirma.
O projeto custou R$ 300 mil, fora a manutenção dos equipamentos e
reposição de material cujo preço varia de R$ 200 (pele artificial) a R$
8.200 (um torso equipado com artérias e veias).
O professor adjunto de urologia e um dos coordenadores do Laboratório de
Técnica Operatória e Habilidades Cirúrgicas, Milton Berger, 51, afirma
que os alunos se sentem muito mais seguros para aprender.
"O novo método tranqüiliza. Muitos tinham pena de treinar em cães. Os
simuladores são mais próximos ao corpo humano, além de acabar com uma
série de implicações morais."
No laboratório, os alunos utilizam braços e pedaços de pele falsos para
aprender a suturar e fazer incisões, além de um torso, onde fazem
punções e colhem sangue (artificial).
Também são realizadas práticas mais complexas, como suturas dos
intestinos grosso e delgado em um material que simula os órgãos a ponto
de a mucosa e a textura serem semelhantes às do corpo.
NOTA DA INTERNICHE:
Leia também o texto "Medical Schools Stop Using Dogs and Pigs in
Teaching; Training of future doctors now largely depends on new
technologies rather than lab animals", publicado um dia depois,
no "Chronicle of Higher Education". Isso demonstra, no mínimo, que o
ensino de técnica operatória na UFRGS está sintonizada com as discussões
e tendências modernas de ensino.
Clique aqui
para ler o artigo em inglês.
Faculdade de Medicina do ABC é a primeira no
País a proibir experimentação com animais vivos na graduação
Prática é proibida por lei, porém comum em todo o País
A Faculdade de Medicina da Fundação do ABC proibiu o uso de qualquer
animal vivo nas aulas de graduação. Portaria em vigor desde 17 de agosto
coloca a instituição como primeira no País a abolir completamente essa
prática, que agora fica liberada somente para pesquisas inéditas, com
relevância científica e previamente aprovadas pelo CEEA - Comitê de
Ética em Experimentação Animal da FMABC.
Apesar de comum em faculdades e universidades com graduações em saúde, a
experimentação animal é proibida por lei “sempre que existirem recursos
alternativos”. Nos Estados Unidos, instituições de renome como Harvard,
Yale, Stanford e Mayo Medical School há tempos não utilizam animais no
ensino médico. “Existe movimento mundial para substituição do uso de
animais na graduação por outros modelos. Atendemos solicitações de
diversos docentes e alunos e resolvemos tentar, para posteriormente
termos opinião definitiva. Quanto à pesquisa, as práticas continuam
inalteradas. Nesse caso, até que se prove o contrário, o modelo animal é
insubstituível”, explica o Diretor da Faculdade de Medicina do ABC, Dr.
Luiz Henrique Paschoal.
A substituição de animais por métodos alternativos chega a 71% em
instituições de ensino superior da Itália. Além disso, 68% das escolas
médicas norte-americanas não usam animais em cursos de farmacologia,
fisiologia ou cirurgia. “Usar animais vivos é prática cruel e
desestimula o aluno. O estudante de graduação aprende e incorpora
informações sem necessidade de subjugar outro ser vivo”, acrescenta a
professora da FMABC e membro do CEEA, Dra. Odete Miranda.
As alternativas para substituição de animais vivos vão desde softwares
(programas de computador) e bonecos até auto-experimentação, uso de
animais quimicamente preservados e incorporação dos cursos básicos à
prática clínica – quando o aluno passa a aprender com casos reais, em
seres humanos. “Nossa missão é formar médicos humanos, mais envolvidos
com o paciente e sensíveis à dor do próximo. Evitar que o aluno seja
coadjuvante da morte ou do sofrimento de animais melhora o aprendizado,
pois elimina o estresse do sentimento de culpa, além de incentivar a
valorização e o respeito por toda forma de vida. Isso certamente será
refletido na relação médico/paciente após a formação acadêmica”,
completa Dra. Nédia Maria Hallage, professora da FMABC e membro do
Comitê de Ética em Experimentação Animal.
Para a Dra. Odete Miranda, a continuidade da experimentação animal no
País tem como principais motivos tradição e resistência a mudanças,
desconhecimento de métodos substitutivos e atraso tecnológico: “O Brasil
está quase dois séculos atrás de países europeus e dos Estados Unidos”,
garante. Em relação à economia, a Dra. Nédia Maria Hallage considera
mito achar mais barato a morte de animais: “É comum pensar que matar
animais sai mais barato que investir em tecnologia alternativa. Para
utilizar animais no ensino é necessária manutenção ética, que implica em
alimentação digna, funcionários habilitados, controle de zoonoses e
estrutura própria no biotério para cada espécie. No caso do investimento
em bonecos ou softwares, são todas técnicas duráveis, que abrangem maior
número de alunos e que substituem animais em diversos temas de aulas”,
completa Dra. Nédia.
Veja a portaria na íntegra (JPG,
320Kb)
Matéria no Globo (12.set.2007)
Justiça garante o direito fundamental à objeção
de consciência para que aluno do curso de Ciências Biológicas não
assista aulas práticas que utilizam animais
(Fonte: GETEA
[link], 17/06/2007)
Em junho um aluno do curso de Ciências Biológicas da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul procurou a ONG Movimento Gaúcho de Defesa
Animal e Instituto JUS BRASIL para tentar reverter decisão da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que negou objeção de
consciência para as disciplinas de Bioquímica II e Fisiologia Animal B
do Curso de Biociências, alegando, a universidade, que o aluno deve
ficar submetido ao seu programa didático.
Com o apoio das ONGs o aluno ingressou com uma ação ordinária, na
Justiça Federal, onde o magistrado fundamentou a sua decisão, entre
outros pontos: " é um direito do aluno manter-se fiel às suas crenças e
convicções, não praticando condutas que violentem sua consciência nem
vendo-se privado de suas possibilidades discentes por conta disso (art.
5º-VI e VIII da CF/88); e com relação a postura que a Universidade deve
adotar: "o professor e a instituição de ensino não podem impor aos
alunos uma única visão didática, sem respeitar outras alternativas
disponíveis e viáveis, uma vez que isso afronta os valores
constitucionais do pluralismo político (art. 1º-V da CF/88), a liberdade
do aluno (art. 5º-VI e VIII da CF/88) e a diretriz constitucional de que
o ensino deve respeitar o pluralismo de idéias e concepções pedagógicas
(art. 206-III da CF/88).
Muitas universidades nacionais negam a objeção de consciência aos
alunos, e estes constrangidos e descontentes, acabam deixando os cursos,
mas o direito fundamental à objeção de consciência está previsto e
garantido da Constituição Federal, e se revela a expressão da
democracia, ainda nas palavras do magistrado: "a objeção de consciência
devidamente formalizada pelo aluno não decorre de mero capricho nem é
arbitrária, encontrando amparo em diversas posturas sociais e movimentos
de defesa de direitos em que indivíduos ou grupos defendem que os
animais mereçam respeito enquanto animais e que têm direitos que devem
ser protegidos contra a atuação humana desnecessária(...)"
A legislação nacional incorporou o princípio ético de que o uso de
animais deve ser inevitável para se alcançar o resultado pretendido,
tanto na pesquisa como no aprendizado, o que significa que não cabe
opção ao profissional a escolha pelo uso ou não do animal, pois quando
existirem recursos alternativos deverá adotá-los, sob pena de incorrer
em crime, previsto no artigo 32, parágrafo primeiro da Lei dos Crimes
Ambientais.
A decisão garantiu não apenas o exercício do direito fundamental à
objeção de consciência, mas que também a Universidade disponibilize, ao
aluno, métodos de aprendizado alternativos e suficientes para garantir a
sua aprovação nas disciplinas de Bioquímica II e Fisiologia Animal B.
Essa foi uma decisão inédita no Brasil, incentivando outros alunos que
também se sintam oprimidos em seus cursos a buscarem o direito de
defender seus princípios morais e filosóficos.
A ação tramita na Vara Federal Ambiental de Porto Alegre, sob o nº
2007.71.00.019882-0.
Para ver a liminar na íntegra,
clique
aqui.
Para ler a entrevista com o estudante,
clique aqui.
O rato no centro de um conflito ético
(Fonte: Mauri König / Gazeta do Povo)
http://www.ambientebrasil.com.br/noticias/index.php3?action=ler&id=27463
O homem pode matar em nome da ciência? Este questionamento persegue a humanidade desde pelo menos o ano 500 a.C., quando pela primeira vez Hipócrates relacionou aspectos de órgãos humanos doentes com o de animais para fins didáticos. No fim da Idade Média, o racionalismo de René Descartes (1596-1650) tornaria método padrão na medicina o uso de animais em experiências. Mais recentemente, ativistas passaram a lutar pelos direitos dos bichos. O tema ganhou um viés ético além do técnico, filosófico e não só científico. Já faz algum tempo a discussão ganhou as salas de aula das universidades.
Há pouco mais de um mês o setor de ciências biológicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) suspendeu uma pesquisa em seis cães por causa das pressões. Não foi o primeiro caso no Brasil, nem será o último se depender dos ativistas. Autor do livro “Direito dos Animais” (Editora Mantiqueira), o promotor de Justiça Laerte Fernando Levai diz que o uso de bichos para fins pedagógicos é antes de tudo um crime. Eles são submetidos a cortes, injeção de substâncias, queimaduras, indução de fome e estresse para que seus organismos sejam estudados em busca de uma cura para doenças humanas. Para ele, a prática pode ser enquadrada como crime federal. A utilização de animais está proibida desde 1979 no ensino secundário.
Já as universidades estariam contrariando a Lei de Crimes Ambientais (9.605/98), cujo artigo 32 considera crime “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos”. Levai recorre ao primeiro parágrafo da lei: incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos. O segundo alerta que “a pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do animal”.
Levai interpreta o uso do animal para fins de pesquisa como um erro metodológico por considerá-lo o único caminho ao conhecimento científico. Isso inclui a
vivissecção, procedimento cirúrgico realizado em bichos vivos. Para o promotor, esse erro metodológico nasceu com Descartes e foi consolidado pelo fisiologista francês Claude Bernard (1813-1878), autor das bases da moderna experimentação animal. Levai analisa a questão mais pelo viés filosófico do que científico, já que as doenças humanas continuam existindo, algumas com índices cada vez maiores, apesar dos milhões de animais já sacrificados em busca da cura.
A questão é também mais ética do que técnica, segundo o biólogo Thales
Tréz, professor da Universidade Federal de Alfenas (MG). Thales vê uma resistência dos professores em buscar alternativas que substituam os animais. Ele coordena a Interniche Brasil, rede internacional dedicada a defender os bichos, e já encontrou 16 estudos científicos de várias partes do mundo comprovando um desempenho igual ou comparável entre métodos alternativos e o uso de animais, além de outros 12 indicando que as alternativas são mais eficientes. Apenas um estudo diz o contrário. De forma geral, esses métodos são softwares e laboratórios virtuais empregados na área de anatomia, fisiologia e farmacologia.
A mudança para métodos alternativos requer a discussão dos valores éticos e morais que estão por trás do problema. Os envolvidos devem primeiro refletir sobre “por que” mudar e em seguida “como” mudar. “Os métodos estão disponíveis, mas nem todos querem ou estão preparados para aceitá-los”, observa Thales. A discussão já ganha corpo em muitas universidades. Na PUC-PR, por exemplo, todo procedimento com animais tem de passar pela aprovação do Núcleo de
Bioética, subdividido em dois comitês, um deles para pesquisas com seres humanos e outro no uso de animais no ensino e na pesquisa.
Na falta de uma regulamentação clara, a PUC segue sua carta de princípios que visa reduzir o número de animais usados e o sofrimento deles. O coordenador do núcleo, o teólogo Mário Antônio Sanches, diz que quando possível o animal é substituído por um modelo artificial, mecânico ou tecnológico. Cada animal utilizado deve ter uma justificativa científica, que será avaliada pelo comitê.
A UFPR também criou comitês de ética. O Setor de Ciências Biológicas (SBC) já utiliza
videoaulas, simulação por softwares de ensino e estudos de casos clínicos em substituição às aulas práticas tradicionais. Os animais são mantidos apenas nos cursos onde essas alternativas não estão disponíveis ou a manipulação faz parte de habilidade prática aos alunos. “Neste caso, são usados anestésicos e tomados os devidos cuidados para evitar ao máximo o sofrimento do animal”, explica a professora-doutora Ana Maria
Filadelfi, coordenadora do Comitê de Ética em Experimentação animal do
SCB.
Ao final da aula prática em muitos dos casos não há necessidade do sacrifício dos animais, informam os professores-doutores José Marcelo Rocha Aranha e Luiz Cláudio Fernandes, respectivamente diretor e coordenador do biotério do SCB da universidade. O biotério cria espécies como o rato, camundongo,
hamster, coelho e cobaia, a maioria destinada à pesquisa.
Vivissecção nas universidades do Paraná
Ligia
Martoni [22/09/2006] Paraná On-line

A utilização de animais para fins de
ensino e pesquisa nas universidades é tema que levanta polêmica entre
protetores e comunidade acadêmica. Na última semana, a denúncia de um
suposto experimento de colocação de aparelhos ortodônticos em cães na
Universidade Federal do Paraná (UFPR) mobilizou ativistas de diversos
estados e levou os alunos a juntarem documentação necessária para uma
investigação por parte da Procuradoria da República. O caso tomou
tamanha repercussão que o experimento - que, segundo os responsáveis,
era de outra natureza - foi cancelado e os animais doados a uma instituição
protetora.
Os aspectos envolvidos no âmbito da
vivissecção vão além da questão ética. Abrangem também as reais
eficiências do método. O termo vem da junção, no latim, vivus (vivo) e
sectio (corte, secção), e consiste na utilização de animais para
experiências de ordem científica. Em busca de casos parecidos Brasil
afora, uma série de relatos foram obtidos, os quais são, no mínimo, um
tanto polêmicos. Do outro lado, parte da comunidade científica defende
que, apesar da tecnologia que permite substituir os bichos na produção
de remédios e vacinas que salvam vidas, muitas pesquisas ainda necessitam
dos seres vivos para se efetivarem.
O pesquisador e professor do Departamento
de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Alfenas (MG), Thales
Tréz, coordena uma ONG de promoção de alternativas ao uso animal no
ensino, a Interniche Brasil. Ele garante que em todas as práticas hoje
envolvidas neste âmbito o uso animal é substituível. “Quando
trabalhamos com ensino, usamos de conhecimentos preexistentes. Outros
recursos podem dar conta do que já é sabido e precisa ser transmitido
apenas”, explica o professor. Um exemplo é a aula de fisiologia
cardiorespiratória, para a qual muitas instituições ainda adotam o método
de anestesiar um cão, abrir seu tórax e injetar substâncias para
verificar as reações. “As alternativas hoje são filmes, software
interativos de alta resolução que mostram detalhadamente o interior dos
animais e modelos tridimensionais”. O pesquisador atesta que as aulas
ficam menos tensas e promovem eficiência até superior no aprendizado,
uma vez que os procedimentos podem ser revistos.
Segundo o professor, também pode-se
adquirir cadáveres de animais que morreram de forma natural para estudar
a anatomia. “A faculdade de veterinária da USP acabou com as aulas de técnica
cirúrgica que matavam animais e fez parceria com hospitais veterinários.
Quando os cães morrem, são doados para uma professora que desenvolveu
uma metodologia eficiente para conservar os tecidos”, conta. Porém,
para o professor, tão importante quanto a troca da metodologia é a
discussão ética com os alunos, a qual cabe à universidade promover.
Mas, apesar dos auxílios tecnológicos,
Thales Tréz afirma que ainda hoje acontece de professores mandarem os
alunos dos diversos cursos da área de biológicas procurarem bichos para
os experimentos. “Orientam senão a pegarem cães de rua, comprarem
galinhas, ratos, peixes, coelhos, camundongos, sapos. O problema é que não
se tem feito muita coisa para evitar isso, é discussão incipiente no
meio acadêmico; depende mais de depoimentos e denúncias para serem
impedidos”. Não existe levantamento exato sobre o número de animais
que morrem por ano no Brasil nas mesas das universidades, mas o
pesquisador garante que está na casa de dezenas de milhares. “Mesmo que
o animal tenha sido morto sem dor, não tira o problema da questão”.
Tristeza ao
perceber a dor da cobaia
“Quem já viveu a dura experiência de
encarar um cão subanestesiado tendo suas vísceras extraídas, e ao olhar
seu olhos ver lágrimas, apenas lágrimas como manifestação de dor, já
que toda sua musculatura está paralisada pelos bloqueadores
neuromusculares, sabe exatamente do que estou falando”. O desabafo é do
cientista e médico cardiologista do Instituto do Coração (InCor) de São
Paulo, Marcelo Andrade, ativista que lembra da experiência vivida durante
a faculdade para exemplificar por que defende que a ciência não precisa
da vivissecção.
A médica veterinária Mariana Coelho
Mirault Pinto também tem história semelhante. Quando ainda era estudante
na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), denunciou o sacrifício
de um cavalo, uma égua, um cão, uma galinha, um porco e um carneiro
durante uma aula de Parasitologia para que os alunos simplesmente
evidenciassem a disposição dos vermes no trato gastrointestinal. Mesmo
perseguida na universidade por sua indignação, reuniu provas e
testemunhas do procedimento quando repetido no ano seguinte. “Novamente,
diversas espécies de animais foram mortas, muitas sem anestesia. Ao
sairmos do campus, fomos direto na delegacia fazer um Boletim de Ocorrência”,
relata. O caso foi parar na Procuradoria da República e a opção foi por
um termo de ajustamento de conduta, impedindo que os procedimentos
continuassem. “Hoje, qualquer aluno pode denunciar baseado no não
cumprimento do termo”.
A partir daquele ano (2000), a universidade
instalou o Comitê de Ética em Pesquisa Animal, presente em boa parte das
universidades brasileiras, inclusive paranaenses, atualmente. “Mas
existe um ‘currículo oculto’ nas universidades, principalmente na área
de biológicas, que faz com que os alunos morram de medo de denunciar
esses problemas. Você fica sendo uma pessoa estranha no curso”, afirma
a veterinária.
PUCPR não
utiliza mais bichos vivos
| Foto: João de Noronha/O Estado |

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O departamento de Medicina Veterinária da
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) não utiliza mais
animais vivos para o ensino desde 2002. Um ano depois, foi criado o Comitê
de Ética no Uso de Animais (Ceua) da instituição. A disciplina de técnica
cirúrgica, por exemplo, ministrada no terceiro ano, é uma das que
substituíram a vivisseção pelo uso de animais mortos. “Caso os alunos
queiram treinar em animais vivos, têm a oportunidade de fazer um
protocolo no Centro de Controle de Zoonoses de São José dos Pinhais
(onde localiza-se o campus de veterinária) e participar do mutirão que
fazemos junto à comunidade para castração de cães”, afirma o
professor Marconi Farias.
Nas disciplinas de farmacologia e
fisiologia, os animais foram substituídos por filmes e, nas de anatomia e
patologia, por maquetes. O coordenador do curso e membro do Comitê de Ética
da instituição, professor José Ademar Vilanova Junior, garante que,
para os estudantes da graduação, o ensino de modo algum é prejudicado.
“O grande entrave, no entanto, é com a pesquisa. A vivissecção ainda
é muito utilizada nos experimentos com medicamentos e próteses cirúrgicas,
embora os computadores ajudem muito nas pesquisas biomecânicas (ortopédicas
e neurológicas)”, explica.
Mais tarde, nos últimos anos de faculdade,
os alunos terão contato com cirurgias e prática ambulatorial no hospital
veterinário da instituição, com animais doentes de verdade. O
atendimento é feito por um aluno, um residente e supervisionado pelos
professores. “Desde as práticas clínicas, de patologia cirúrgica até
diagnósticos, aprendem na rotina do hospital”, diz o professor Farias.
“No caso de o aluno optar por atuar profissionalmente com cirurgia, terá
de buscar uma residência e se aprofundar na prática, sendo primeiro
auxiliar. Na graduação, seja com animais vivos ou mortos, em qualquer
universidade, não vai praticar mais que cinco cirurgias, o que é
insuficiente para preparar por completo um cirurgião”, complementa
Vilanova.
Vivissecção
ainda é muito usada em universidades
A prática ainda acontece bastante nos
cursos de Medicina e Odontologia, principalmente. Para o professor
Vilanova, trata-se de uso bastante útil. “O médico que realizou o
primeiro transplante de fígado operou 620 porcos antes de fazer em um ser
humano. Se não tivesse feito o exercício, o que poderia ter
acontecido?”, questiona. “Sou defensor do bem-estar animal a todo preço,
mas não os vejo como espécies intocáveis”.
(*** Obs. da
Internichebrasil (fonte: Estadão
Online): "O
primeiro transplante do mundo foi feito, sem sucesso, em 1963, em Denver,
nos Estados Unidos, pela equipe do médico Thomas Starzl. Apenas quatro países
tinham programas constantes de transplante de fígado na época: os EUA, a
Inglaterra, a Holanda e a Alemanha. Até o primeiro bem-sucedido, feito em
1967 também por Starzl, dezenas de pessoas morreram nos centros cirúrgicos
(e por mais um bom tempo depois disso). "Houve greve dos anestesistas
por conta de tanto insucesso", conta Sergio Mies, na época braço
direito de Silvano Raia e, hoje, o chefe da equipe do Hospital Albert
Einstein. O índice de sobrevida no mundo era de cerca de 10%.)" ***)
Ele garante, porém, que em todos os
procedimentos o médico veterinário tem de estar presente, conforme
determina o comitê de ética, inspecionando os sinais que podem indicar
dor ou mal-estar do animal. O comitê da PUCPR também conta com o membro
de uma ONG de proteção animal e sugere métodos substitutivos aos
professores, como filmar as aulas.
O veterinário acaba de voltar de um
congresso que discutiu cirurgia e anestesiologia veterinárias. As discussões
dos professores não chegaram a uma conclusão sobre a vivissecção como
método mais adequado de ensino em cirurgia: “Quem é a favor defende
que o aluno não evidencia possíveis complicações ou passa pelo desafio
de tomadas rápidas de decisão, além de não ter controle adequado do
sangramento. Os que são contra afirmam que, se não houver investimento
pessoal, o aluno sairá inapto de qualquer maneira, e que a técnica cadavérica
garante menos estresse em manter o animal vivo sem ser plenamente
capacitado para isso. Além disso, são possíveis várias intervenções
em um mesmo paciente”.
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